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Tecnologia ameaça 60% dos empregos no ABC

Tecnologia ameaça 60% dos empregos no ABC
Setor de telemarketing é um dos mais suscetíveis às novas tecnologias. Foto: Agência Brasil

A adoção de tecnologias ex­ponenciais disponíveis comer­cialmente vai alterar drasticamente o mercado de trabalho do ABC. Estudo divulgado pelo Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade de São Caetano (USCS) revela que a revolução proporcionada pela utilização de inteligência artificial, realidade virtual e robótica, entre outras ferramentas já aplicadas na Indústria 4.0, põe em risco quase três em cada cinco empregos formais existentes nos sete municípios.

A estimativa consta de levantamento realizado pelo pesquisador Paulo Roberto Silva, diretor do Instituto de Tecnologia de São Caetano (Itescs). Segundo a nota técnica, divulgada na última terça-feira (16), 6,5% dos postos de trabalho da região podem ser completamente substituídos por novas tecnologias. Outros 53,4% estão sujeitos a ganhos de produtividade superiores de 100% e, por isso, a substituição tende a ser parcial, uma vez que a necessidade de mão de obra será “drasticamente reduzida”.

Tendo como base os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2016, que apontava a existência de 729.755 empregos formais no ABC no último dia daquele ano, o estudo mostra que 437,2 mil postos de trabalho estão em risco, dos quais 47,4 mil podem desaparecer e 389,8 mil estão sujeitos a ganhos de produti­vidade. “É mais da metade dos trabalhadores formais”, ressaltou o pesquisador.

Paulo Roberto explicou que as tecnologias exponenciais são assim chamadas porque permitem ganhos exponenciais e acelerados de produtividade, às vezes de até dez vezes, o que gera transformações completas no modelo de negócio e na organização do trabalho. No Brasil, segundo o pesquisador, cerca de 5 milhões de empregos estão sujeitos à extinção completa, ou 10,9% do estoque existente no país no último dia de 2016.

Segundo o diretor do Itescs, o impacto será menor no ABC, porque a indústria – que re­presenta 25% dos postos de trabalho da região e tem maior peso do que na média do país – passou por processo de reorganização produtiva nos anos 1990. “Assim, nesse setor, a transformação se dará mais na organização do ambiente de trabalho do que na redução no número de vagas”, explicou.

Uma das atividades mais atingidas deve ser a de telemarketing, por meio da substitui­ção de atendentes por centrais automatizadas cada vez mais parecidas com interações humanas. “Os principais alvos das tecnologias exponenciais são os trabalhos intelectuais repetitivos. A automação que a gente viu ocorrer no chão de fábrica nos anos 1990 vai se repetir agora nos serviços. Por isso, quanto maior for a presença dos serviços, maior tende a ser o reflexo dessas tecnologias”, projetou Paulo Roberto.

No comércio, o impacto decorre da adoção cada vez mais comum de plataformas de e-commerce, que reduz a necessidade de trabalhadores em lojas físicas. “Hoje, o varejo não precisa de tantos vendedores para faturar a mesma quantidade. Temos o caso de uma loja de São Bernardo que, em cinco anos, reduziu o volume de vendas físicas de 100% para 30%, enquanto o on-line cresceu de zero para 70%”, exemplificou.

NOVAS PROFISSÕES

Apesar de destacar o lado negativo das tecnologias exponenciais, o estudo ressalta que sua adoção deve demandar trabalhadores e até mesmo estimular o surgimento de novas profissões, mas é impossível estimar o impacto positivo – o tempo vai depender da veloci­dade de adoção dessas ferramentas pelas empresas. Como esse processo de transformação está em andamento e é irreversível, cabe à sociedade e ao po­der público encontrar soluções e preparar as pessoas para o novo cenário que se avizinha.

Entre as medidas que podem minimizar o impacto dessas tecnologias sobre o emprego figuram a requalificação de trabalhadores para o meio digital e a construção e disseminação de cultura de inovação e empreendedorismo envolvendo go­ver­nos e universidades. “Trata-se de questão cultural: empresas e trabalhadores precisam se preparar para a revolução digital. Só assim o impacto será mais positivo do que negativo para o ABC”, disse Paulo Roberto.

A impressão 3D, uma das tecnologias que compõem a chamada Indústria 4.0, é um exemplo de segmento que deve ter a demanda por mão de obra aumentada nos próximos anos. Segundo estudo assinado por Maria do Socorro Souza, pesquisadora do observatório, a atividade empregava 1,3 mil trabalhadores no ABC no final de 2016, em ocupações como engenheiro mecatrônico, de controle de automação, químico, de produção e de materiais.

“O ABC já possui início de oferta de mão de obra capa­ci­tada para atividades relacionadas à impressão 3D, mas a demanda pela tecnologia deverá crescer significativamente no futuro, o que torna necessário maior esforço da região para capacitar pessoas nessa área”, disse Maria do Socorro.

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