Saúde e Beleza

Trabalhadores de serviços essenciais temem passar covid-19 para a família e se dizem solitários

O Estado de São Paulo está sob vigência de quarentena desde março. Entretanto, algumas categorias seguem trabalhando normalmente, respeitando as medidas sanitárias implementadas para contenção do covid-19. Profissionais que atuam em serviços essenciais ouvidos pelo Diário Regional temem passar o novo coronavírus para os familiares. Ao mesmo tempo, relatam que se sentem sozinhos e, por vezes, discriminados.

A caixa de supermercado A.L. afirmou que toma todos os cuidados ao voltar do trabalho. Porém, destacou que sente discriminação por parte dos familiares que moram na mesma casa. “Me cuido muito. Tenho medo de passar coronavírus, mas me sinto muito sozinha. Algumas pessoas de minha família me olham como se fosse infectar todo mundo. Me sinto magoada. Não tenho opção. Tenho de levantar todos os dias e vir trabalhar”, pontuou a caixa. Por medo de represálias, as entrevistadas pediram para não ser identificadas.

O medo pelas filhas faz parte do dia a dia da enfermeira C.N, que trabalha em uma rede de saúde particular. “Nunca passei por nada parecido e nunca senti tanto medo. É muito triste. Tenho duas filhas que não podem mais me abraçar, nem perto delas eu fico. Desde que tudo começou só fico no quarto e isso está mexendo muito com o meu psicológico, mas é para prevenir, porque podemos passar o vírus sem apresentar sintomas”, destacou.

A profissional afirmou que apesar de ajudar a salvar vidas, dar conforto respiratório e emocional, se sente contaminada mesmo não estando. “Me sinto contaminada psicologicamente, na minha roupa, no meu cabelo, no meu sapato, no meu organismo. Em tudo. É horrível pensar que posso levar esse vírus para dentro da minha casa, onde tem duas crianças que não têm nada com isso, que estão cumprindo a quarentena direitinho. Porém, eu sou o risco para elas.”

RISCO

D.V também é enfermeira e trabalha na rede pública de saúde do ABC. A profissional da saúde afirmou que apesar de todo o cuidado que tem, teme ser uma paciente assintomática e acabar passando o vírus para os familiares, que são do grupo de risco. “Sair trabalhar todos os dias é um risco. Quem desrespeita a quarentena não imagina a dificuldade que pessoas que estão na linha de frente passam. Todos nós temos família e estamos deixando de lado para cuidar de outras pessoas”, pontuou.

Trabalhando em uma empresa de telemarketing, M.M disse que tem muito medo de contrair covid-19, já que seu departamento é fechado e tem ar-condicionado. “Fico receosa. A empresa onde trabalho é bem rígida, mas muito ignorante quanto à pandemia. Em minha área é difícil ver que a maioria dos trabalhadores não são reconhecidos, mas, infelizmente, não estamos sozinhos”, destacou.

Segundo a atendente, em sua casa a ordem é higienização. “Minha mãe é recepcionista da área da saúde. Então, ambas temos a possibilidade de estar carregando o vírus e transmitir para as pessoas em casa. Meu pai é autônomo. É chegar em casa e ir direto para o banho, lavar as mãos e restringir carinhos.”

Apesar do trabalho de conscientização realizado pelas prefeituras e governo do Estado, algumas pessoas tendem a quebrar a quarentena e, para esses, a enfermeira C.N. diz que estão brincando com a doença e desrespeitando o próximo e todos os profissionais da saúde. Complementou, dizendo que por não terem medo de se contaminar podem ser um meio de transmissão do coronavírus.

“Estão sendo egoístas. Hoje atendi uma criança de 5 anos com muita dor para respirar, com muita falta de ar. A mãe e o pai chorando muito, pedia ajuda para não deixar o filho morrer. A criança testou positivo para covid-19. Pegou do pai, que já tinha testado positivo na semana passada. A tomografia do pulmão mostrou que estava muito ruim. Sabíamos que teria que ser entubado. Aí vem a tristeza. Essa doença é ingrata, silenciosa e quer o máximo de gente possível”, finalizou.

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