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Sequestro de avião por Clóvis Michels completa 47 anos neste domingo

Clóvis Michels foi guerrilheiro e herói nacional na Nicarágua. Foto: Arquivo pessoalHá 47 anos, em 14 de maio de 1970, o estudante de Medicina Clóvis Michels, filho do ex-prefeito de Diadema Lauro Michels (1964/1969), tio-avô do atual chefe do Executivo na cidade, Lauro Michels (PV), sequestrou um avião que fazia a rota Porto Alegre – Manaus, com escala em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O sequestro foi anunciado quando a aeronave já estava chegando ao seu destino e o objetivo do estudante, perseguido pela ditadura militar, era fugir para Cuba.

Clóvis Michels – pai do presidente da Câmara de Diadema, Marcos Michels (PSB), havia sido presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e em 1968, durante o 30º Congresso da entidade, foi preso junto com outras pessoas que também entrariam para a história: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o senador José Serra (PSDB) e o ex-ministro José Dirceu (PT), entre outros. “Estavam todos em Ibiúna e alguns do grupo foram comprar pães e frios. A grande quantidade dos itens comprados chamou a atenção e foram denunciados”, contou o vereador Marcos Michels. Mais de mil pessoas participavam do Congresso, que havia sido proibido pelo governo.

Após passar algum tempo preso, Clóvis Michels retornou para a faculdade de Medicina – não há exatidão sobre o estudante cursar Medicina ou Medicina Veterinária – e passou a ser perseguido. “Era proibido de fazer algumas provas e acabou não se formando”, explicou o filho. O ex-presidente da UNE passou então um ano na clandestinidade, “de aparelho em aparelho”, locais seguros para pessoas perseguidas pela ditadura, até embarcar, no Rio de Janeiro, na aeronave Boeing PP-SMC e sequestrá-la com destino a Cuba.

Acuado pelo regime militar, Clóvis Michels passou um ano fugindo e vivendo clandestinamente. Esteve no Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso e no Paraguai. No Paraná, em uma pequena cidade do interior, era conhecido como uma espécie de curandeiro, por ter assistido dois partos, ter realizado uma pequena cirurgia e por receitar remédios para doenças simples.

Clóvis Michels não fazia parte de nenhuma organização e executou sozinho o sequestro do avião, escondendo uma arma e dois frascos de nitroglicerina sob um falso gesso. Impedido de pousar em Manaus, o avião seguiu para Georgetown, na Guiana, onde desembarcaram os passageiros – o então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, estava no voo, mas já havia desembarcado em Brasília – e parte da tripulação. Logo depois a aeronave seguiu para Cuba, que concedeu asilo político a Clóvis Michels.

Herói Nacional

No Brasil, Michels foi tratado como terrorista e condenado a 30 anos de prisão. Nos cinco anos que se seguiram após o sequestro, esteve na Europa, Venezuela, Russia e Vietnã, estudando sobre guerrilhas e armamentos. Foi para a Nicarágua e lutou na Revolução Sandinista, levante popular ocorrido naquele país entre 1979 e 1990, que culminou com a deposição do então presidente Anastasio Somoza Debayle. Michels foi um dos comandantes do exército e é considerado, até hoje, herói nacional.

Os seus feitos como guerrilheiros só ficaram conhecidos no Brasil em 1981, quando o repórter Paulo Barbosa, do jornal O Estado de São Paulo, foi cobrir a guerrilha na Nicarágua e descobriu um brasileiro, filho do então prefeito de Diadema, entrincheirado com os combatentes. “Foram 11 anos sem notícias dele, desde o sequestro”, pontuou Marcos Michels.

Clóvis Michels só retornou ao Brasil em 1981 (quando o pai cumpria seu segundo mandato como prefeito, entre 1977 e 1983), após ser anistiado no fim do regime militar. Ainda viveu mais um período na Nicarágua e em 1984 voltou definitivamente para o país de origem. “Quando saiu do Brasil, não sabia que a minha mãe estava grávida. Eles se conheceram no período em que ambos moravam no Paraná. Só o encontrei quando tinha mais de 20 anos e convivemos por cerca de dez anos”, relembrou Marcos Michels. “Ele fugiu porque aqui estava sendo perseguido, mas foi defender a democracia em outra nação”, completou.

Em entrevista à revista Veja, em 1981, durante uma de suas passagens por Diadema, o ex-guerrilheiro avaliou que a abertura política que estava ocorrendo no Brasil deveria ser feita de forma lenta e gradual, para que não houvesse retrocessos.

Clóvis Michels morreu em 28 de setembro em 2002, após se suicidar no sítio onde morava, em Ibiúna. Seu filho acredita que se estivesse vivo, o herói da guerrilha na Nicarágua, que nunca quis entrar para a política, estaria muito decepcionado com os rumos do país. “Pessoas que foram presas junto com ele, em defesa da democracia, da liberdade, hoje estão presos porque roubaram o povo”, concluiu.

um comentário

  1. Morei com Clóvis Michels….em Franca no Colégio Champagnat ,anos de 1964 a 1967…sua cama no internato era do meu lado.Pessoa muito inteligente e ótimo aluno. .já fazia parte do Grêmio estudantil , dois dias antes do Sequestro encontrei com ele ,em Santos na praia , disse que estava no quarto ano de Medicina no Mato Grosso…..Saudades

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