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Vicentinho: ‘Não será surpresa se outras montadoras deixarem o Brasil’

Vicentinho, durante sessão virtual: “O projeto da Carteira Verde Amarela é um castigo, porque coloca o jovem na condição de trabalhador precário logo em seu primeiro emprego”
Vicentinho, durante sessão virtual: “O projeto da Carteira Verde Amarela é um castigo, porque coloca o jovem na condição de trabalhador precário logo em seu primeiro emprego”. Foto: Najara Araújo/Câmara dos Deputados

O deputado federal Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT), afirmou que não será surpresa se mais montadoras deixarem o Brasil nos próximos meses. Em entrevista ao Diário Regional, o ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC atribuiu a decisão da Ford de encerrar a produção no Brasil à inexistência de uma política industrial no país. “Se o presidente fosse o Lula, tenho certeza de que o combate à covid-19 seria outro, a gestão da crise da Ford seria outra”, disse o petista, que está em seu quinto mandato seguido. Vicentinho criticou a postura “negacionista e antivacina” do presidente Jair Bolsonaro e exaltou a Coronavac, vacina contra o coronavírus desenvolvida pelo Instituto Butantan e pelo laboratório chinês Sinovac. “Que venha esta vacina ou qualquer outra”, disse o deputado, que não descarta candidatura ao Senado em 2022.

O Sr. integrou a base do go­verno em seus três primeiros mandatos como deputado, ma­s compõe a oposição nos últimos cinco anos. O que mudou em sua atuação parlamentar?

Do ponto de vista da pro­dução legislativa, continuo sendo eleito anualmente um dos me­lhores deputados do Brasil pelo Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Tenho até me pronunciado mais. Para se ter uma ideia, desde meu primeiro mandato, fiz 1.583 pronunciamentos, dos quais 111 neste mandato. O mesmo vale para a elaboração de projetos. A diferença é que, quando o PT ocupava o Palácio do Planalto, tínhamos um governo que fazia o enfrentamento dos problemas nacionais. Se o presidente fosse o Lula, te­nho certeza de que o combate ao novo coronavírus seria outro, a gestão da crise da Ford seria outra. Não tem comparação.

Como o governo Jair Bolso­naro é incapaz de discutir os problemas do país, a oposição se vê obrigada a atuar mais, porque não há espaço de diálogo. Os Correios, por exemplo, têm no comando um general e o Incra (Instituto Nacional de Co­lonização e Reforma Agrária), um pecuarista. Ou seja, pessoas sem capacidade técnica.

Quais projetos de sua autoria destacaria neste mandato?

Tem um projeto de minha autoria, e que depois a bancada do PT assumiu, propondo que todas as categorias consideradas essenciais pela lei de enfrentamento ao coronavírus e com data-base durante a pandemia tenham suas convenções coletivas prorrogadas e só voltem a negociar após a crise sanitária. Nos Correios, por exemplo, havia cerca de 70 cláusulas sociais. Porém, na data-base, em julho, os trabalhadores – fragilizados devido à pandemia – perderam todas as cláusulas. É bom lembrar que a reforma trabalhista, que entrou em vigor no final de 2017, acabou com o princípio da ultratividade (que garantia a validade da convenção coletiva mesmo depois do final de sua vigência, até que uma nova fosse aprovada). Assim, o que propusemos era uma ultratividade temporária.

Como está a tramitação desse projeto de lei?

A bancada pediu a urgência na votação, mas o (presidente da Câmara) Rodrigo Maia (DEM-RJ) não aprovou o regime e, agora, o projeto está parado nas comissões, que não estão funcionando. Há outras propostas pelas quais tenho muito carinho, como a que proíbe o motorista de atuar também como cobrador, com o objetivo de dar mais segurança ao passageiro. Essa avançou em todas as comissões, mas não é votada no plenário. Desde meu primeiro mandato já apresentei cerca de 140 projetos e, você sabe, projeto é como filho: você ama indistintamente.

Como o Sr., que iniciou sua trajetória política no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, avalia a decisão da Ford de encerrar a produção no Brasil?

As multinacionais têm a estratégia de andar pelo mundo e permanecer em um determinado país enquanto a operação dá lucro, mas saem quando há prejuízo sem pensar nas conse­quências sociais. Além das 5 mil demissões em Camaçari, Taubaté e Horizonte, a decisão da Ford vai afetar 30 mil traba­lhadores que atuam na cadeia produtiva do setor. O efeito será nefasto, e não será surpresa se outras montadoras seguirem o mesmo caminho, porque não há políti­ca industrial no país. Bolsonaro alega que as empresas querem subsídios, mas não discute uma política de proteção industrial. Por isso digo que, com Lula, era diferente. Naquela época havia política de produção de conteúdo local que beneficiou não só o setor automotivo, mas também outros segmentos, como o de navios e de petróleo e gás.

Ao comentar a decisão da Ford, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), disse que o Brasil está virando uma grande fazenda. O Sr. vê um processo de desindustrialização em andamento, inclusive no ABC?

