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Voto de congratulação em Diadema ignora violência da miscigenação

Pastor João, autor do documento, desculpou-se. “Não li na íntegra”. Foto: ArquivoUm voto de congratulação de autoria do vereador de Diadema Pastor João Gomes (PRB) causou revolta em movimentos feministas e negros da cidade. O documento, apresentado na sessão do dia 22, fazia menção ao “Dia do Caboclo”, comemorado em 24 de junho. Na justificativa, o texto cita que “mulheres indígenas uniam-se aos brancos espontaneamente, ou eram oferecidas por líderes indígenas (prática conhecida como cunhadismo)”.

O texto, extraído na íntegra do blog Nação Mestiça (http://nacaomestica.org/blog4/?p=5887), ignora a violência que as índias sofriam, uma vez que não eram uniões o que ocorria na colonização, o mesmo com as negras que vieram para o Brasil como escravas. “O texto coloca de uma maneira romantizada a constituição do povo brasileiro em relação à união dos colonizadores portugueses com os povos subordinados à dominação, sendo eles os grupos étnicos indígenas e africanos no país”, explicou a coordenadora do Fórum de Promoção da Igualdade Racial “Benedita da Silva”, Marcia Regina Damasceno.

“Traz a mesma ladainha de Gilberto Freire em sua obra “Casa Grande Senzala”, a ideia da cordialidade dos brasileiros, onde diz que a escravidão no Brasil teria sido suave e amena, que as mulheres negras e indígenas escravizadas eram dóceis e passivas”, completou. Marcia ressaltou que o projeto de colonização, escravidão e miscigenação implementado no Brasil, foi por meios violentos. “Mulheres indígenas e africanas foram estupradas pelos colonizadores portugueses, gerando assim para o país novas crias de escravos ou filhos bastardos. Não vejo nada de harmonioso nesta história do país”, concluiu.

A arte educadora e militante negra Lilia Reis destacou que a ideia passada pela justificativa do projeto carece da reflexão de que vivemos em uma sociedade machista, racista e patriarcal. “É preocupante para nós pessoas negras, indígenas brasileiras, frutos de relacionamentos inter-raciais que nos deixa com a pele mais clara, termos que autoridades, ‘intelectuais’, principalmente brancos, heteros, cisgêneros que estão em todos os padrões de privilégio votarem leis, autorizar certas terminologias em documentos e dizerem que a questão da mestiçagem foi consensual”, destacou.

“Enquanto a história for contata pelos colonizadores, algumas afirmações vão continuar sendo propagadas sem nenhum filtro, sem nenhuma reflexão de que vivemos sim em uma sociedade racista, machista e patriarcal, capaz de nos fazer aceitar que a culpa é da pessoa oprimida e geralmente, essa pessoa é mulher”, concluiu. “Parem de endossar documentos e textos dizendo que as mulheres que foram estupradas, enganadas, iludidas, vendidas, quiseram de livre e espontânea vontade ter crianças mestiças com homens brancos. Aliás, queriam ser mães?”, questiona a militante.

Procurado, Pastor João se desculpou pelo conteúdo e afirmou que não chegou a ler o projeto na íntegra, elaborado por sua assessoria. “De fato não procede. Assim que possível vou fazer uma fala corrigindo isso e me retratar. Não tinha conhecimento que o texto estava assim. É mesmo uma aberração”, admitiu.

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