Histórias da gente

Pamila Braz: “a invisibilidade da população em situação de rua é um processo histórico e difícil de romper”

Pamila: “é um cotidiano complexo, considerando as especificidades da população em situação de rua".
Pamila: “é um cotidiano complexo, considerando as especificidades da população em situação de rua”. Foto: PMD

 

Para a coordenadora do Centro POP, a “invisibilidade” dessa parcela da população é um processo histórico e difícil de romper.

A situação de vida nas ruas é alarmante e falar sobre esse tema é mostrar a realidade de invisibilidade de uma parcela da população que vive à margem da sociedade.

Este ano, a Prefeitura de Diadema inaugurou a nova sede do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), em espaço pensado para minimizar os impactos de se viver nas ruas.

Os frequentadores do Centro recebem orientação e acolhimento com assistentes sociais, educadores sociais e psicólogos; têm acesso a cursos profissionalizantes, orientação para retirada de documento, ingresso em programas sociais (como o Bolsa Família), incentivo a voltar a estudar, dentre outras ações.

Com foco no resgate da dignidade, o equipamento oferece acesso a banheiro e chuveiros, café da manhã, almoço, uso de guarda-volumes, ligação telefônica, área de atividades coletivas com televisor, serviço de lavanderia, espaço para guarda de carrinho de coleta de recicláveis, canil e espaço pet.

À frente do Centro POP está Pamila Braz Louzada Silva. Para a coordenadora, a “invisibilidade” dessa parcela da população é um processo histórico e difícil de romper. “Infelizmente, essa população só é vista quando se tem o interesse de afastá-la”, afirma.

Segundo o último levantamento, o equipamento realiza, em média, 800 atendimentos por semana, sendo que as maiores demandas estão relacionadas à inscrição no Cadastro Único e acesso à documentação pessoal.

Pamila destaca que o dia a dia no Centro POP é complexo, haja vista que o perfil mais comum de frequentadores é de usuários de álcool e drogas ilícitas, que utilizam as ruas como forma de moradia.

“É um cotidiano complexo, considerando as especificidades da população em situação de rua, principalmente em questões relacionadas ao uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas, bem como em relação a guarda de pertences, para que haja uma organização do serviço”, afirma.

Outro ponto destacado pela coordenadora é me relação aos profissionais que realizam atendimento no espaço. “Acredito que para todos nós, funcionários do Centro POP, é de extrema necessidade o suporte psicológico, que necessita ser implementado como algo sistemático e contínuo. Trata-se do atendimento de demandas de violência que, muitas vezes, devido às especificidades de cada caso, são direcionadas ao corpo funcional, o que muitas vezes torna o trabalho estressante. Porém, temos conseguido grandes avanços com essa população, com a participação nos cuidados com o serviço e na participação em atividades”, destaca.

Pamila, que assumiu a coordenação do serviço há meses, afirma que houve avanços importantes no processo de reorganização do serviço, o que contou com o engajamento de parte considerável dos usuários e possibilitou a implementação do Conselho Gestor do equipamento. O conselho é formado por quatro usuários titulares e quatro suplentes, que auxiliam na proposição de melhorias ao atendimento à população. “O trabalho tem sido muito gratificante”, ressalta.

O atendimento no Centro POP rende muitas histórias. Pamila conta que certo dia, no período da manhã, o espaço foi informado pelos usuários sobre a morte de um atendido ao lado da sede. O SAMU foi acionado, que compareceu e levou a pessoa. A surpresa foi que por volta das 15h o suposto falecido adentrou ao serviço.

Segundo Pamila, algumas narrativas são motivadoras. “Temos histórias que relatam a carência de auxílio e pedido de ajuda dos usuários. Um dia, após uma briga, suspendemos marido e mulher do serviço, uma vez que se tratou da realização de ameaças aos funcionários e a integridade física dos usuários. Nesta briga, inclusive, fui ameaçada de morte por um deles. Após um tempo eles retornaram. Achei muito estranho que não tocaram no assunto. Então, deixei para lá e os tratamos com todo respeito de sempre. Após dois dias fui chamada por um deles e conversei reservadamente em uma sala. Fui surpreendida com um pedido de desculpas que nunca mais vou esquecer: ‘obrigada pelo que fez. Sua atitude mudou minha vida’. Isto realmente me emocionou, e muito. Ver o desenvolvimento desse casal me alegra o coração, pois hoje estão inscritos para o recebimento de auxílio-aluguel e um deles está inscrito em vestibular social da Universidade Metodista”, afirma.

A coordenadora destaca que para 2022 o Centro POP prepara a realização de parcerias com a iniciativa privada, mais especificamente com universidades, para a formação do Núcleo de Extensão Comunitária à População em Situação de Rua (NECPOP). “Essas parcerias vão propiciar a expansão dos atendimentos prestados pelas universidades à população em situação de rua”, finaliza.

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