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Turner e clubes vão negociar rompimento do contrato do Brasileirão

Turner e clubes vão negociar rompimento do contrato do Brasileirão
Brasileirão estava marcado para começar no primeiro fim de semana de maio, mas data será adiada em função do coronavírus. Foto: Divulgação/CBF

A Turner enviou uma carta aos oito clubes com quem tem acordo até 2024 para a transmissão em TV fechada dos jogos do Campeonato Brasileiro. No documento, propõe uma série de negociações para o rompimento do contrato. Portanto, é provável que os clubes readquiram seus direitos e os repassem para a Globo. Foi a segunda vez que a empresa americana notificou os times. A primeira ocorreu em novembro do ano passado. Naquela ocasião, apenas o Athletico-PR se dispôs a responder.

A companhia é um conglomerado de mídia dos EUA fundado em 1970 por Robert Edward “Ted” Turner. Em 2015, seu braço esportivo “descobriu” o Brasil e, desde então, tenta entrar na disputa pelas transmissões das partidas. No ano passado, conseguiu começou a exibir jogos do Brasileirão, com os diretos comprados por R$ 140 milhões de sete equipes para quem mandou a carta – o Coritiba estava na Série B.

A reportagem entrou em contato com representante da empresa e com alguns dos clubes notificados. Dos dois lados esbarrou na informação de que o teor do documento é confidencial, com multa para quem quebrar a cláusula. Mesmo aqueles dirigentes mais solícitos se recusaram a contribuir para a reportagem. “Posso falar de tudo, menos desse assunto. Peço desculpas” disse o presidente do Fortaleza, Marcelo Paz.

Na mesma linha responderam Bahia e Ceará. O presidente do Santos, José Carlos Peres, abriu o jogo. “Os clubes estão perdendo muito dinheiro com a Turner e penso que a emissora também está perdendo dinheiro com o futebol brasileiro. Vamos ouvir e negociar. Penso que os lados estão querendo a rescisão”, disse.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) já informou em outras ocasiões que não entra nessa discussão. Apenas faz a tabela das 38 rodadas do Nacional. Clubes e emissoras de TV têm liberdade na negociação. “A CBF nem sabe o que foi assinado”, disse fonte que pediu para não ser identificada.

Na carta, a Turner aponta para uma série de regras contratuais que os clubes teriam quebrado, principalmente no que diz respeito às transmissões dos seus jogos na TV aberta – os oito clubes assinaram com a empresa de Ted Turner para mostrar as partidas na TV fechada (Esporte Interativo, TNT e Space) e com a Globo para a TV convencional.

Na guerra das transmissões, a Turner não estaria contente com seus números de audiência e faturamento, nem mesmo com a atitude de seus parceiros do futebol brasileiro. A empresa acredita que os clubes não honraram seus compromissos e se dobraram às exigências da outra emissora.

A Turner espera o momento em que será pressionada pelos parceiros comerciais. Viu sua audiência despencar em até 85% no final de 2019, o que inviabilizaria seus negócios no Brasil. A empresa também tem a percepção de que os clubes estão forçando a barra para que o contrato seja rescindido antes de o Brasileiro começar. A carta, portanto, teria a finalidade de buscar um acordo sem perdas. O Estado teve acesso a uma notificação da empresa.

“A Turner enviou na sexta-feira, 3 de abril, notificação aos clubes com os quais mantém contrato para exibição da Série A do Campeonato Brasileiro de 2020. Essa carta reitera o que já foi colocado aos clubes em novembro de 2019, sobre o que não tivemos quase nenhuma resposta, e pede que venham conversar com a Turner para solucionar questões pendentes. Há certas obrigações que a Turner deseja reforçar, incluindo compromissos assumidos pelos clubes que são essenciais para que a Turner crie modelo de negócios sustentável. A Turner propõe uma nova conversa, ao mesmo tempo em que não descuidará das ações necessárias à defesa de seus direitos. A Turner sempre privilegiou o diálogo e acredita numa solução conjunta.”

