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Reação da população à morte de Fidel Castro expõe choque geracional

Começou ontem a caravana com as cinzas de Fidel Castro. Foto:  Roberto Garaicoa/ Cubadebate“Quando eu era jovem amava Fidel, admirava como homem, bonito e corajoso, e por suas ideias”, diz a turista argentina Judith Malzon, 62, a uma jovem garçonete cubana de um restaurante praiano de Havana. A garota sorri e diz, com algo de picardia: “sim, minha mãe também”.

Quando se conversa com cubanos sobre Fidel, o assunto varia de acordo com a geração. Os mais velhos se aferram, contra ou a favor, a seu legado político e revolucionário; os mais novos dizem não amá-lo nem odiá-lo, mas a maioria acaba concluindo com variações da frase: “só queria que fôssemos um país mais moderno”.

Na longa cerimônia da noite de terça (29), na Praça da Revolução, Aurora Díaz, 69, se dizia emocionada”. Envolta em uma bandeira com o rosto de um Fidel jovem, disse: “Ouvi dezenas de seus discursos, nunca me importei com o tamanho deles, não me cansava de ouvir sua voz. Hoje falaram quatro presidentes, e já estou exausta. Querem repetir seu estilo, mas não conseguem. Ninguém é como ele era”, disse, referindo-se a Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia), Sánchez Cerén (El Salvador) e Daniel Ortega (Nicarágua).

Já de um grupo de jovens vindo da província, as reações eram diferentes. “Quando ouço meus pais e meus avós falarem da Revolução, acho bonito, mas parece algo muito longe no tempo, que temos que preservar nossa história. Porém, queria muito era poder ver os jogos do Barcelona ao vivo”, brinca Ramón, 17.

Ontem (30), feriado escolar pelo luto, Havana teve um dia tranquilo. “Minha mãe pediu para não falar com estrangeiros, que a ilha está muito cheia de jornalistas e isso pode nos causar problemas”, disse Brian.

O grafiteiro e ativista Daniel Maldonado, 32, conhecido como “Sexto”, foi preso após fazer intervenções em alguns muros de Havana após a morte de Fidel. Sua mãe, María Victoria, disse que oficiais chegaram “sem ordem de detenção e o levaram de forma violenta”.

Os grafitis de Sexto diziam apenas “se fue” (foi-se), mas a provocação foi suficiente para que o artista fosse novamente detido. Em 2014, Maldonado já havia sido preso por “desacato às figuras de Fidel e de Raúl Castro”, por conta de uma performance num parque de Havana, em que pintou dois porcos com uniforme verde, referindo-se ao líder revolucionário e seu irmão.
Agora, Maldonado foi levado à Villa Marista, prisão conhecida por ser onde se interrogam e encarceram dissidentes políticos, e depois para uma prisão em Guanabacoa, na Capital.

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