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Pandemia: isolamento social aumenta a solidão de idosos e pessoas de risco

Apesar da proximidade proporcionada pelas redes sociais e a tecnologia, ferramentas não substituem os abraços e beijos. Foto: Julia Mirvis/Pixabay
Apesar da proximidade proporcionada pelas redes sociais e a tecnologia, ferramentas não substituem os abraços e beijos. Foto: Julia Mirvis/Pixabay

“Não sou feita para ficar sem beijos e abraços. São essenciais para mim. Sou conhecida na área da saúde pelos meus abraços. Abraço ajuda a curar. É muito tempo. Estou endoidando.” A afirmação da diademense Vera Lúcia Martinez resume o sentimento de milhares de pessoas para quem as redes sociais e a tecnologia não substituem inteiramente o contato físico, e sofrem neste período de isolamento social por conta da pandemia de coronavírus.

Vera afirma que é de altíssimo risco, por conta de alergia que a impede de tomar diversos tipos de medicamentos, além de estar na faixa acima dos 60 anos. Porém, o fato de ficar longe das filhas e dos netos – são cinco – a levou a desenvolver síndrome do pânico, agravada pelo fato de perder amigas para a covid.

“A gota d’água foi meu neto, que vinha me visitar e falava comigo pela janela dizer: ‘vovó, não pode nem um abraço bem fraquinho?’ Eu que sempre ajudei todos – afinal, são mais de 30 anos atuando na área da saúde – precisei de ajuda médica. Aguentei firme até meados de maio, mas foram muitas perdas: o contato, a morte de amigas que estiveram ao meu lado quando eu precisei, mas, principalmente, a morte de minha sogra, de quem cuidei até começar a pandemia. Fiquei em casa imaginando cada minuto do velório, do enterro. Não desejo isso para ninguém”, destaca.

EMOÇÃO

Para diminuir a angústia da mãe com o isolamento, as fi­lhas de Vera preparam uma surpresa. “Minhas filhas quase me mataram de emoção. No Dia das Mães, as duas se paramentaram (com máscaras, aventais, luvas, roupas esterilizadas) e vieram até em casa me abraçar.”

A depressão também chegou sem que Olindina Fernandes, de 79 anos, sentisse. “No começo estava tudo bem. Fiquei viúva há pouco tempo, mas fiz terapia e achava que estava forte emocionalmente. Quando percebi estava no fundo do poço. Precisei recorrer a medicamentos para melhorar. No começo você não sente falta das visitas. Os telefonemas suprem a necessidade de contato, mas com o passar do tempo você que ver as pessoas, sentar no sofá para conversar. Tomar um café. Estou melhorando aos poucos, mas ainda tenho recaídas. Tem dias choro e não tenho vontade de sair da cama, depois passa e assim vou levando”, conta Olindina.

Terezinha Souza também sofreu com os efeitos do isolamento social, mas a doença de um familiar a fez vencer a depressão. Acostumada a sair para fazer compras, pagar as contas e se exercitar, Terezinha destaca que nos primeiros dois meses estava tudo bem, mas depois a tristeza começou a pesar. “Estava me sentindo muito triste, inútil. Porém, meu filho adoeceu e minha nora, além de trabalhar, precisou correr com ele e não tinha tempo de preparar a alimentação especial que meu filho precisava. Tomei essa tarefa para mim e hoje sei que sou útil. Me devolveu o ânimo.”

NOVOS HÁBITOS

A pandemia do novo coronavírus chegou e exigiu novos hábitos, desde a forma de consumir até se socializar, tirando o ser humano da zona de conforto. Dentre “as novas formas” de se viver em meio à pandemia, o iso­lamento social mexeu com o emocional da maioria das pessoas, principalmente dos que estão no grupo de risco, como idosos e os portadores de comorbidades.

Segundo Guilherme Alcântara Ramos, coordenador do Núcleo de Atendimento Psicopedagógico do Centro Universitário UniCuritiba, é necessário se atentar que a pandemia exige o “isolamento social geográfico”, mas não o “isolamento afetivo”. “Existe uma diferença bem grande entre um distanciamento e outro. Nossa orientação é para que as pessoas encurtem distâncias aproveitando o que a tecnologia tem de melhor e estimulem os afetos.”

De acordo com o coordenador, o fato de as visitas e festas não estarem liberadas, a fim de evitar aglomerações, não invalida a criatividade. Assim vale organizar happy hours, festas de aniversário, chás de bebê, entre outros tipos de confraternizações virtuais. “Fisicamente não estão no mesmo espaço, mas quando se conectam, se reabastecem e reforçam o vínculo emocional, o que é extremamente benéfico e necessário”, destaca.

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