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Luiz Marinho: ‘cogitava não ser candidato em 2022, mas Lula puxou minha orelha’

Luiz Marinho: ‘cogitava não ser candidato em 2022, mas Lula puxou minha orelha’
Marinho: “João Doria está muito desgastado (em São Paulo) e, por essa lógica, é melhor ser derrotado disputando a presidência da República do que o governo do Estado”. Foto: Cleide Carvalho/Especial para o DR

Responsável pela montagem das chapas de candidatos a deputado estadual e federal e de preparar a pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo do Estado, o presidente do PT paulista, Luiz Marinho, não pretendia disputar as eleições do próximo ano. Porém, um “puxão de orelha” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o fez mudar de posição. “Esse é o desafio que o partido, que os sindicalistas me colocaram”, disse o ex-prefeito de São Bernardo. Em visita ao Diário Regional, Marinho criticou os trabalhos da CPI da Pandemia, que considerou “frouxos”, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AP), por não pautar o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. Também disse não estar preocupado com a CPI da OAS na Câmara de São Bernardo. “É uma CPI-circo.” Leia os principais trechos da entrevista:

 

Com estão as articulações visando as eleições de 2022?

Sob a liderança do (ex-prefeito da Capital) Fernando Haddad, a Fundação Perseu Abramo preparou no ano passado um plano de reconstrução para o país, plano este que mostra que é possível pensar o Brasil de forma diferente. Neste ano estamos fazendo um tour virtual pelo Estado de São Paulo, com o objetivo de dialogar com as macrorregiões e construir a versão estadual desse plano, que vai servir de base para nosso futuro programa de governo.

Paralelamente, as decisões do Supremo (Tribunal Federal) de retirar as ações contra o ex-presidente Lula de Curitiba e levá-las para Brasília, e de declarar a suspeição do (ex-juiz da Lava Jato Sergio) Moro nos dá liberdade de construir a pré-candidatura de Lula à Presidência da República. Isso abre também uma janela de oportunidade no Estado, pois libera o Haddad, com seu recall de candidato a presidente, para disputar o governo paulista.

O PSDB governa o Estado de São Paulo desde antes mesmo de o partido existir, haja vista que Franco Montoro foi eleito (governador) em 1982 e fundou a sigla anos depois (em 1988). Ou seja, é a mesma lógica de pensamento por quase 40 anos. Perderam a criatividade, acomodaram-se na continuidade de longo prazo. Por isso, é muito importante provocar um debate sobre a alternância do poder no Estado, para que a economia paulista possa retomar seu vigor.

Como presidente estadual do PT, tenho a dupla missão de organizar boas chapas de candidatos a deputado estadual e fede­ral, e de preparar a pré-candidatura do Haddad. Queremos que, em outubro de 2022, Haddad tenha profundo conhecimento da realidade de cada região do Estado, de forma a representar bem o PT nos debates. Em 2002 disputamos o segundo turno (com José Genoino e Ma­rinho como postulante a vice) com o Geraldo Alckmin, mas não estávamos totalmente preparados. Por isso, queremos dar ao Haddad a condição de chegar bem à eleição.

Ainda há possibilidade de aliança entre os partidos de esquerda no Estado, tendo em vista a disposição de Haddad e de Guilherme Boulos (PSOL) de saírem candidatos?

Eu não vejo problema em que o PT pleiteie a candidatura do Haddad, que o PSOL discuta a candidatura do Boulos e que o PSB pleiteie a candidatura do (ex-governador) Márcio França e que, no decorrer da pré-campanha, os partidos trabalhem por um ponto de encontro, seja no primeiro ou no segundo turno. Porém, o momento dessa discussão não é agora, é no início do ano que vem. É preciso deixar as pré-candidaturas andarem um pouco, fazer a checagem (de viabilidade) e buscar unidade. Se não for possível, seguramente estaremos juntos no segundo turno.

Com qual cenário o PT trabalha: João Doria ou Rodrigo Garcia como candidato tucano ao Palácio dos Bandeirantes?

