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Quinze meses após fechar fábrica no ABC, Ford encerra produção no Brasil

Fábrica de Camaçari emprega cerca de 4 mil trabalhadores. Foto: Divulgação/Ford
Fábrica de Camaçari emprega cerca de 4 mil trabalhadores. Foto: Divulgação/Ford

Quinze meses depois de fe­char a fábrica de São Bernardo, a Ford anunciou ontem (11) o encerramento da produção de veículos no Brasil, que come­çou há mais de um século, em 1919. Serão desativadas as plantas de Camaçari (BA), onde produz os modelos EcoSport e Ka; Taubaté (SP), que fabrica motores, e Horizonte (CE), onde são montados os jipes da marca Troller.

Serão mantidos no Brasil a sede administrativa da empre­sa na América do Sul, localiza­da na Capital paulista; o Centro de Desenvolvi­men­to de Pro­du­to, situado na Bahia; e o cam­­po de pro­vas de Tatuí (SP).

A Ford argumentou que to­mou a decisão após “anos de per­das significativas”, agrava­das pela pandemia de covid-19, que ampliou a “persistente capacidade ociosa da indústria e a redução das vendas” no país.

A Ford foi a primeira montadora a se instalar no país, mas vinha enfrentando fortes quedas nas vendas no Brasil, realidade que foi acentuada pela pandemia da covid-19. A empresa vinha perdendo espaço para concorrentes. Em 2020, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), a fatia da montadora era de 7,14%, atrás de General Motors, Fiat, Volkswagen e Hyundai, considerando automóveis e comerciais leves. Há poucos anos a empresa tinha 12% de participação.

“A Ford está presente há mais de um século na América do Sul e no Brasil, e sabemos que essas ações são muito difíceis, mas necessárias, para a criação de um negócio saudável e sustentável”, disse em nota o presidente da Ford, Jim Farle­y.

A produção será encerrada imediatamente em Camaçari e Taubaté, mantendo-se apenas a fabricação de peças por alguns meses para garantir disponibilidade dos estoques de pós-venda. A fábrica da Troller em Horizonte continuará operando até o último trimestre de 2021. Como resultado, a Ford encerrará as vendas do EcoSport, Ka e T4 assim que terminar o estoque.

Com a decisão, 5,3 mil funcionários serão demitidos no Brasil, dos quais 4 mil em Camaçari, 830 em Taubaté e 460 no Ceará. A Ford informou que “vai trabalhar imediatamente em estreita colaboração com sindicatos e outros parcei­ros no desenvolvimento de um plano justo e equilibrado para minimizar os impactos do en­cerramento da produção”.

Segundo a Ford, o impacto financeiro do fechamento das três fábricas será de aproximadamente US$ 4,1 bi­lhões, dos quais US$ 2,5 bilhões serão des­tina­dos a compensações, resci­sões, acordos e ou­tros pagamentos. A montadora diz que se­guirá importando SUVs, pi­capes e comerciais de fábricas da Argentina, do Uruguai e outras origens.

ABC

A decisão de encerrar a ma­nufatura brasileira segue o pla­no de reestruturação dos ne­gó­cios da Ford na América do Sul, inicia­do com o fechamento da fábrica de São Bernardo – anunciado em fevereiro de 2019, mas só concluído em outubro do mesmo ano. Lá eram produzidos o compacto New Fiesta e os caminhões Cargo e da Série F.

Dos 2,7 mil funcionários da unidade do ABC, apenas mil – da área administrativa – foram mantidos. Em outubro do ano passado, a montadora vendeu por R$ 550 mi­lhões a fábrica à Cons­trutora São José e à FRAM Capital, que pretendem erguer um condomínio logístico no local.

O dire­tor-titular do Centro das Indústrias do Estado de São Pau­­lo (Ciesp) em São Bernardo, Cláudio Bar­berini Ju­nior, afirmou que a decisão representa mais um duro golpe para a cadeia produtiva de autopeças, com impacto no ABC.

“A Ford permaneceu por mais de 50 anos em São Bernar­do. Então é natural que uma cadeia de fabricantes de peças tenha se formado na região e continue fornecendo para a montadora, embora seja difícil quantificá-las. O impacto será pior para pe­quenas empresas – que, na maioria dos casos, dividem sua produção em no máximo três ou quatro clientes. Assim, quando a Ford para de encomendar peças, o impacto é de 25%, 30%”, comentou.

Bar­berini Ju­nior destacou que o ambiente de negócios no país é o pior possível, com impacto na competitividade do produto brasileiro. “A logística é difícil e custa muito, a energia é cara, a carga tributária é elevada e o empregador gasta muito pa­ra manter um emprego, mas pa­ga pouco ao funcionário. Para piorar, o governo vive em eterna instabilidade política”, criticou.

A Ford é a segunda montadora a anunciar o fechamen­to de fábricas no Brasil em menos de um mês. Em dezembro, a Marcedes-Benz encerrou a produção de sedãs em Iracemápolis (SP).

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