Política-ABC, São Bernardo do Campo, Sua região

Vicentinho: temos atuado para garantir direitos e, de vez em quando, temos avanços

Vicentinho: "Atuo com dignidade na defesa dos interesses de nosso povo e do Brasil".. Foto: Agência Câmara
Vicentinho: “Atuo com dignidade na defesa dos interesses de nosso povo e do Brasil”. Foto: Agência Câmara

O deputado federal Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT), ao fazer balanço de seu atual mandato, afirmou em entrevista ao Diário Regional que, quanto oposição ao governo Jair Bolsonaro (PL), vem atuando para evitar novos reveses em relação aos direitos dos trabalhadores. O ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ainda atribuiu o encerramento da operação da Toyota em São Bernardo à lógica do capital, que é lucrar independentemente de qualquer consequência. Vicentinho, que buscará à reeleição este ano, também já assumiu o compromisso de lutar pela criação do Instituto Federal do ABC.

O sr. integrou a base do go­verno em seus três primeiros mandatos como deputado, ma­s agora compõe a oposição. O que mudou em sua atuação parlamentar?

Quando somos da base do governo atuamos na defesa de projetos que o nosso governo apresenta. No meu caso, atuei bastante na defesa do salário mínimo, com o projeto de recuperação. Também atuei bastante na luta contra o trabalho escravo, com projeto, e no estatuto da igualdade racial. Em resumo, em todos os projetos como as cotas, políticas de geração de emprego. Inclusive, atuei como relator das 40 horas semanais, que não foi adiante. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) está pronta para ser votada no plenário. Porém, minha atuação sempre foi no sentido de apoiar projetos para o desenvolvimento do país. Para a produção nacional, dos direitos do nosso povo. Era uma atuação que coadunava com os interesses do governo. Nem tudo o que a gente queria era possível, mas conseguíamos ir para a frente.

No caso do governo Bolsonaro, desde o Michel Temer, ficamos sustentando para que não haja reveses, diferentemente de ir para a frente. No caso de Bolsonaro, enquanto deputado da oposição, o que me deixa triste, é que estamos lutando para manter o mínimo que foi conquistado e ele vem retirando. Essa “deforma” trabalhista tirou direitos. Essa “deforma” da previdência. Chamo de deforma, porque reformar é uma coisa boa, para melhorar. A PEC 32, por exemplo, se refere à “deforma” da administração pública de nosso país, inclusive tirando direitos consagrados de nossos servidores. Então, temos atuado muito para garantir direitos e, de vez em quando, muito raramente, temos avanços.

Temos obtido conquistas com algumas coisas que o Bolsonaro tem inventado, como a lei da agricultura familiar, a do feirante. Do estímulo à comunidade quilombola. A nossa luta para que as mulheres tenham direito à absorvente, aprovamos, ele vetou e derrubamos o veto. Esse foi um avanço. Aprovamos a lei do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), mas por outro lado, como não depende de ele sancionar ou não, porque é uma PEC, nas regulamentações Bolsonaro vem boicotando o estímulo à educação, inclusive, tirando bilhões das universidades públicas e escolas técnicas federais.

Para mim, essas são as grandes diferenças. O que tem em comum do meu mandato quanto situação e oposição é que tenho agido com competência e ética, portanto, com muita coerência. Atuo com dignidade na defesa dos interesses de nosso povo e do Brasil.

O sr se mantém sempre entre os parlamentares mais atuantes.

Devido à minha atuação, no ano passado fui eleito pelo site Congresso em Foco, para mim o mais importante, porque a apreciação é feita por jornalistas que acompanham os trabalhos dos parlamentares; por um grupo de juristas, para descobrir se o parlamentar é ficha limpa ou não, entre os 34 melhores. O parlamentar só é apreciado pelo voto popular se passar pelos dois crivos. Felizmente, eu, ficha limpíssima, fiquei entre os 34 melhores deputados. Este ano, já me informaram que serei indicado para concorrer entre os melhores. Porém, em julho é que vamos saber.

