Histórias da gente

Renata Cruppi: “Quanto mais falarmos sobre igualdade, mais vamos resignificar o patriarcado e menos desigualdade e violência teremos”

Renata Cruppi: "precisamos dar mais voz para as mulheres, a fim de que tenham mais igualdade de competitividade". Foto: Arquivo pessoal
Renata Cruppi: “precisamos dar mais voz para as mulheres, a fim de que tenham mais igualdade de competitividade”. Foto: Arquivo pessoal

Renata Cruppi é referência no combate à violência contra a mulher. À frente da Delegacia da Mulher de Diadema desde 2012, a idealizadora do programa “Homem sim, Consciente também, teve uma infância simples. Filha de metalúrgico e de autônoma, aos 8 anos acompanhava a mãe que vendia salgados e doces. Mesmo com a pouca idade Renata já dava sinais de sua determinação.

“Eu sempre acompanhei minha mãe e aos 8 anos tive vontade de ter minha clientela. Tinha uma rua perto de onde morávamos e eu vendia alguns itens para as pessoas conhecidas. Foi uma época muito gostosa”, afirma.

Foi nessa época que a agora delegada descobriu qual caminho seguiria em sua vida profissional. Após ser acertada na cabeça por uma pedra jogada pela vizinha em surto, Renata foi atendida no hospital e depois seguiu para a delegacia fazer boletim de ocorrência. A pequena não tinha noção de onde estava. Apenas anos depois soube exatamente o que era o local, mas o cenário a marcou profundamente.

Em meio às pessoas sendo presas e buscando atendimento, Renata ficou marcada pelo atendimento que recebeu do delegado. “Tivemos um atendimento muito gratificante, muito humanizado. O delegado foi muito sensível e aquele profissional me serviu de inspiração. Anos depois optei por prestar concurso para delegado de polícia”, conta.
A opção pela faculdade de direito não foi fácil. Renata trabalhava em uma livraria conceituada e sofreu ‘perseguição’ do gerente, que não aceitava o fato de ter escolhido um curso – em sua visão – tipicamente masculino. “Recebi até advertência verbal para me desestimular a fazer o curso de direito. Fui meio que obrigada a pedir demissão e trabalhar em outro local para terminar a faculdade.”

Novo desafio foi imposto quando Renata decidiu prestar concurso para segurança pública, inclusive de pessoas próximas, que achavam a área perigosa para uma mulher. “Não dei importância e continuei seguindo meu sonho. Fiz a faculdade de direito e trabalhei um pouco na área para saber se, de fato, era a área criminal que me encantava. Tive a confirmação com os casos que eu pude acompanhar. Prestei o concurso e, em 2009, assumi aqui em Diadema como plantonista. Depois fui convidada para ser a titular. Em novembro de 2012 vim como assistente para a Delegacia da Mulher e 15 dias depois fui convidada a assumir a titularidade”, destaca.

Renata afirma que no começo foi muito difícil lidar com o preconceito, não era tanto pelas equipes com as quais trabalhava, mas pelas vítimas. A delgada enfrentou assédio de usuários do serviço e comportamento indelicado de outros profissionais da área, mas com postura firme conquistou o respeito de todos. “ “Foi muito difícil, desgastante. Foram várias situações sexistas e de assédio, mas aos poucos eu fui conseguindo mudar esse cenário e adquirir o respeito de todos. Hoje não tenho tanto pro­blema quanto a isso, porque as pessoas já sabem meu posicionamento, que os gracejos não são recebidos sem uma resposta adequada”, afirma.

NOVOS DESAFIOS

Como delegada, segundo Renata, os maiores desafios estão relacionados a treinar a equipe para que seja acolhedora e olhe para vítima como uma pessoa que está precisando de apoio. “É preciso entender o perfil da vítima. As questões emocionais que estão envolvidas, para que possamos prestar melhor atendimento. As vítimas sempre chegam bem fragilizadas. Então, precisamos fazê-la se sentir bem confortável, para que possam narrar todos os fatos e possamos trabalhar da melhor forma o caso.”

Segundo a delegada, os casos de violência doméstica e sexual são muito peculiares e destaca um que a marcou. “Um dos casos que me vi em situação bastante difícil foi no momento em que estava grávida de sete meses e fomos para um local de crime. A comunidade ameaçou avançar contra a viatura mesmo vendo que era uma policial grávida. Eles queriam evitar a prisão do agressor. Era um estuprador e também chefiava o tráfico do local. Foi complicado porque não queríamos ninguém machucado no local e foi necessária uma estratégia muito rápida para que encontrássemos a pessoa, saíssemos do local sem que ninguém se machucasse. Deu tudo certo, mais foi uma situação muito difícil em um local de muita exposição nossa”, destaca.

