Diadema, Política-ABC, Sua região

Parentes de vereador de Diadema serão contemplados com apartamentos

Declaração de transferência de moradia para companheira do vereador. Foto: ReproduçãoParentes do vereador Sérgio Ramos da Silva, o Companheiro Sérgio (PPS), estão entre as 160 famílias que serão contempladas com apartamento no empreendimento da Rua Pau do Café, que será entregue pela Prefeitura de Diadema amanhã (1). Há uma semana, Sérgio discutiu na Câmara com o também vereador Paulo Bezerra (PV), que insinuou que haveria irregularidades nos cadastros dos parentes do popular socialista, que nega favorecimento. O empreendimento começou a ser construído em 2012, na gestão de Mario Reali (PT).

Os documentos são públicos e a reportagem do Diário Regional teve acesso aos processos na Secretaria de Habitação. Funcionários da pasta sugerem que Sergio Ramos usou influência política para garantir que os parentes fossem contemplados. São beneficiárias a companheira de Sérgio, Elivânia Ferreira da Silva, sua irmã Sueleide Ramos Ferrari e sua mãe, Maria da Gloria Silva. Em todos os cadastros existe uma “declaração de transferência de moradia”, assinada por outro munícipe para as beneficiárias, e por Sergio Ramos, que é identificado como presidente da Associação de Luta por Moradia Unidos da Pau do Café.

O ex-secretário de Habitação do município Eduardo Monteiro confirmou que a “venda de cadastro entre beneficiários de programas sociais era uma prática comum herdada das antigas administrações”. “Acredito que realmente têm direito, mas o fato é que até 2013, não existia a formalização dos processos. O que a gente fez foi normatizar e estabelecer um padrão, criar o processo com todas as entrevistas sociais, porque antes era tudo por anotações, por coisas que não se conseguia comprovar”, afirmou.

Em 2013, Ramos assumiu cargo de chefia na Secretaria de Habitação, por indicação do ex-vereador José Dourado (PSDB), que atualmente é assessor especial do prefeito. “Todos os processos são anteriores ao período que fui comissionado e também à minha eleição, em 2016”, argumentou o parlamentar. Companheiro Sérgio não acha que exista conflito de interesses por ele ser o presidente da Associação e também já ter trabalhado na Secretaria de Habitação.

Cadastro da Secretaria onde está anotado que a companheira do vereador não morou na área. Foto: ReproduçãoO parlamentar alega que foi casado com Elivania, mas que em 2008 se separaram legalmente e a ex-esposa ficou com a casa e ele com um carro. “Morei com ela lá de 2001 até 2008. Inclusive tem documento disso. Ela ficou com a posse, tem os filhos dela e quando o barraco foi removido ela teve direito ao apartamento. Ela trocou de cadastro, mas se você pesquisar, existe outro documento. Isso é normal”, afirmou.

Na documentação de Elivânia, no entanto, existe anotação dizendo que ela nunca morou na área e que o cadastro foi comprado de Alexssandro Pereira Viana. Viana não requereu o auxílio aluguel quando teve a residência, que estava em área de risco, interditada em fevereiro de 2011. A cessão para Elivânia é datada de maio de 2012 e no mesmo mês ela foi incluída no auxílio aluguel.

Em seu cadastro, Elivânia alega que é diarista, no entanto, em 2014 trabalhou como comissionada no gabinete do ex-vereador José Dourado (PSDB) recebendo, segundo informações da assessoria de imprensa da Câmara, cerca de R$ 3 mil. Mesmo assim, só abriu mão do bolsa aluguel em abril de 2016. “Ela recebia bolsa aluguel porque a prefeitura tirou ela de lá. Conversei com ela, que abriu mão quando foi assessora, mas a prefeitura tem obrigação de pagar o aluguel de todos os moradores que foram removidos, independentemente da renda. O que determina é a remoção”, garantiu o parlamentar.

Cadastros

O vereador afirma que ainda paga pensão para Elivânia, mas que agora são apenas namorados. Sobre documentos em nome de sua mãe, o parlamentar nega que haja o cadastro. “No nome da minha mãe não existe. Acho que você devia fiscalizar melhor. Minha mãe trocou lá com outra pessoa do Nova Conquista. Então, não tem no nome dela”, afirmou. Maria da Gloria recebeu a transferência de moradia de Adão Laureano de Oliveira, sem custos mencionados, em abril de 2012.

Sergio Ramos confirma que a irmã possui um cadastro. “Não é porque é minha irmã que não pode ter morado lá. Não era vereador nem assessor e todas as pessoas que moraram lá tem direito à sua moradia. O direito delas é anterior aos meus cargos”, destacou. No cadastro da irmã e da mãe de Ramos aparecem como dependentes as mesmas pessoas, Silas Ramos Silva e Sidraque Ramos Silva. Sueleide recebeu a transferência de moradia de Ariane Gabriel Novaes pelo valor de R$ 9,8 mil, em julho de 2011.

No cadastro de Sueleide, existe determinação de suspensão do bolsa aluguel, de fevereiro de 2016. No mesmo mês, apenas alguns dias depois, o ex-secretário Eduardo Monteiro assinou documento liberando os pagamentos. “Todo o processo vinha do serviço social e era uma relação de confiança. Se assinei, foi porque a área técnica recomendou”, justificou. Monteiro declarou que todos os processos feitos enquanto estava responsável pela pasta foram legais.

Elivânia também era beneficiária do Bolsa Família, e Sergio Ramos afirma em um momento que ela abriu mão do benefício em 2008, mas também diz que ela deixou de receber o benefício quando virou assessora, em 2014. Confrontado pela divergência, o parlamentar reitera que foi em 2008 que ela deixou de receber o benefício, quando os filhos atingiram a maioridade. Sergio Ramos reafirma que todos os processos foram legais e que não existiu nenhum tipo de favorecimento. A atual secretária de Habitação, Regina Gonçalves, não retornou os contatos da reportagem.

Ex-padrinho político de Sérgio Ramos, José Dourado afirma que o vereador participou de todo o processo de ocupação da área do Beira Rio, mas que não tem conhecimento se ele efetivamente morou no local. “Não tínhamos uma relação de um ir na casa do outro, posso estar até enganado”, ponderou. Os dois romperam em 2016, quando Sergio Ramos decidiu ser candidato a vereador e foi então transferido para a Secretaria de Obras. Dourado também confirmou que a companheira de Sergio Ramos foi comissionada no seu gabinete em 2014. A reportagem não conseguiu contatar os parentes do parlamentar citados na matéria.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*