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Sanitização de ruas, avenidas e locais abertos é cara e não combate à covid-19, dizem especialistas

Prefeituras adotam a sanitização contra o coronavírus. Foto: Reprodução Facebook
Prefeituras adotam a sanitização contra o coronavírus. Foto: Reprodução Facebook

Por Wilson de Sá especial para o Diário Regional

A chamada sanitização de ruas, avenidas e pontos de ônibus que algumas prefeituras da região estão fazendo para o combate ao coronavírus não tem nenhuma eficácia, segundo médicos especialistas. A sanitização de locais abertos também é criticada pelo Conselho Federal de Química e pela Associação Brasileira de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (ABIPLA).
As prefeituras não informaram o quanto gastam com essas medidas. Porém, em São Bernardo, por exemplo, a sanitização foi iniciada em março de 2020 e, já naquele mês, a prefeitura gastou somente com materiais e desinfetante R$ 1.135 milhão. Foram R$ 537 mil com máscaras, luvas e macacões especiais para a equipe de sanitização e mais R$ 598 mil com desinfetante gastos em agosto do mesmo ano.

Esses recursos poderiam ser usados em ações mais eficazes, segundo o médico cardiologista e estudioso dos efeitos do covid-19, Hermano José da Silva. Segundo o especia­lista, essa medida de sanitização é mais marketing político do que uma ação efetiva no combate ao coronavírus. “A transmissão é feita via aerossol, ou seja, está no ar e não no chão ou parede”, explicou.
A Prefeitura de São Bernardo informou em nota que o trabalho de sanitização de ruas e próprios municipais é feito diariamente. Para a realização do serviço, são utilizados seis caminhões com capacidade diária para aplicar 52 mil litros de solução de nível hospitalar, específica para controle microbiológico de bactérias, fungos e vírus, incluindo super-bactérias. A ação denominada “Jato de Combate ao Coronavírus” conta, ao todo, com 70 colaboradores e mais de 1,2 mil vias públicas já foram contempladas pela ação.

Entretanto, para Hermano Silva, esse método só é recomendado para combater outros tipos de bactérias, mas covid-19, não. “O vírus não fica (vivo) por tempo suficiente no chão ou em paredes, pontos de ônibus, porque a sobrevida dele (vírus) fora de um contaminado é muito baixa”, completou.

Em Santo André, o tra­balho de lavagem e desinfecção também começou em março de 2020. Segundo a prefeitura, os serviços ocorrem em ruas e vias de grande movimento da cidade, centros comerciais, praças, unidades de saúde e hospitais, nas imediações do restaurante Bom Prato, terminais de ônibus, entre outros.

Para isso, a equipe do Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa) utiliza o mapa de calor que mostra os locais com maior número de contágio, para planejar as ações.
Em nota, tanto a prefeitura quanto o Semana, não respon­deram qual o custo desse serviço, e que medem a eficácia da ação, por meio do mapa, para verificar a redução das ‘ilhas’ de calor, após os serviços, que são realizados três vezes por semana.

O Semasa trabalha em conjunto com uma equipe da Secretaria de Manutenção e Serviços Urbanos, que faz a nebulização – principalmente – em mobiliário público, como bancos, lixeiras, pontos de ônibus, entre outros.

Entretanto, no quesito despesas com a covid-19 no município, Santo André gastou entre abril e dezembro de 2020, com a Guima Conseco Construcao Servicos e Comercio Ltda R$ 3 milhões com dois contratos de R$ 929.267,66 cada para a prestação de serviços contínuos de higienização hospitalar, para as áreas interna e externa das Unidades de Saúde e Hospitais de Campanha pelo período de 30 dias, outros R$ 411, 8 mil em julho e R$ 823,7 mil em dezembro para o mesmo serviço.

Para se ter uma ideia do tamanho desse custo, a prefeitura gastou R$ 189,6 mil na compra de 2 mil Cestas Básicas para serem entregues aos ambulantes e feirantes do município utilizando parte do valor doado ao Fundo Social de Solidariedade para o combate à pandemia causada pelo coronavírus.

SÃO CAETANO

O Sistema de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental (Saesa) e a Secretaria de Saúde de São Caetano do Sul também fazem a “limpeza pública” com a sanitização das ruas à base de cloro, desde fevereiro. Até o fechamento desta matéria, a prefeitura não respondeu aos questionamentos.

Mauá também não revelou o quanto gasta com as medidas de sanitização. Informou apenas que os serviços foram iniciados em 13 de janeiro com apenas um caminhão de hidrojateamento e o serviço é feito duas vezes por semana. Com relação aos custos, a prefeitura minimizou ao afirmar que utiliza equipamentos e mão de obra próprios.

Conselho Federal de Química e ABIPLA
criticam sanitização de locais abertos

Daher:“Só há eficácia de transmissão em um ambiente se houver ao menos uma pessoa infectada e outros interagindo com elas". Foto: Arquivo pessoal
Daher:“Só há eficácia de transmissão em um ambiente se houver ao menos uma pessoa infectada e outros interagindo com elas”. Foto: Arquivo pessoal

Em nota oficial conjunta, o Conselho Federal de Química e a Associação Brasileira de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (ABIPLA) afirmam que “a respeito de notícias sobre a instalação de equipamentos, em vias públicas, supostamente destinados a eliminar cargas virais, entre elas a de covid-19, que as pessoas teriam em suas roupas, notadamente aquelas que acabaram de utilizar transporte público, o Sistema CFQ/CRQs e a Associação Brasileira de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes (ABIPLA) esclarecem que: não há estudos científicos que comprovem a eficácia do uso desse tipo de desinfecção ou de higienização para eliminar microrganismos que eventualmente possam estar depositados em roupas”.

Para o médico infectologista, Marcelo Daher, que é também assessor técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia, a sanitização é algo muito questionável. O vírus não fica suspenso no ar e essa sanitização não faz sentido e é um absurdo. “O vírus precisa de uma pessoa para infectar e proliferar”, disse.

Daher afirmou, ainda, que a sanitização de ruas e avenidas feitas por algumas prefeituras tem mais um efeito psicológico do que sanitário, mas tem custo elevado e poderia ser aplicado em unidades hospitalares, cestas básicas para a população carente, e ajuda humanitária.

“Só há eficácia de transmissão em um ambiente se houver ao menos uma pessoa infectada e outros interagindo com elas. Sem essas pessoas, o ambiente perda totalmente a eficácia de transmissão, ou seja, não há necessidade de sanitização”, destacou.

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