Com Rodrigo Garcia, até porque Doria está muito desgastado (em São Paulo) e, por essa lógica, é melhor ser derrotado disputando a presidência do que o governo do Estado. Porém, não vamos subestimar nenhum candidato. Gar­cia aparentemente deve ser o candidato do PSDB, e Alckmin deve deixar o PSDB para ser candidato por outro partido. Além disso, é possível haver um nome patrocinado pelo Bolsonaro, outro oriundo de racha no grupo bolsonarista e as candidaturas de esquerda. Se for confirmado esse cenário, teremos o campo da esquerda e três ou quatro candidatos dividindo o eleitorado de direita. Por isso, independentemente de aliança ou não na esquerda, acredito que o PT pode chegar ao segundo turno.

O Sr. será mesmo candidato a deputado federal?

Sim, esse é o desafio que o partido e que os sindicatos me colocaram. Eu queria postergar essa decisão e até trabalhava com a lógica de não ser candidato e só coordenar o processo, mas Lula puxou minha orelha e vamos enfrentar esse desafio.

Como ficarão as candidaturas petistas a deputado fe­deral e estadual no ABC?

É um quadro que ainda está se conformando. Os atu­ais (o federal Vicentinho e os estaduais Luiz Fernando e Teonilio Barba) serão candidatos à reeleição. Em Diadema, os vereadores Orlando Vitoriano e Josa Queiroz serão candidatos (a federal e estadual, respectivamente), além do (empresário) Renato do GEB (para estadual). Em São Bernardo, a priori, tem minha candidatura a federal. Em Santo André, a ex-vereadora Beth Siraque sairá, em princípio, a estadual, assim como o líder sindical (Almir Rogério) Mizito. Em Mauá, tem o (ex-vereador) Rômulo (Fernan­des) para estadual. Por enquanto são esses, mas é um processo que está em construção.

Como o Sr. avaliou o caso do vereador petista Joilson Santos, que votou com a bancada governista a favor da extinção do Instituto Municipal de Previdência de São Bernardo (Imasf)? É passível de punição?

Essa avaliação deve ser feita pelo PT local. Eu, como integrante da executiva estadual, sou ins­tância de recurso e, por isso, só posso opinar quando chegar (à estadual). Não sei o que levou o companheiro a votar com o prefeito (Orlando Morando, PSDB), mas me pareceu um equívoco. Talvez tenha faltado diálogo. Quanto à punição, depende da instância municipal. Porém, é preciso ter clareza de que o PT tem disciplina partidária. Por isso, é preciso que o político que represente o PT esteja em sintonia com a filosofia partidária.

Mais do que isso: com exceção do (vereador da Capital) Eduardo Suplicy (PT), não co­nheço outro mandatário que possa dizer “o mandato é meu”, porque, para isso acontecer, é preciso ter recebido mais votos que o quociente eleitoral, e nenhum parlamentar nosso pode dizer isso, porque dependeu de votos do primeiro suplente, do segundo, do último para se eleger. Por isso, deve respeito ao partido. Vale para o Joilson e para todos.

Que avaliação o Sr. faz dos trabalhos da CPI da Pandemia?

Para falar a verdade, não tenho acompanhado a CPI com muita proximidade. Acho muito frouxos (os trabalhos). Mesmo assim, os crimes estão aparecendo, e está mais do que comprovada a responsabilidade (do go­verno) nas mortes de mais de 500 mil pessoas. A recusa pelo negacionismo – ou “negocionismo” – da compra de vacinas no tempo correto está muito clara. O Brasil, pelo seu tamanho, poderia ter sido um dos primeiros países a vacinar, porque serviria de vitrine para os laboratórios, mas não foi porque o presidente não quis e fez chacota das vacinas.

Vários partidos e entidades da sociedade civil apresentaram no final de junho o que foi batizado de “super pedido de impeachment”, mas há quem diga que o PT não tem tanto interesse nesse processo, porque o impedimento de Bolsonaro abriria espaço para um candidato de centro com menor rejeição.