Quais projetos de sua autoria destacaria?

Tenho vários projetos. São como filhos, não tem um que a gente destaque como maior e melhor. Porém, sou autor de um projeto que regulamenta a função dos trabalhadores em aplicativos. Na nossa região do ABC, que é industrial, 365 mil trabalhadores tinham carteira assinada com todos os direitos e esse número, antes da pandemia, caiu para 180 mil, dados que me foram informados pelo economista Jefferson José da Conceição (integrante do Grupo de Pesquisa do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS). Imagina esse número agora, depois da pandemia? Se levarmos em consideração esses dados, comprovamos que a maioria dos trabalhadores nessa região industrial está na economia informal. Esses dias fui a São Paulo e vi a quantidade de pessoas em situação de rua. Além disso, vemos a quantidade de empresas que fecharam.  Tudo isso é consequência de políticas públicas desastrosas. Isso se traduz em desemprego e fome no ABC.

Outro projeto meu cria política exclusiva para as pessoas vítimas do covid. Quem são elas? As crianças que ficaram presas durante todo esse período e isso tem consequências; os aposentados; as vítimas de violência doméstica; e os profissionais, como por exemplo, médicos que perderam a vida, enfermeiros, técnicos e auxiliares, que trabalharam tripla jornada. Nesse sentido, reparo nossa rara conquista, que foi aprovar o piso salarial para os agentes comunitários de saúde nacional, além do piso nacional para os profissionais da enfermagem.

Outro projeto que considero com muita viabilidade e que está para ser aprovado é o de valoração do salário do aposentado em 25% se ele precisar de cuidador. O que diz a lei hoje? Em função de acidente de trabalho, se o aposentado ficou imobilizado, tem reajuste de 25% para garantir ajuda de um cuidador. No caso, esse projeto é para que todos tenham o mesmo direito.

É difícil falar da quantidade imensa de projetos. Aliás, essa quantidade imensa de projetos é que me fez estar entre os melhores deputados federais do Brasil. Outro projeto que destaco é o que prevê a criação da Frente Parlamentar em Defesa dos Trabalhadores da Economia Informal. Esse é um projeto que tenho muito carinho e já consegui várias assinaturas, inclusive, o pessoal já está me indicando para presidir essa frente, que visa cuidar dos mais excluídos de nosso país.

Tenho outro projeto que assegura que os feirantes possam comprar veículos do mesmo jeito que os taxistas, sem pagar o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), porque são para trabalho.

O sr. será candidato à re­eleição?

Sou candidato à reeleição. O conselho de meu mandato – sou o único deputado que tem um Conselho Deliberativo estadual –  deliberou e o partido está aprovando a minha reeleição. Estou com saúde e altamente comprometido. Atuo com dignidade e a minha expectativa é que, o Lula eleito, possamos voltar a ser um deputado para ajudar o nosso Brasil a ser feliz de novo. Mantenho minha ligação com vários segmentos excluídos, mas também tenho atuado em defesa da produção nacional, da micro e pequena empresa, além do trabalho junto às fábricas, como faço desde a época do Sindicato dos Metalúrgicos. Nestes dias mais recentes estive em várias empresas e isso tem me dado muita firmeza dessa ligação com a base, com a categoria e os trabalhadores.

Como o sr., que iniciou sua trajetória política no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, avalia a decisão da Toyota de mudar a produção para o interior de SP e da Atento, de fechar a unidade, ambas em São Bernardo, sem esquecer do fechamento da Ford?

As empresas, quanto tomam essas decisões, fazem um cálculo frio, objetivando o lucro mais fácil, não importando, sobretudo, as consequências sociais. Fiz dois pronunciamentos me referindo à Toyota. Inclusive, estamos tendo um problema, porque a Toyota fez um pacotão para quem quisesse sair com uma quantidade considerável de salários, mas alguns meses antes tinham mandado embora centenas de mensalistas e alguns trabalhadores da fábrica, e não quer pagar o mesmo valor para quem está saindo agora. A Toyota não pode agir assim. Tem de tratar todos igualmente.