CAMINHOS

Para isso, há a necessidade de se reunir com os clubes para saber o que querem. O presidente do Santos foi claro ao afirmar que a quebra de contrato é o melhor caminho. Há insinuações de que as duas partes gostariam de romper o acordo, cujas cláusulas contêm multa para os dois lados. Porém, nenhuma deles quer dar o primeiro passo, talvez com receio de como isso poderia ser interpretado juridicamente.

De um lado há uma empresa americana cuja cultura, além de entreter, é ganhar dinheiro. Nenhum negócio se mantém de pé quando se gasta mais do que se ganha. Esse pode ser o xis da questão para a Turner no Brasileirão. A empresa nega que esteja tirando o pé do futebol. É dona, por exemplo, dos direitos da Liga dos Campeões da Europa. Na Argentina, divide o Nacional com a Fox Sports. No Chile, detém os direitos exclusivos de transmissão. Porém, há impasse inegável entre a empresas, seus objetivos e os clubes com quem tem contrato no Brasil.

Não seria demais supor que a empresa entende que os times quebraram regras do acordo, inviabilizaram ganho e crescimento da companhia, de modo a abrir brechas para sanções previstas e até o rompimento do contrato, com ônus para os times. Sentindo-se prejudicada, pode exercer o direito de ser ressarcida. É isso que os clubes temem e vão tratar de discutir a partir desta semana. Ninguém quer pagar ninguém.

DINHEIRO

O dinheiro desapareceu do futebol com o cancelamento de atividades e campeonatos por causa da pandemia do novo coronavírus. As empresas estão com dificuldades para honrar seus compromissos. A Globo, conforme noticiado, parou de pagar para os clubes que disputam os Estaduais.

Os clubes envolvidos no imbróglio com a Turner são Palmeiras, Santos, Internacional, Bahia, Ceará, Coritiba, Fortaleza e Athletico-PR. O rompimento, independentemente das discussões jurídicas que isso ocasionar, dará de volta aos clubes o direito da transmissão de suas partidas em TV paga. A partir daí, poderão revendê-los. Globo/SporTV é o caminho mais natural, mas não o único. Qualquer emissora de canal fechado poderia entrar na negociação.

Para os clubes, a quebra de contrato com a Turner não seria um desastre se conseguirem repassar os direitos para o SporTV imediatamente. No ano passado, estima-se que ganharam R$ 23 milhões cada um. O Santos diz que ganhou pouco menos do que isso. Palmeiras e Inter teriam recebido cotas maiores também por desempenho e audiência.

“A situação é bastante obscura nesse momento. Os clubes estão avaliando o que tudo isso significa, mas não podemos entrar em detalhes. O documento da Turner é sigiloso. Tudo vai depender da vontade das partes”, disse ao Estado o presidente do Ceará, Robinson de Castro. O dirigente ressaltou ainda que seu clube não fez qualquer adiantamento de verba nesta temporada. Castro acha impossível que os clubes consigam se sustentar por mais dois meses. “Vamos ficar vivos? Vamos. Vamos pagar todos as nossas contas? Não.”

PRÓXIMOS PASSOS

Os clubes parceiros da Turner vão se reunir para levar uma posição única à empresa, apesar de muitos deles negociarem individualmente seus contratos. A empresa americana paga 50% do valor combinado na abertura da disputa, 25% dependendo da audiência e outros 25% de acordo com o desempenho em campo.

A discussão entre clubes e Turner ocorre em um momento péssimo do futebol brasileiro, em que todas equipes estão mais enfraquecidas por causa da paralisação dos campeonatos.

O Fortaleza faz de tudo para honrar seus compromissos financeiros. De acordo com seu presidente, Marcelo Paz, o clube reduziu 25% o salário de seus jogadores, dirigentes e funcionários da comissão técnica, com a promessa de pagar o valor equivalente quando conseguir enxergar luz no fim do túnel. “Em abril, os jogadores abriram mão de 10%, dinheiro que não vamos precisar pagar.”

Tudo isso ajuda, mas não resolve o problema com a Turner. Se a empresa sair, os clubes ficarão órfãos, com seus direitos de transmissão menos valorizados. O Brasileirão estava marcado para começar no primeiro fim de semana de maio. Essa data será adiada em função do coronavírus.

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