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Não mexa, não toque, nesse meu cabelo!

Elas não querem saber de tintas e assumem os brancos como estilo, moda e fator de empoderamento
Ana: “essa pintura dos fios nunca pode ser fruto de uma amarra ou obrigação social”. Foto: Arquivo pessoal

Elas não querem saber de tintas e assumem os brancos como estilo, moda e fator de empoderamento

Entre um uma loja de cosméticos e tente contar as marcas de tinturas para cabelos. Vai ser difícil não se perder, tamanha oferta deste tipo de produto. E na grande maioria, com bastante destaque na embalagem, vai estar escrito: total cobertura dos cabelos brancos. Esse tipo de cosmético vem perdendo espaço nas compras e na vida de mulheres que têm assumido os fios brancos como estilo, como moda, e principalmente, como fator de empoderamento.

“Apesar de por muito tempo cabelos brancos em mulheres terem estigmatizado a velhice, o aumento da expectativa de vida somada ao poder e voz que as mulheres estão conquistando em todas as áreas permitem esta opção e discussão hoje”, afirma a consultora de imagem e estilo e especialista em acessórios de beleza, Kelly Serrano.

“Os cabelos brancos associados ao poder e não ao desleixo ressurgiram em 2006 com o filme O Diabo Veste Prada. Levou 10 anos para tomar força e desde o ano passado ganha cada vez mais adeptas. Quando mulheres de 40 e 50 anos aderiram, liberaram as mais maduras para entrar na onda sem culpa também. A tendência é tão forte que há jovens que chegam a descolorir o cabelo para depois adotar um tom acinzentado com tonalizante, aponta a também consultora de imagem e estilo, Mila Codato.

“Diria que é muito mais que uma tendência, é um grito de liberdade. As mulheres buscam por espaço e este é um deles, o direito de poder ser realmente bela tendo a cor de cabelo que quiser, seja ele natural ou não, da cor que desejar, na idade que tiver”, completa Kelly.

A professora universitária Ana Basaglia, de 51 anos, parou de pintar os cabelos para esconder os brancos há cerca de seis meses, depois de um período de quase seis anos fazendo isso regularmente. “Parei por achar chata e cansativa a ‘obrigação’ de pintar sempre que a gente acaba se impondo”, afirma. “Acho que atualmente a mulher tem mais liberdade para escapar de estereótipos engessados, e mulher sem pintar cabelo está deixando de ser sinônimo de desleixada”, pontua.

Ana relata que tem recebido apoio por parte das amigas, mas que pessoas mais tradicionais ainda estranham um pouco. “Inclusive o marido, que não se incomoda com o tom grisalho do cabelo dele, mas estranha os meus fios brancos não mais camuflados”, destacou. A professora afirma, também, que existe uma pressão sobre as mulheres para que escondam os cabelos brancos. “Como se a escolha por não pintar fosse um descaso, e isso absolutamente não precisa ser verdade! Quem gosta, pode continuar frequentando o salão em paz, para um bom corte, tratamentos capilares variados, e tudo bem. Quem não gosta, que possa seguir em frente com seus cabelos livres de tintas agressivas, e tudo bem também”, pondera.

“Pode ser que algumas pessoas se sintam ‘ameaçadas’ com essa mudança de status quo, mulheres rejeitando a imagem de capricho e auto-estima atrelada à cor sem fios brancos do cabelo. Pode ser que algumas mulheres se sintam descuidadas ou envelhecidas, por conta dos fios brancos na cabeça. Mas pode ser também que outras mulheres tenham entendido que elas podem ser autênticas e auto-centradas, sem que isso necessariamente passe pela opção de camuflar os fios brancos de seus cabelos”, declara. “Acho bacana quem gosta de pintar os cabelos, pela diversão que é se ver ‘camaleão’ no espelho. Mas essa pintura dos fios nunca pode ser fruto de uma amarra ou obrigação social”, conclui.

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