No caso da Ford fizemos passeatas, denúncias. Estive na porta das fábricas tanto de São Bernardo quanto de Taubaté. Enfim, é uma situação muito dura e o que mais me deixa chateado é o fato de o presidente da República, que acabou com o Ministério do Trabalho e agora voltou por interesses de negociatas, tratou com desdém o caso da Ford. No caso da Toyota ele nem se manifestou. Imagina no caso da Atento? Quantos jovens, que apesar de ganhar pouco salário, tinha ali um trabalho permanente. Então, vejo isso sempre como a lógica do capital, que é lucrar independentemente de qualquer consequência, nem que para isso tenham de fechar uma fábrica e deixar as pessoas abandonadas, eles vão fazer.

Os já colocados pré-candidatos criticam os deputados estaduais e federais do ABC por “esquecerem” a região. Como o sr. analisa esse tipo de crítica e quanto já enviou às cidades do ABC em seus mandatos?

Considero esse tipo de crítica como desonesta. Essas pessoas ou são desonestas ou desinformadas. Que somos poucos deputados da região? Somos sim. Carece de mais deputados e é por isso que temos vários candidatos que se apresentam agora. Eu, por exemplo, sou um deputado que ajuda todas as cidades do ABC. Sou morador de São Bernardo do Campo com muito orgulho. Já morei em Diadema. Inclusive, por ajudar todas as cidades tenho títulos de Cidadão São-caetanense, Diademense; Cidadão São-bernardense, Ribeirão-pirense, Rio Grandense da Serra. Mesmo as cidades que não me deram esse título sabem da ajuda que envio. Inclusive, como é o caso de Mauá e Santo André, que este ano estão recebendo verbas minhas.

Para São Bernardo indiquei R$57, 59 milhões; para Diadema, R$11,2 milhões; Mauá, R$6,52 milhões; Ribeirão Pires, R$ 5,44 milhões; Rio Grande da Serra, R$ 2,15 milhões; São Caetano do Sul, R$ 1 milhão; e para Santo André, R$ 6,22 milhões. São quase R$ 90 milhões. Essas são as verbas que enviei e, com certeza, sou o deputado que mais tem ajudado a região.

Além do apoio a essas cidades, estou muito animado e assumindo o compromisso juntamente com vários setores da sociedade e do mundo educacional, a luta pela construção do Instituto Federal do ABC. Do mesmo jeito que lutamos pela Universidade Pública Federal, que fomos às ruas, fizemos abaixo-assinados e manifestações públicas e fomos ao presidente Lula, e tivemos êxito com essa que é uma das melhores universidades do mundo, agora a nossa luta é pelo Instituto Federal do ABC.

O Lula já manifestou desejo de rever a Reforma Trabalhista e recebeu diversas críticas. Como o sr. avalia essa posição do ex-presidente?

O Lula sentiu a dor dos outros e a consequência nefasta da reforma trabalhista, que colocou o trabalhador como descartável, reduziu os salários e tem proporcionado um grande número de desempregados. Defendemos a tese de que o trabalhador tem de ter emprego e um salário digno, porque quando os trabalhadores têm emprego eles compram e, comprando, teremos mais produção, vendas e crescimento. Lula e a Dilma provaram isso. Então, a “deforma” que foi feita atendeu aos interesses do poder econômico.

É preciso que haja um grande entendimento para a retomada desses direitos. Retomar direitos para os trabalhadores é um bem feito para a empresa. Então, essa lógica de reduzir direitos é empobrecer, inclusive, as empresas, por isso, tantas fecharam. Lula tem razão quando diz que teremos de colocar o tema na mesa de negociação os trabalhadores. Bolsonaro nunca recebeu um representante dos trabalhadores. Colocar (na mesa) trabalhadores e empresários, para buscar uma solução nessa perspectiva de retomada de direitos que foram retirados na reforma, e para nossa juventude, vítima da reforma da previdência, que não lhes dá o direito de aposentadoria. Vamos retomar esses direitos, mas para isso, evidentemente, precisamos ser maioria na Câmara dos Deputados.

