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Presos desafiam facções rivais com gritos de guerra em presídio do RN

Presos rebelados na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Foto: Avener Prado/Folhapress

“Uh, é sindicato. Uh, é sindicato”, gritam cerca de 30 presos em cima dos telhados do presídio de Alcaçuz, na zona metropolitana de Natal.

Com os rostos à mostra ou cobertos, com pedaços de paus e bandeiras nas mãos, os presos fazem gritos de guerra de suas facções criminosas.

Dois depois do massacre que matou 26 detentos, os presos “viraram” a cadeia novamente. O grupo que grita “Sindicato” está na ala 1, que é comandada pela facção criminosa Sindicato do Crime.

Em cima dos telhados da ala 5, do outro lado da cadeia, estão presos ligados ao PCC. Do lado de fora, parentes temem outra cachina. O medo é que aconteça um confronto entre as duas facções.

Polícias armados com fuzis estão nas guaritas do presídio. Também circulam pelo entorno da detenção.

Durante a manhã, agentes penitenciários chegaram a jogar bombas de gás dentro presídio.

Por volta das 11h30, dezenas de policiais do GOE (Grupo de Operações Especiais) entraram na detenção. No momento, eles ocupam o pátio.

“A prioridade agora é evitar outra carnificina, como a de ontem. A informação que temos é que os presos do PCC estão livre lá dentro. Há um grande risco da chacina se repetir”, afirmou Gabriel Bulhões, da comissão de advogados criminalista da OAB. Ele acompanha a situação do lado de fora.

Na parte externa do presídio, não há representantes do governo.
Parentes dos presos fazem orações periódicas. Francisco Ferreira, 60, (nome de fictício) tentava reconhecer o filho entre os presos que estavam no telhado. “Não estou conseguindo enxergar”, dizia ele, chorando.

MASSACRE EM ALCAÇUZ

Motim na penitenciária de Alcaçuz deixou 26 presos mortos neste fim de semana, segundo contagem do governo. A rebelião foi motivada por uma briga nos pavilhões 4 e 5 do presídio envolvendo as facções PCC e Sindicato do Crime. Segundo o governo, todos os mortos são ligados ao Sindicato do Crime. Houve uma invasão de um pavilhão por presos inimigos, o que deu início ao motim.

A matança é mais um capítulo da crise penitenciária no país: é o terceiro massacre em presídios em apenas 15 dias. No total, 134 detentos já foram assassinados somente neste ano, 36% do total do ano passado, quando 372 presos foram mortos.

O trabalho de identificação dos corpos começará nesta segunda e deve seguir por 30 dias, diz o governo -em Roraima, onde um motim deixou 33 mortos no dia 6, o governo demorou pouco mais de um dia para divulgar uma lista com os nomes de 31 vítimas. Dois dos presos mortos no Rio Grande do Norte foram carbonizados e todos os outros foram decapitados.

Segundo o diretor do Itep (Instituto Técnico Científico de Perícia), Marcos Brandão, não há marcas aparentes de perfuração por balas nos corpos, apenas por instrumentos cortantes -ainda é preciso fazer necropsia nos corpos para identificar as causas de morte.

Agentes encontraram dentro do presídio uma pistola caseira, de um cano feita manualmente, e granadas não letais, que não foram usadas, segundo o governo.

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