Diadema, Minha Cidade, Sua região

Ordalina Candido: pintando telas e mudando vidas

Ordalina: “arte era uma coisa muito distante para quem era pobre, preto”. Foto: Eberly LaurindoOs olhos de um azul profundo, a pele negra e a túnica colorida são a combinação perfeita para o ambiente, cheio de telas coloridas, as maiores retratando favelas, de uma forma tão bonita, que parecem mandar para longe a pobreza e as desigualdades que esse núcleos abrigam. Em seu atelier, Ordalina Candido, 50 anos de Diadema e 73 de vida, relembra sobre os primeiros “meninos” que recebeu em sua casa. “Meu marido trabalhava de noite e eles vinham para cá. Aprendiam a cortar cabelo, comiam comigo. Era melhor estarem aqui do que na rua, com as drogas”, declarou.

Ordalina nasceu no Paraná e estudou até o início da adolescência em um colégio interno francês. Sua mãe era a cozinheira da instituição e foi lá que teve os primeiros contatos com a arte. A família mudou-se para São Paulo e depois para Campos do Jordão, onde a paranaense trabalhou como arte-educadora na antiga Febem, atualmente Fundação Casa. “Eram crianças que foram abandonadas, ou tinham fugido de casa, não tinham família. Então, eu cozinhava alguma coisa para elas e levava, levava um doce. A gente ia se aproximando”, relatou.

Junto com a mãe, comprou um terreno em Diadema, quando os bairros Eldorado e Inamar ainda eram grandes chácaras. Para as primeiras crianças que ela ajudou, já em Diadema, ensinou cortes de cabelo. “Também é uma forma de arte. Muitos se especializaram e estão bem estabelecidos na vida”, relembrou.

No final da década de 1990, a inauguração de uma organização não governamental na região (que viria a ser a Acer – Desenvolvimento Humano e Comunitário, que também mantém a Rede Cultural Beija-Flor) levou Ordalina a dar aulas em uma instituição novamente. “Ajudava como podia. Dava aulas de pintura, de corte de cabelo, fazíamos hortas, cozinhava sopa”, pontuou. “Todos eram um pouco meus filhos”, completou. A artista teve quatro filhos biológicos.

“As aulas de artes para eles eram uma grande novidade. A arte era uma coisa muito distante para quem era pobre, preto. Mas eu os ensinei a pintar e eles se saíram bem”, se orgulhou ao lembrar a professora. As crianças da instituição fizeram exposição de seus trabalhos na Noruega. Ordalina também apresentou obras suas naquele país e tem trabalhos expostos em Portugal, Austrália, França e Canadá. No Brasil, já participou de exposições sem espaços como a Pontifícia Universidade Católica (PUC) e Universidade Mackenzie, entre outros.

Hoje, além de atuar como arte-educadora na Rede Cultural Beija Flor, Ordalina continua ajudando a descobrir novos talentos. “Aqui tenho trabalhado mais com os mais velhos, que não podem mais frequentar a ONG”, explicou. Em 2010, em uma oficina em uma tribo indígena em Itanhaém, litoral de São Paulo, Ordalina conheceu Wadson Silva, que dava aulas voluntárias de desenho. “Já desenhava, mas ela me apresentou as tintas, as cores. Era só o que faltava e comecei a pintar” contou o jovem de 23 anos, que tem viajado o país expondo e vendendo seus trabalhos, mas sempre voltando ao ateliê de Ordalina, que fica em cima da sua casa, no bairro Inamar.

Documentário

A história de Ordalina foi contada em um documentário, dirigido por Isabelli Gonçalves e Diaulas Ulysses, educador da cidade. O filme foi lançado no final do ano passado e poderá ser visto no próximo dia 27 de março, no Centro Cultural Serraria, às 19 horas (rua Guarani, 790). A artista plástica participa de bate-papo após a exibição.

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