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Patty Ferreira: ‘por conta da fala do povo preto ser guerreiro, se esquece que somos seres humanos’

Segundo a vice-prefeita de Diadema, quando se faz política para o povo preto, que é maioria no Brasil, se faz para todos

Patty Ferreira: "fomos o último país a acabar com a escravidão, mas é o povo que ficou mais jogado à própria sorte. Foto: PMD
Patty Ferreira: “fomos o último país a acabar com a escravidão, mas é o povo que ficou mais jogado à própria sorte. Foto: PMD

Na próxima segunda-feira (20) é celebrado o Dia da Consciência Negra. A data foi escolhida porque marca a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares e tem como um dos objetivos promover reflexão sobre as questões raciais. O Diário Regional conversou com a vice-prefeita de Diadema, Patty Ferreira, que falou sobre as desigualdades econômicas e sociais do povo preto em relação aos não pretos, e sobre o racismo estrutural que ainda persiste no Brasil.

“Sempre tenho muito cuidado ao falar do mês de novembro, porque parece que a gente afasta um pouco o povo branco e não é essa a ideia. Muito pelo contrário. É poder mostrar que às vezes a dor que o racismo causa na pele de uma pessoa preta não é percebida pela pessoa de pele branca e a gente precisa mostrar isso”, pontuou.

Confira os principais trechos da entrevista.

Privilégios de classe

No Brasil e creio que no mundo o racismo é estrutural e institucional. É um resgate que muitos ainda não aceitam e não entendem. Muitos que eu digo não é só o povo branco ou não-preto. Até alguns da etnia afrodescendente que acabam não entendendo. Essa questão da classe precisa ser muito trabalhada. Quando se fala em classe se pensa no sistema piramidal que quem está lá embaixo é povo preto em sua maioria.

Com relação a Diadema, por exemplo, uma cidade com densidade demográfica muito alta, temos cerca de 390 mil habitantes e, destes, 50,5% são negros. Se formos levar em comparação, estamos em um universo muito equiparado com o povo não-preto, mas que os direitos não são iguais.

Hoje ainda é minoria o preto e a preta no poder em todos os sentidos. No poder Executivo, Legislativo, no poder empresarial. Há poucos negros como CEO de empresas ou negras em cargos mais altos. Isso nos faz acreditar que ainda há muita desigualdade. Que a equidade ainda não aconteceu e ainda está longe de acontecer.

Por isso, estamos o tempo todo nos movimentando. Eu, como uma mulher preta no Executivo de uma cidade que é a quarta do país com maior número de população negra, são pautas que não podemos deixar para trás, porque no nosso universo de Diadema é pulsante.

Colocamos essas lutas sempre em pauta, sobre a população preta na sua ascensão profissional e educacional, permitindo que tenha protagonismo em todos os sentidos. Às vezes não é só protagonismo que queremos. Queremos dinheiro no bolso para participar do desenvolvimento econômico da cidade.

Eu, uma mulher preta no poder Executivo, mostro que não só eu estou aqui, como várias outras e outros podem vir e, com isso, vamos diminuindo essa diferença de classe.

Injustiças econômicas

Há falta de credibilidade das pessoas que contratam, porque por mais que hoje o preto e a preta estejam na universidade entram, na maioria das vezes, mais tarde. Geralmente vêm da rede pública que ainda tem um fator de desigualdade educacional muito grande.  Então, entra depois de muito lutar. Graças a Deus existe o Enem, o Prouni e o Fies (financiamentos estudantis) que permitem um pouco mais de igualdade. Porém, ainda assim o preto e a preta entram depois, porque dentro do desenvolvimento econômico familiar primeiro precisam trabalhar, para depois começar a se dedicar a uma formação educacional mais ampla.

Até se falando no universo universitário. Hoje temos as cotas, mas ainda perdemos esse espaço para pessoas que vêm de escolas particulares. Que têm, vamos dizer, uma facilidade muito maior em razão da grade curricular, do estudo de línguas e até de não trabalhar.

O racismo estrutural também ocorre quando vamos falar nos salários. As mulheres ganham menos que os homens em funções iguais. Claro que agora foi colocada a lei do nosso presidente Lula de equiparação salarial. Porém, ainda vai demorar para que isso aconteça na prática.

A mulher ganha menos que o homem branco e que o homem preto. O homem preto ganha menos que o homem branco em mesmas funções. Por aí você percebe que há preconceito.

Fomos o último país a acabar com a escravidão, mas é o povo que ficou mais jogado à própria sorte. Então, ‘agora você não é mais escravo e vai se virar sozinho’.

É um resgate de tantos anos e que a própria educação dos nossos ancestrais ensinou que primeiro a gente tem de trabalhar, depois estudar e hoje os cargos são baseados na formação profissional. Então, que tem universidade, pós, alguma coisa além, consegue salários melhores, por isso, tem ainda essa desigualdade, que espero que haja conscientização.

Em Diadema fazemos um trabalho junto ao empresariado e industriários sobre a cota de pretos dentro das empresas; de fazer isso acontecer.  Aqui na cidade temos uma lei que institui nos concursos públicos que 20% sejam cota para negros dentro do serviço público. Isso já vai dando oportunidade de trabalhar e estudar, uma forma virar essa chave e podemos nos colocar em um patamar de equidade mesmo.

Combate ao racismo

Falta conscientização. Por exemplo, um fato que aconteceu comigo. Na ausência do prefeito (José de Filippi Jr), eu, vice, me tornei prefeita para substituí-lo. Foi colocada nas redes sociais uma foto minha com a pergunta: você conhece a prefeita de Diadema? Aí, olhando nos comentários tinha um que dizia: mas, ela? Prefeita, com esse cabelo? Um comentário péssimo, como se uma mulher preta, com cabelo afro, não passasse credibilidade e pudesse assumir um cargo como esse.

