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Megainvasão leva medo e até chance de um novo negócio em São Bernardo

Cerca de 6 mil barracas foram montadas em invasão no terreno da MZM no bairros Assunção. Foto: Ricardo StuckertO churrasco de domingo teve uma convidada nova: uma lona azul pendurada na porta da garagem para afastar olhares curiosos. Atrás da proteção, a neta da aposentada Solange Souza, 63, brincava com seu tablet, já que agora não pode mais ficar sozinha na praça em frente de casa. Do outro lado da lona, um vaivém de famílias inteiras sobe e desce a rua, até então tranquila, carregando enxadas, colchões, cavadeiras e até caixas de frutas.

A poucos metros, uma vizinha aproveita o movimento para vender, na porta de casa, refrigerantes e cachorro quente. A concorrência é grande. Bem ao lado, barracas improvisadas vendem churrasco grego, salgadinhos e espetos. Tudo isso acontece há cerca de duas semanas em torno da até então pacata Vila Comunitária, que reúne cerca de 40 casas em uma espécie de oásis residencial em meio a fábricas de São Bernardo.

A rotina dali mudou quando o enorme terreno no fim do conjunto de casas se transformou em megainvasão liderada pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). No lado oposto a esse terreno, onde foram montadas mais de 6 mil barracas, se enfileiram dez prédios de condomínios de classe média. Moradores assistem à movimentação das janelas e sacadas.

O movimento alega que o terreno estava vazio havia mais de 30 anos. A construtora MZM entrou com um pedido de reintegração de posse, sem sucesso por enquanto. O clima é de tensão entre sem-teto e moradores. No domingo (17), em cima de um carro de som virado para os prédios, o líder dos sem-teto deu o recado: “Os incomodados que se mudem. A gente veio para ficar. Podem se acostumar porque querendo ou não a gente vai ser vizinho de vocês”, disse Guilherme Boulos, coordenador do MTST.

A cozinheira aposentada Maria Regina Souza, 65, chora de nervoso ao falar sobre a convivência com os sem-teto. “Foi uma luta muito grande para construirmos essa vila para vir essas pessoas e nos tornar reféns dentro de nossas próprias casas.”

Para forçar o esvaziamento do acampamento, moradores dos condomínios têm organizado manifestações. “Estamos aterrorizados. Tiraram nosso sossego”, diz Solange, que mora na Vila Comunitária há mais de 30 anos.

Por outro lado, há vizinhos que apoiam o movimento e até se beneficiaram com a novidade. A doceira Rosa da Silva, 61, escalou o filho e a nora para ajudá-la a vender refrigerantes, café, doces e sanduíches na porta de casa. A bancada fica em local estratégico, a poucos metros da escada que dá acesso à ocupação. “Todo mundo precisa de ajuda, não custa ser solidário.”

Rosa conta que cobra R$ 5 pelo banho e R$ 2,50 para carregar o celular, mas abre algumas exceções. “Não cobro de quem quer dar um banho nas crianças nem de grávidas que pedem para usar o banheiro.”

Na casa em frente, a pensionista Dulcineia de Souza, 58, faturava com a venda de cachorro-quente. “Até perdi a conta de quantos já vendi. Tem três desempregados aqui em casa, precisamos aproveitar para ganhar um dinheiro extra.”

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