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Viggo Mortensen troca Jesus por Chomsky em ‘Capitão Fantástico’

Foto: Divulgação

Há 15 anos, Viggo Mortensen protagonizava “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel”, longa que deu início a uma das trilogias mais bem-sucedidas do cinema e o jogou para o primeiro time de Hollywood. Ironicamente, o ator chega à sua terceira indicação ao Globo de Ouro interpretando um professor que decide criar os seis filhos à margem da sociedade e da cultura pop no filme independente “Capitão Fantástico”.

“Não tenho nada contra filmes de estúdio, eu entendo a cabeça dos executivos: se você gasta US$ 200 milhões em um filme e mais US$ 200 milhões em promoção, você precisa ter certeza do retorno. E eles acham que repetir a fórmula de sempre diminui os riscos”, conta Mortensen à reportagem. “Só acho que tenho mais chances de encontrar histórias originais no mundo independente, seja em inglês, seja em outra língua. Quero contar histórias sobre coisas interessantes.”

“Capitão Fantástico” é interessante. Essa família “disfuncional” mora em uma comunidade isolada, ecológica e autossustentável em Oregon. Ben Cash (Mortensen) ensina seus filhos a falar diversas línguas e a formar pensamentos argumentativos. Eles passam o dia pescando e caçando para comer, aprendendo sobre sexo da maneira mais científica possível. Não comemoram o Natal, mas o “Dia de Noam Chomsky”, homenagem ao filósofo e ativista político.

Esse modelo ingênuo e puro de educação vem da infância do próprio diretor do filme, Matt Ross, que é mais conhecido como ator na série “Silicon Valley”, na qual interpreta o bilionário Gavin Belson.

“Há muito no longa que é autobiográfico”, afirma o cineasta, premiado como melhor diretor na mostra Un Certain Regard, no último Festival de Cannes. “Mas a gênese da ideia veio quando virei pai. Quando você é solteiro, só responde a si mesmo. Ao ter filhos, você passa a ser curador da vida de uma pessoa e reflete sobre seus valores.”

Porém, “Capitão Fantástico” não se prende na armadilha de se achar o portador da mensagem. Quando a família precisa sair do isolamento por causa da morte de um parente, ela pega um ônibus velho para atravessar o país e confrontar a natureza dos métodos do pai, virando uma espécie de “Pequena Miss Sunshine” mais intelectual.

“Os personagens não são heróis contra o sistema, eles nem sempre estão certos”, diz Mortensen. “É um filme sobre se achar como pai, filhos e comunidade. É sobre mudar de opinião e aceitar pontos de vista. Não estamos tendo isso em canto nenhum. Não existe isso no Brasil e com certeza não existe nos Estados Unidos hoje em dia.”

Mortensen sabe sobre o que fala. Filho de mãe americana e pai dinamarquês, passou a infância em vários países, dos quais dez anos foram na Argentina. Hoje, mora em Madri e reveza sua atenção entre pintura, poesia, música e dramaturgia.

“Era importante que nosso ator principal indicasse a proposta do filme, que mostrasse minhas intenções artísticas”, conta Ross. Quando finalmente recebeu o “sim” de Mortensen, o cineasta disse que iria mandar dez livros de filosofia e história para seu astro entender a formação intelectual do personagem.

“Falei para ele mandar a lista dos títulos antes”, diz o ator, rindo. “Eu já tinha a maioria, mas Matt é uma pessoa brilhante e o filme é especial, sobretudo neste momento sociopolítico que estamos vivendo. Penso em filmes como ‘Taxi Driver’ e ‘Sem Destino’… Não estou falando que somos tão bom quanto eles, mas, de certa forma, somos. Nosso filme fala sobre os tempos atuais da mesma maneira.”

Para Matt Ross, tempos em que os Estados Unidos estão ficando mais ignorantes. “Não sabemos distinguir notícias falsas de reais, e os noticiários dedicam cinco minutos para falar do resto do mundo. É ridículo.”

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