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Novo coronavírus põe neoliberalismo na berlinda

Novo coronavírus põe neoliberalismo na berlinda
Roberto e Madalena destacaram que o coronavírus deve mudar a relação homem-natureza. Foto: Reprodução

A peste bubônica (também conhecida com peste negra), ocorrida na Idade Média, e a gripe espanhola, na década de 1910, deixaram como legado a redefinição do papel do estado e o fortalecimento de políticas públicas nas áreas econômica e sanitária. Com a covid-19 não será diferente. A pandemia do novo coronavírus terá como “efeito colateral” a desacele­ração do neoliberalismo, mo­delo predominante na políti­ca internacional desde que a primeira-ministra britânica Mar­garet Tatcher (1925-2013) co­meçou a adotar seus dogmas, há cerca de quatro décadas.

A previsão é do economista e urbanista Roberto Vital e da historiadora Madalena Marques Dias Grassl. Ambos publicaram nota técnica sobre o assunto na 12ª carta de conjuntura do Observatório de Políticas Públicas e Empreendedorismo da Universidade Municipal de São Caetano (Conjuscs).

“Temos observado, inclusive entre economistas identificados como neoliberais, ma­nifestações em defesa do au­mento do gasto público como medida de enfrentamento à pandemia. A participação do estado, que era discussão semimorta a partir da emersão do neoliberalismo, voltou com força”, disse Vital. O professor cita como exemplo o ex-presidente do Banco Central e atual secretário estadual da Fazenda, Henrique Meirelles, que é grande defensor da austeridade fiscal, mas defendeu a emissão de moeda para salvar a economia brasileira.

“O neoliberalismo moldou a consciência das pessoas com o discurso – veiculado nos meios de comunicação de massa – do estado mínimo, das privatizações. Porém, a pandemia pôs isso tudo na berlinda. Se não houver um estado que socorra as pessoas não haverá saída para boa parte da população, principalmente os mais vulneráveis, aqueles que não têm o que comer”, afirmou Madalena, para quem a pandemia deve fortalecer a pressão por melhores serviços públicos, especialmente na área da Saúde.

Vital destacou que a covid-19 expôs a fragilidade dos sistemas de saúde na maioria dos países. “O aparelhamento da Saúde pública virou assunto da agenda mundial. Até a pandemia, a Saúde era mais um item sujeito a ajustes orçamentários, não só no Brasil. Agora, a situação mudou. Nos Estados Unidos, por exemplo, o (pré-candidato democrata) Bernie Sanders desistiu de disputar a eleição presidencial, mas sua proposta de acesso universal à saúde deixou de ser dele e passou a ser nacional”, exemplificou.

No Brasil, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – que foi eleito com discurso liberal e de combate à corrupção – projeta desembolsar R$ 223,6 bi­lhões em ações de combate à covid-19.

Madalena entende que eventual guinada esta­tista pós-pandemia – sinali­zada, por exemplo, no anúncio do plano Pró-Brasil – vai depender de como o presidente e de seu grupo político vão sobreviver à crise.
Madalena destacou ainda que os países mais bem-sucedidos no combate à pandemia, como Coreia do Sul, Taiwan e China, têm forte tradição autoritária, o que pode ser interpretado como modelo de sucesso a ser seguido.

“Nesses países, as pessoas são mais obedientes e o Estado possui grande capacidade de controle de massas”, disse a historiadora, lembrando que o governo chinês manteve os 11 milhões de habitantes de Wuhan confinados por 76 dias em lockdown, modelo de isolamento mais severo do que o adotado no Brasil. “Isso nos traz o risco de uma guinada para o autoritarismo ser endossada pelas sociedades ocidentais.”

NATUREZA

A nota destaca também que peste bubônica, gripe espanhola e covid-19 têm em comum a origem no contato humano com animais e a explosão da epidemia nos centros urbanos. “O coronavírus deve mudar a relação homem-natureza, que tem se caracterizado por desmatamentos, inundações e outros processos de destruição de habitats naturais, o que ocasiona a migração de espécies hospedeiras de agentes patogênicos nocivos ao homem”, disse Vital.

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