Arte & Lazer, Cinema

‘No Fim do Túnel’ evoca a rica tradição argentina do policial

Foto: Divulgação

Desde que “No Fim do Túnel” começa, percebe-se que podemos estar novamente em contato com essa rica tradição do fantástico/policial argentino. Lá está Joaquín, paraplégico que vive em uma casa grande e sinistra. Em sua cadeira de rodas, recebe a espevitada Berta, que aparece com a filha para alugar o quarto que Joaquín anunciou e já vai se instalando, antes que o homem possa abrir a boca.

Não é, por várias razões, a hóspede que Joaquín esperava, entre outros motivos porque, com sua vitalidade, Berta ameaça seu modo sorumbático (que prefere a solidão: só aluga o quarto por causa de dificuldades financeiras). Vantagem de Berta: sua filhinha entra em contato com o cãozinho de Joaquín, também paralítico, e o animal volta a andar.

Algo soa falso. O importante é que, sob a casa, um grupo de assaltantes cava um túnel, abrindo caminho para assaltar o cofre de um banco. Joaquín é paralítico, não tolo: para sobreviver nessas condições, arma um notável aparato tecnológico, que lhe permite em dado momento observar e mesmo prever os movimentos dos assaltantes.

Essas são as linhas básicas do roteiro, aliás escrito pelo próprio diretor. Mesmo sendo este um filme falado, sentimos a cada instante que, se fosse mudo, daria quase no mesmo: o autor serve-se das imagens para narrar, faz delas sua prioridade e as maneja com grande habilidade.

Dito isso, que há um roteiro que fecha todas as pontas, será possível notar alguma arbitrariedade nas soluções finais. Porém, em Edgar Allan Poe também sentimos isso por vezes. Então, adiante.

Estamos diante de um “simples” policial permeado pelo mistério? Policiais nunca são simples assim: apenas dificultam a visão de suas ideias mais profundas. No caso, é preciso notar que o filme se passa em três níveis: o subsolo (túnel), o solo (térreo da casa) e andar superior (com terraço).

Existem ali inferno, purgatório e paraíso. Ao longo do filme essas instâncias surgirão com mais clareza, definindo o estado de cada personagem. Não será de todo inexato dizer que a maneira como a Argentina enfrentou as questões de sua atroz ditadura estão presentes aqui.

Pois, ao contemplar a violência desses seres que invadem o subsolo, não podemos deixar de lembrar da sinistra violência das juntas militares que governaram o país. E, quando nos deparamos com Guttman, o mentor do assalto, de imediato lembramos dessa quota de perversidade que encontramos no chefe da família de “O Clã” (2015), filme sobre os Puccio, que durante a década de 1980 usaram o próprio casarão, em Buenos Aires, como cativeiro de reféns.

Seria Guttman um remanescente da ditadura? Ou apenas alguém que se imbuiu da falta de princípios do período? De um modo ou de outro, não é obrigatório ver no filme esse combate entre as forças da luz e das trevas (ou, no caso argentino, da ditadura e da democracia) para apreciá-lo: ele está nas imagens, nas interpretações notáveis, na construção da trama.

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