Objetivamente, o problema é que tem um cidadão sentado na cadeira de presidente da Câmara (Arthur Lira, do Progressistas-AL) que não quer pautar os 123 pedidos de impeachment e que esta lá protegendo Bolsonaro. É essa a razão das manifestações de rua: pressionar os deputados a pautar um dos pedidos, até porque Bolsonaro é um risco real à demo­cracia. Como a população pode contribuir? Pressionando agora nas ruas ou mudando na eleição, votando em deputados mais à esquerda. Não está sob nosso poder pautar o impeachment.

O Sr. concorda com a ava­liação de que, para o PT, é me­lhor a polarização e enfren­tar o Bolsonaro?

É indiferente quem vamos enfrentar. Nós representamos o sonho de ter Lula novamente liderando o país, mas o eleitor é soberano. Se achar que é me­lhor ter uma terceira via… Provamos que é perfeitamente possível acabar com a fome, porque fizemos. É possível gerar empregos com carteira de qualidade, porque geramos. Dá para recuperar o poder de compra do salário mínimo, porque recuperamos. É possível desde que o Estado seja o indutor desse processo, e não o Estado mínimo que os neoliberais defendem. Sob Bolsonaro, o país está abrindo mão da manufatura, da ciência… Quem pode ser o indutor desse processo de recons­trução? O Estado, mas só um governo como o do Lula pode fazer isso.

Lula tem dialogado com lideranças partidárias de centro, a fim de estabelecer alianças com vistas a 2022. Até onde essas conversas podem ir, uma vez que parte desses partidos apoiou o impea­ch­ment de Dilma Rousseff?

Não podemos olhar para o retrovisor. As alianças nunca são problema quando quem se alia conhece o que defendemos. Quem se aliar tem de saber que vamos retomar o apoio à agricultura familiar, que vamos retomar a valorização da mulher e do povo negro, que vamos retomar o Minha Casa, Minha Vida, que nossa prioridade é o povo pobre, que as grandes fortunas terão imposto sobre herança. Se algum partido votou (pelo impeachment), mas entende que precisamos rever o cami­nho e topa ser liderado por nós, será bem-vindo.

Havia grande expectativa em relação a sua candidatura à Prefeitura de São Bernardo, mas Morando ganhou com sobra no primeiro turno. O Sr. concorda com a avalia­ção de que sua votação fi­cou aquém do esperado?

Essa eleição teve alguns fenômenos importantes. Pesquisas realizadas antes da pandemia davam conta de que eu poderia vencer a eleição, mas a crise sanitária inverteu isso. Quando o Orlando chorou na UTI (durante internação por covid-19), eu falei: “me lasquei”. Além disso, o isolamento social não permitiu a realização de campanha. Por fim, não sei de onde (os governistas) tiraram tanto dinhei­ro para fazer boca de urna, sob a complacência das au­toridades. Foi o que aconteceu.

Qual é sua avaliação sobre os trabalhos da CPI da OAS na Câmara de São Bernardo?

A bancada (do PT) acompanha, mas não estou muito preo­cupado com isso, não. Falar que o método não-destrutivo (usado no projeto Drenar, do piscinão do Paço) custou o dobro… Todo mundo sabe que é mais caro. Por que não mandei abrir uma vala na rua Jurubatuba? Porque fecharia todas as lojas, pararia uma veia de transporte. Por que (o piscinão) está no Paço e não no shopping (Metrópole)? Porque no Paço eu não causaria transtorno para os lojistas. Enfim, é muita baboseira.

Cadê o laudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas, contratado em 2017), pelo qual o Orlando pagou R$ 4 milhões, de uma obra auditada pela Caixa, pelos Tribunais de Contas do Es­tado e da União? O laudo não apontou absolutamente nada. É uma CPI-circo. Aí vai o Léo Pi­nheiro (ex-presidente da OAS, que afirmou na CPI que a empresa pagou R$ 20 milhões em propi­nas a políticos da cidade) men­tir como mentiu. Chama uma acarea­ção entre nós para ver se o Pi­nheiro sustenta o que disse.

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