Abri os comentários para ver de quem era. O pai era preto.  Eram pais pretos, com duas filhas pretas, estudantes aqui de Diadema, da escola pública. Por aí você percebe que muitas vezes o racismo está dentro de casa e não se enxerga.

De uma certa forma estamos combatendo isso, colocando dentro de nossas escolas públicas o programa de Dandara e Piatã. É a oportunidade que a criança tem, desde muito pequeninha, de receber formação étnico-racial, dos povos originários e, com isso, aquele pai que está na base da estrutura, com racismo estrutural, o filho vai começar a ensinar a ele que não é assim.

O racismo existe de fato e não acredito que a criança nasça racista. É um aprendizado. O mais importante que temos de combater hoje é que não temos de ser apenas não-racista. Temos de ser antirracista e deixar muito entendido que racistas não passarão. Quando unimos as mãos, caminhando no mesmo ideal, vamos combatendo (o racismo).

Preconceito religioso e cultural

Hoje os maiores racismos que enfrentamos são o religioso e o cultural. Quando falamos em alguns tipos de dança africanas, por exemplo, na cabeça das pessoas são danças proibidas, dos escravos. Começou por aí, os escravos, para que pudessem rezar e ter suas crenças, tinham de esconder. Então, o escravo fez muitas imagens de santos católicos virarem o seu sincretismo dentro da religião de matriz africana. Veio daí esse tipo de discriminação, que é maior ainda quando se fala da umbanda, candomblé e outras religiões originárias do povo africano.

Muitos não entendem pela falta de conhecimento, por isso a importância de um programa como o Dandara e Piatã. Por isso a importância de uma Afro Feira, como lançamos no último sábado. É fazer com que as pessoas tenham contato direto com a nossa cultura, com nossa dança, nossa origem religiosa; com nossas comidas e vestimentas. A pessoa conhecendo, automaticamente diminui a discriminação.

Quando temos o feriado de 20 de novembro decretado no Estado é um momento de conscientização. É um momento que o povo preto para e fala: ‘hoje vamos nos dedicar a um dia de luta, de união’. O 20 de novembro tem essa representatividade. De olha, estamos aqui. Estamos juntos, lutando no combate ao racismo, para tornarmoa o Brasil um país antirracista.

Projetos

A primeira ação que fizemos foi a rearticulação com a Coordenadoria de Políticas Públicas da Igualdade Racial, dialogando também com outras coordenadorias, porque quando falamos da juventude, também temos jovens pretos e pretas. Quando falamos da coordenadoria da  mulher, também temos pretas. Então, rearticular isso deu uma visão mais ampla do trabalho que precisávamos fazer para ter essas pautas contempladas.

Depois fomos para a área da Saúde. Temos hoje dentro do Quarteirão da Saúde um espaço dedicado à saúde da população preta, porque existem doenças específicas da população preta. Se não houver esse olhar e esse cuidado, vamos estar sempre aquém do que realmente precisa dentro da saúde.

Outros projetos vieram. Juntamente com o Consórcio Intermunicipal, veio a Ouvidoria dos Crimes Raciais, que hoje está instituída dentro da nossa coordenadoria. Isso é um grande avanço. De a pessoa que se sentir discriminada racialmente ter onde falar e obter ajuda jurídica. Fazer com que esse agressor seja punido, o que traz mais segurança.

Temos ainda o Dandara e Piatã e a cota de 20% para afrodescendentes nos concursos públicos que já falei. Colocamos a Festa da Kizomba, que ocorre em novembro há muitos anos na cidade e é resguardada por lei. Em novembro desenvolvemos várias atividades culturais, de roda de conversa a intervenções artísticas. Em janeiro temos a Águas de Iemanjá, também resguardada por projeto de lei, de cunho religioso e mais atribuído aos povos de matriz africana.

Com relação à Afro Feira, a ideia é que ocorra todo mês e seja descentralizada. Essa feira vai circular por Diadema, dando oportunidade para que todas regiões tenham contato com o povo preto, com sua comida, seu artesanato. Com suas vestimentas e livros.

Mês da Consciência Negra

No mês da Consciência Negra levantamos a pauta da mulher e do homem preto, mas também pedimos a união das pessoas que não são pretas, porque só juntos conseguimos combater o racismo.

Precisamos pedir essa união para podermos resgatar todos esses anos de perdas históricas. Perdas culturais, de gênero, de raça, de classe. Perda de quem nós somos. Muitos pretos e pretas se perguntam: quem nós somos? Estou aqui para ser sempre serviçal? Acabou a escravidão, mas é passado nos é passado institucionalmente que ainda está no momento de sermos serviçais. Não! Podemos estar em todos os espaços.  Aqui estou eu como exemplo, mulher preta, mãe solo, cabeleireira, moradora da comunidade. Hoje sou vice-prefeita de uma cidade. Então, vários outros e outras podem ser também. Dedicação e vontade a gente tem. Garra nem se fala.

Quando mencionam que o povo preto é guerreiro, não queremos ser apenas guerreiros. Queremos ser cuidados e acolhidos. Por essa fala do povo preto ser resistente, as pessoas esquecem que somos seres humanos e queremos ser acolhidos como tal. Afinal de contas, o sangue que passa pelo corpo não tem cor. Estamos aí para lutarmos juntos e fazer com que o país seja mais digno de se viver em todos os aspectos. Que se fizemos política para o povo preto, que é maioria no país, estaremos fazendo para todo mundo.

A resistência é isso: resistir para existir. É uma frase que diz muito, mas queremos resistir no amor, na força e na união; no coletivo, porque aí sempre caminhamos mais longe.

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