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Padre Rubens: o eterno legado pela democracia e justiça social

Missa de corpo presente do Padre Emílio Rubens Chasseraux faleceu aos 80 anos na manhã do último sábado, em Santo André. Foto: Divulgação

Não seria um adeus, mas um até breve. Aliás, nem uma despedida, pois sua presença continuará marcante para sempre. Assim pode ser resumido o sentimento de cerca de 400 pessoas que lotaram na manhã de domingo (27), a Paróquia Nossa Senhora das Dores, na Vila Palmares, em Santo André, a fim de prestarem homenagens  ao fundador da comunidade, Padre Emílio Rubens Chasseraux, que faleceu aos 80 anos na manhã do último sábado (26), em Santo André.

A Missa de Corpo Presente foi presidida pelo bispo diocesano Dom Pedro Carlos Cipollini, concelebrada pelo vigário geral Padre Ademir Santos de Oliveira, e pelos padres Jackson Henrique da Silva (pároco anfitrião), Roberto Alves Marangon (pároco da Bom Jesus de Piraporinha – Diadema), Fernando Valladares (pároco da Nossa Senhora Aparecida – São Bernardo), Camilo Gonçalves de Lima (secretário episcopal) e o diácono Franco Chippari. Compareceram também familiares do Padre Rubens, além do prefeito de Santo André, Paulo Serra, o vice-prefeito Luiz Zacarias, e o presidente da Câmara,  Pedrinho Botaro.

Logo após, o cortejo seguiu para o Cemitério Cristo Redentor, na Vila Pires, na cidade andreense, onde ocorreu o sepultamento. A missa de sétimo dia será na próxima sexta-feira (1º), às 19h30, na Paróquia Nossa Senhora das Dores (Rua Mamede Rocha, 318 – Vila Palmares, Santo André).

Na homilia, Dom Pedro explanou sobre o evangelho do dia e um importante relato sobre a trajetória do Pe. Rubens, que havia completado 55 anos de sacerdócio em 29 de junho.

“Pe. Rubens falou aos corações e as palavras que ficam são essas, que se falam ao coração. Por isso que talvez se tivéssemos que recordar uma frase bonita é aquela de São Francisco: ‘cessem, portanto, as palavras, falem as obras’. Porque na vida do Pe. Rubens foi isso que ele fez. As obras que a partir da sua fé, obras de caridade, a partir do seu empenho de humanização, as obras de promoção humana.”

Colega de Pe. Rubens desde os tempos de seminário, no início da década de 1960, Marcos Padovani, 71 anos, resumiu brevemente o carisma e atuação do sacerdote muito além do espaço físico da igreja.

“Acompanhei todo o trabalho dele na Vila Palmares, como já foi muito dito por aqui. Era barraco, uma extrema pobreza, bairro operário em formação e tive a oportunidade de começar todo esse trabalho pastoral junto com ele”, recorda.

Por sua vez, Maria do Socorro, 62 anos, diz que a família é muito grata pela generosidade com que Pe. Rubens tratava as pessoas, dando dignidade e alimento para quem tinha fome e precisava de moradia.

“Ele ajudou muito os pobres. Me lembro quando a Dona Beatriz (falecida) cedeu o fundo do quintal de sua casa que era um barraquinho para ele celebrar as missas. Por isso, agradeço muito ao Pe. Rubens pela formação humana de cada pessoa, principalmente deste bairro”, afirma.

BIOGRAFIA

Filho de Alessandre Chasseraux Junior e Altumira Oliveira Chasseraux, Pe. Emílio Rubens Chasseraux nasceu no dia 22 de junho de 1939, na Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim, em Campinas, Estado de São Paulo; e foi batizado aos 02 de julho de 1930, na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em sua cidade natal.

Com  família numerosa e pobre, residindo em Piratininga, Rubens ingressou, pela Arquidiocese de Botucatu, no Seminário São José, em Botucatu, Estado de São Paulo, para os estudos de Seminário Menor. Cursou Filosofia no Seminário Maior de Aparecida, em Aparecida, e Teologia no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga, em São Paulo.

Rubens sempre foi um jovem que se preocupava com as dificuldades dos mais pobres. Em 1961 foi designado para trabalhos pastorais na recém-criada Paróquia Santa Edwiges, no Sacomã. Como seminarista, também começou a visitar a favela do Vergueiro, em São Paulo, trabalhando sobretudo em vista dos mais pobres.

Já subdiácono, foi excardinado da Arquidiocese de Botucatu aos 06 de fevereiro de 1964, sendo incardinado na Diocese de Santo André, acolhido por Dom Jorge Marcos de Oliveira, primeiro Bispo Diocesano.

Sem dizer ao bispo que não tinha onde ficar, passava o dia estudando e até assistia aulas escondidas no Seminário Central e pernoitava na Praça do Carmo, por opção pessoal, com os moradores de rua. Antes da ordenação, Dom Jorge o orientou a residir na casa paroquial da Paróquia Santa Teresinha, em Santo André, com os padres franceses.

Foi ordenado presbítero no dia 29 de junho de 1964, pela imposição das mãos de Dom Jorge Marcos de Oliveira, na Catedral Diocesana Nossa Senhora do Carmo, em Santo André, tendo dois moradores de rua como padrinhos de ordenação. Celebrou a primeira missa aos 30 de junho de 1964, na mesma Igreja Catedral.

Pe. Rubens foi nomeado vice-reitor do Seminário Menor da Diocese, instalado em São Bernardo do Campo, e também Vigário Coadjutor da Paróquia São Judas Tadeu, no Bairro Campestre, em Santo André. Abandonou os dois ofícios para residir, desde 1964, na favela de Vila Palmares, na recém-criada Paróquia Nossa Senhora das Dores, dormindo ao lado de um lixão como morador de rua.

além de construir a atual Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores e sua casa paroquial, fundou uma escola de alfabetização, creche para atender as necessidades de Vila Palmares e a Associação Quilombo dos Palmares, dentre outras obras sociais.

Estava inserido nos movimentos populares, organização de amigos de bairro e militância de grupos de fé e política. Foi perseguido e torturado pela ditadura militar no ABC Paulista, sendo inclusive preso algumas vezes entre 1968 e 1970.

Na Diocese de Santo André, além de Pároco da Paróquia Nossa Senhora das Dores por 46 anos (1964-2010); foi também Coordenador Regional (Região Santo André – Centro), em 1977; Administrador Paroquial das Paróquias na cidade de Santo André: Nossa Senhora de Fátima (1999-2000); Santa Rita de Cássia (1999-2003); Jesus Bom Pastor (2002).

Aos 17 de fevereiro de 2010, Dom Nelson Westrupp, scj, Bispo Diocesano de Santo André na época, aceitou a sua renúncia de ofício eclesiástico e se tornou “emérito”.

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