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Prédio em SP tem susto, porta arrombada, “desfile” de camisola e unhada de gato

Eram 10h desta terça-feira (7), e o aposentado Rikio Endo, 78, preparava seu almoço. Arroz, um pouco de carne e missoshiro -a tradicional sopa japonesa à base de soja. Viúvo, estava sozinho quando um chute arrombou a porta de seu apartamento, no 12º andar de um prédio na Vila Mariana.

Era um militar do Corpo de Bombeiros. Ele entrou e retirou o aposentado à força do apartamento, na zona sul de São Paulo, onde mora há cerca de 30 anos.

Desde a tarde de segunda-feira (6), Endo era o único morador do edifício Norma, que havia sido interditado pela Defesa Civil. Mas foi só na rua que Rikio descobriu a situação do prédio onde havia dormido na noite anterior.

O edifício Norma tem seus quatro andares inferiores abaixo do nível da rua. E entre o asfalto e os apartamentos há uma encosta protegida por um muro de contenção. Na segunda-feira, o muro deu sinais de instabilidade. Três vigas que davam sustentação à parede trincaram com a pressão que a encosta (possivelmente encharcada) estava fazendo.

A Defesa Civil então interditou o imóvel. “Eu não sabia de nada disso. As pessoas falam que eu sou corajoso por dormir no prédio, mas eu não sabia de nada”, explica Rikio.

Ao avaliar a estrutura do edifício Norma, a Defesa Civil considerou que o prédio geminado a ele, o Ernani, não corria perigo. Os imóveis têm cerca de 50 anos.

Mesmo assim, a moradora do Ernani, Maria de Lourdes Hirai, 60, disse ter ficado apreensiva. “Eu nem dormi direito, com medo do meu prédio cair. Fiquei atenta a qualquer barulho de estalo”, conta.

Nesta terça (7), a encosta terminou de ceder, levando abaixo o muro de contenção, uma passarela que liga a rua ao Norma e parte da calçada da rua Doutor Nicolau de Sousa Queirós. Alguns apartamentos do primeiro andar foram invadidos por terra.

O desmoronamento abalou também o edifício Ernani, forçando a evacuação de seus moradores.

Maria Fernanda Bianchi, 63, acordou por volta das 9h com o zelador do prédio dando murros em sua porta e gritando que o Ernani estava prestes a ruir. De camisola, a servidora aposentada da USP correu para resgatar os dois gatos Valentino, 5, Francesca, 4.

Sem entender o motivo da urgência, Francesca se debatia e unhava a dona, enquanto ela tentava enrolar os animais em uma manta para tirá-los do imóvel. “Fiquei arranhada no pescoço, nariz, braços, mãos”.
Fora do prédio, Maria Fernanda correu para abrigar o que tinha de mais valioso: pegou um táxi e deixou os gatos em um pet shop do bairro. “Eu não sabia do que havia acontecido com o Norma. Se eu soubesse, não teria dormido no Ernani”, conta ela.

De camisola (e casacos emprestados por vizinhos), Maria Fernanda aguardava por alguma posição dos Bombeiros e da Defesa Civil sobre a segurança do prédio. “Ninguém nunca me viu sem maquiagem ou sem estar bem arrumada. Agora estou assim, no meio da rua”, brincava.

Horas depois, Maria Fernanda foi uma das centenas de moradores autorizados a subir nos edifícios para pegar pertences essenciais. Em uma sacola grande, Maria Fernanda recolheu apenas um notebook, roupas e documentos. Chorando,  lamentou não ter tido condições de recolher os álbuns com fotos de sua mãe.

A rua Nicolau Sousa Queirós tem histórico de infiltrações que abalam prédios. Há cerca de 30 anos, uma encosta cedeu e causou um buraco que tomou conta da rua.

Aproximadamente 15 anos depois, o muro de arrimo de outro prédio cedeu, segundo moradores, por infiltração. Há oito anos, uma galeria de água teria estourado e inundou de água e lama uma escola de tênis na rua de baixo.

A Defesa Civil disse que iria isolar a rua e os prédios Norma e Ernani por 24 horas para avaliar a estrutura dos imóveis. Só depois disso será possível dizer se as 116 famílias poderão retornar aos prédios.

A Defesa Civil deverá ainda avaliar quais foram os motivos do desmoronamento e se uma obra de contenção de infiltração no primeiro pavimento do Norma pode ter alguma interferência no incidente.

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