Como o sr analisa o cenário político nacional em que o ex-presidente aparece em primeiro nas pesquisas de intenção de voto? Considera que há chance de vitória em primeiro turno?

O Lula está cada vez mais consolidado em primeiro lugar nas pesquisas. Evidentemente, que estas são o retrato do momento, mas o povo está buscando na memória que viveu bem, foi respeitado e feliz no governo Lula em todos os sentidos. Desde a soberania nacional a projetos para tirar o povo da fome e da miséria. O Brasil saiu do mapa da fome feiro anualmente pela ONU (Organização das Nações Unidas) e voltou agora com Bolsonaro. Acho que há possibilidade de vitória no primeiro turno, mas não devemos esperar e sim, esperançar. Fazer acontecer. Precisamos ter o pé no chão, humildade, de que a eleição é como mineração, só depois de apuração. Entretanto, estamos com muita esperança tanto do Lula como presidente da República, quanto do (Fernando) Haddad governador.

O sr. acredita que terá uma terceira via capaz de romper a polarização Lula-Bolsonaro?

As pesquisas também indicam que a terceira via não existe. Não tem possibilidade nem crescimento, a não ser que aconteça algo imprevisto até lá. Porém, se consolida o caminho do Lula em primeiro lugar e no segundo, Bolsonaro.

O Lula tem recebido críticas relacionadas a declarações em seus discursos, como no caso dos guardas e em sua defesa do aborto. Qual sua opinião sobre essas falas mais contundentes?

Primeiro, é preciso que se tome muito cuidado com as falas que são transmitidas. Às vezes são reproduzidas fake news. O Lula vai ser melhor do que foi como presidente da República e, ao ser melhor, procurou respeitar todas as polêmicas. Não se debateu sobre aborto nem na época do Lula nem na de Dilma. É uma questão polêmica e tem de se respeitar os sentimentos e realidades. O fundamental é que precisamos de políticas públicas de saúde para todos, homens, mulheres e idosos. Esse tema não tem definição programática. Já na questão dos guardas o Lula corrigiu ao dizer ‘polícia quis dizer milícia’. Bolsonaro não gosta de gente, mas gosta de milícia. Foi isso. Qualquer declaração que Lula pode dar, que tenha essa ou aquela interpretação, é bom lembrar do que ele fez e o que está programando para fazer. Isso é muito importante.

Qual avaliação faz do cenário político para as eleições a governador do Estado de São Paulo?

Como já disse, estamos com esperança. O Haddad foi o melhor ministro da Educação de dois governos. Foi um prefeito extraordinário. Foi candidato a presidente da República e agora está andando o Estado inteiro e o conhecendo cada vez mais. Ele se coloca muito firme nos debates e está em primeiro lugar nas pesquisas. Porém, como eu digo, pé no chão. Vamos continuar o debate e o próprio Haddad precisará ter uma bancada forte para seguir em frente com seu programa de governo.

A minha avaliação é que as chances estão dadas e é possível a eleição do govenador Haddad. Acrescento, entretanto, que na relação com o Márcio (França/PSB) é uma pessoa que temos profunda confiança. Existe uma relação de respeito entre o PSB, que já apoia o Lula, e o próprio Márcio. Estão na expectativa que ele seja o nosso candidato e terá meu voto e apoio para senador, além de que venha a apoiar o Haddad.

Agora, se por acaso o Márcio não retirar a sua  pré-candidatura (a governador), tenho uma tranquilidade: o debate entre Márcio e Haddad será de altíssimo nível e altamente respeitoso. São pessoas que a gente confia, com histórico de democracia e relação respeitosa. Por isso, estamos muito animados com essa perspectiva.

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