Ao comentar o caso, Renata faz uma ressalva ao falar de sua gravidez. “Minha maior conquista de vida foi a gravidez, porque fiquei anos tentando. Graças a Deus fui abençoada com um menino lindo, inteligente, que não imagino minha vida sem ele”, afirma.

A VIOLÊNCIA

Segundo Renata, o medo é muito presente nos casos de violência. Durante o relacionamento a mulher consegue distinguir os gatilhos que levam à violência e proteger os filhos de um mal maior. Porém, estando separados ela fica insegura, com medo de ser perseguida. “O desgaste emocional é muito intenso para a mulher. Então, ela acaba se subme­tendo a um relacionamento abusivo por conta a insegurança.”

Para a delegada, a pandemia trouxe retrocesso na questão da igualdade de gênero, amparado pela falta de independência financeira. “Com o desemprego, a mulher permaneceu no lugar mais perigoso para ela, que é o lar. Ficou mais exposta ao agressor, sem rede de apoio e acolhimento. Não considero expressivo o aparecimento de novos casos. Considero revelação. Casos que já existiam, mas por conta da rede de apoio ela conseguia sair do ambiente e controlar um pouco mais (a violência). Como a vítima estava mais à mercê do algoz não restou alternativa a não ser revelar a violência”, afirma.

Renata chama atenção que a violência está relacionada à repetição do que foi vivenciado na infância e adolescência. “O casal geralmente reproduz o que vivenciou. Não tiveram orientações ou o conhecimento adequado que os permitisse ter um comportamento saudável. Não basta apenas o falar. O exemplo vem pelo agir do casal e os filhos vão reproduzir isso na fase adulta. São raros os casos de filhos que não vão reproduzem a violência. Então, temos de ter mais diálogo, mas respeito dentro de casa e atitudes positivas. É importante que os pais, mesmo que não havendo a violência, tenham hábitos positivos para com os filhos, como abraçar, elogiar, enaltecer as habilidades, incentivar o desenvolvimento de competências, para que assim se formem adultos mais consistente”, destaca.

Outra questão levantada pela delegada é a cultura patriarcal ainda difundida no país, em que o homem é superior à mulher, mais forte, mais competente e que desprestigia os talentos femininos. “Se começarmos a mudar esta perspectiva, colocando os valores corretos e dando aos dois as mesmas oportunidades, aí sim vamos ter um respeito maior. Ambos têm suas fragilidades, seus gatilhos e têm de ser respeitados”, ressalta.

Para Renata, a sociedade tem papel imprescindível nas mudanças relacionadas à questão de gênero. “Precisamos conversar sobre as desigualdades. Precisamos dar mais voz para as mulheres, a fim de que tenham mais igualdade de competitividade. Assim poderemos ter mais mulheres em cargos de comando e na política. Precisamos que a mulher possa ser analisada por sua competência, não por sua fisiologia, por poder ser mãe. Quanto mais falarmos sobre igualdade, mais vamos resignificar o patriarcado, e menos desigualdade e violência teremos.”

COMBATE À VIOLÊNCIA

A violência contra a mulher não se resolve apenas com a polícia judiciária. Existe a necessidade da articulação de diversos serviços para que seja enfrentada efetivamente. Para esse enfrentamento, Renata Cruppi idealizou o programa “Homem sim, Consciente também”, que consiste na realização de sete encontros, com acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. “Fazemos o acompanhamento de homens com perfil violento e autodestrutivo. Nosso objetivo é o resgate do conceito de família, da necessidade de autoconhecimento para que o homem tenha ferramentas suficientes para quebrar o patriarcado. Precisamos fazê-los entender quem são e que as cobranças sociais e a cultura sexista devem ser enfrentadas. Que a mulher precisa ser respeitada nas suas particularidades”, afirma.

Segundo Renata, a orientação dos homens é essencial para que haja rompimento do ciclo e violência. “Não basta fortalecer a mulher para que tenha autonomia financeira e emocional. Ela vai conseguir se desvencilhar desse homem, mas ele vai fazer outra vítima. Com a intervenção o homem se cons­cientiza de que se tivesse feito diferente o relacionamento não teria terminado e se fizer diferente as coisas podem melhorar. Nosso objetivo não é a quantidade de homens que passam pelo programa, mas sim, a quantidade de homens que resignificaram seu papel social, como ser humano e buscam fazer a diferença e ser agentes multiplicadores”, destaca.

O projeto de Renata tem sido reproduzido em outras cidades, motivo de satisfação profissional para Renata. “Profissionalmente tive várias conquistas, mas a mais importante foi conseguir contribuir para os avanços da luta contra a violência relacionada a mulheres e meninas. É muito gratificante. Ter essa credibilidade para ser chamada até a outros estados para falar sobre o tema é uma conquista muito significativa para mim”, finaliza.

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