O ABC chegou a ter 365 mil trabalhadores com carteira assinada no setor industrial. Porém, no início de 2020, antes da pandemia, havia 180 mil, menos da metade. O contingente de trabalhadores informais cresceu tanto que atualmente é maioria no Brasil. Não por acaso, estou criando uma frente parlamentar em defesa dos informais. Consegui 225 assinaturas, mas não dá para lançar a frente porque não há sessões presenciais. Pa­ralelamente, estão em vigor uma reforma trabalhista que en­fra­queceu o trabalhador nas negociações e formalizou o bico; e uma reforma previdenciária que inviabilizou a aposentadoria para os mais jovens.
Evidentemente, a pandemia piorou a situação, mas não há luz no fim do túnel. Até o agronegócio se queixa, porque a imagem do país no exterior está arranhada devido ao desmatamento da Amazônia. O Congresso tomou a iniciativa de aprovar a ajuda emergencial de R$ 600, o triplo dos R$ 200 propostos por Bolsonaro, mas o auxílio caiu para R$ 300 e agora zerou, sem que a pandemia tenha terminado. A população ficou sem perspectivas. O ABC é uma região industrial e, por isso, está pagando preço muito alto, expresso no fe­chamento de vagas e empresas.

O governo deve propor novamente o projeto da Carteira Verde Amarela, que visa redu­zir os encargos na contratação. O Sr. vê nele potencial para diminuir a informalidade?

O que vejo nesse projeto é um castigo, porque coloca o jovem na condição de trabalhador precário logo em seu primeiro emprego. No ABC, o caminho do jovem para ingressar no mercado de trabalho era o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). O garoto tinha orgulho de exibir a carteira assinada. Porém, o trabalho precário é uma semente fraca que não germina. A reforma trabalhista foi aprovada com a promessa de gerar empregos, mas isso não aconteceu porque o mercado de trabalho depende da economia forte, não de redução de direitos.

Como o Sr. avalia o combate à pandemia de covid-19 pelos governos federal e do Estado?

Bolsonaro adotou postura negacionista e antivacina. Além disso, foi omisso no combate à pandemia e colocou sob suspeita a eficácia da Coronavac (vacina produzida no Brasil pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac) por ser chinesa, o que é um absurdo. Nunca uma vacina foi questionada no país, exceto a da varíola, mas por pura ignorância. O presidente, inclusive, não demonstra sequer amor por seus seguidores, porque estimula a aglomeração. Tenho divergências com o (governador João) Doria (PSDB), mas graças a Deus temos a Coronavac. Que venha logo esta vacina ou qualquer outra. Evidentemente, Doria quer se credenciar como candidato à presidência, mas há profunda diferença (de gestão) em relação a Bolsonaro.

Em votação apertada, a bancada do PT na Câmara apro­vou o apoio à candidatu­ra do deputado Baleia Rossi (MDB-SP) à presidência da Casa. Como o Sr. avalia essa decisão, que dividiu o partido, uma vez que o MDB apoiou o impeachment de Dilma Rousseff?

É preciso esclarecer que eu defendia a candidatura da Be­nedita da Silva (PT-RJ), mas decidimos participar desse bloco porque, do contrário, ficaríamos isolados. Chegamos a analisar a possibilidade de uma candidatura da oposição, mas não avançou. Como o objetivo principal era impedir a eleição do candidato do Bolsonaro (Arthur Lira, PP-AL), entramos nesse bloco. Além disso, apresentamos um documento com as condições para evoluir no apoio, o que inclui a garantia de independência da Câmara, a manutenção do protagonismo no combate ao coronavírus, entre outros aspectos, e acredi­tamos nesse compromisso.

Temos nossas divergências ideológicas com o Baleia Rossi, mas não estamos tratando de uma eleição nacional, mas sim de impedir que a Câmara seja tomada pelo Bolsonaro. Eu votei a favor, mas quem voltou contra (o apoio ao bloco) não apoia o Lira, como a imprensa chegou a escrever, mas sim quer candidatura própria. Além disso, o apoio ao Baleia permitirá ao PT ter espaço na Mesa Diretora, o que não ocorre desde o Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara). Tenho certeza de que, dentro da bancada, não haverá dissidências.

Que avaliação o Sr. faz do resultado das eleições de novembro? Em nível nacional, o PT perdeu prefeituras em comparação a 2016, mas recupe­rou Diadema e Mauá no ABC.

Em termos gerais foi muito ruim, tanto no que se refere à eleição de prefeitos como de ve­readores. Porém, em muitos municípios o partido teve boa votação, chegou perto. No ABC, lamento muito as derrotas em cinco dos sete municípios, sobretudo em São Bernardo. Era até previsível perder, mas não tão avassaladoramente. Por outro la­do, festejo as vitórias do José de Filippi e do Marcelo Oliveira. Foram apertadas, é verdade, mas a campanha que se faz contra o PT é muito pesada, e esse companheiros assumiram que são do Partido dos Trabalhadores. A res­ponsabilidade de ambos é grande, serão referências. Vou apoiá-los com emendas, como faço com todos os muni­cípios do ABC.

O Sr. será candidato à re­eleição? Pensa em voos mais altos, como uma candidatura ao Senado?

Minha atuação é exemplar, reconhecida pelos institutos de análise de atuação parlamentar. Estou bem de saúde, tenho 64 anos com energia de 30. Serei, sim, candidato à reeleição, mas não tiro o direito de ninguém de se candidatar. Quanto mais gente sair, melhor. Agora, exis­te um movimento (favorável à candidatura ao Senado). Gosto de andar de acordo com o que meus pés alcançam, mas me coloco à disposição do partido.

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