Política-ABC, São Bernardo do Campo

Luiz Fernando: ‘Marinho fez governo irretocável, mas não se comunicou’

Luiz Fernando: ‘Marinho fez governo irretocável, mas não se comunicou’
Luiz Fernando: “Enquanto o PSDB governar São Paulo, o metrô não virá para o ABC”. Foto: Divulgação

O deputado estadual Luiz Fernando Teixeira (PT) atribuiu à “falta de comunicação”, à pandemia de covid-19 e à “gritante” diferença de recursos entre as campanhas a derrota de Luiz Marinho (PT) para Orlando Morando (PSDB) nas eleições para a prefeitura de São Bernardo no ano passado. “Marinho fez um governo irretocável (…) mas não se comunicou, inclusive em 2016, quando não elegeu o sucessor. Morando, por sua vez, não enfrentou oposição e, é preciso reconhecer, fez comunicação de tirar o chapéu. Nadou sem resistência”, disse o petista, que está em seu segundo mandato na Assembleia Legislativa. Em entrevista ao Diário Regional, Luiz Fernando criticou a atuação do governo do Estado na gestão da pandemia, defendeu a cassação do mandato do deputado Fernando Cury (Cidadania), que assediou a colega Isa Penna (PSOL), e esquivou-se quando questionado sobre se pretende ser candidato ao Paço de São Bernardo em 2024. “Meu candidato em 2024 é Luiz Marinho.”

 

Inicialmente, gostaria que o Sr. fizesse um balanço dos dois primeiros anos deste mandato.

Este mandato tem sido esquisito, porque a eleição de 2018 trouxe para a Assembleia Legis­lativa um pessoal da extrema direita, liderado por Janaína Pas­choal (PSL), Douglas Garcia (PTB) e outros, com um discurso muito à direita, de que “bandido bom é bandido morto” e coisas assim. Paralelamente, o governador João Doria (PSDB) assumiu com a proposta de desmonte do Estado. O primeiro projeto, por exemplo, visava à extinção de vários órgãos, como a Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano), um órgão técnico de assessoramento que gerava lucro.

Vieram na sequência uma série de projetos de retirada de direitos, como o da reforma da Previdência – um processo violento, com policiais usando gás de pimenta e balas de borracha contra professores. No ano passado veio o (projeto de lei) 529, que trazia a extinção de dez empresas, o aumento na contribuição para o Iamspe (Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual), a alta do ICMS e a limitação à isenção do IPVA para pessoas com deficiência. O projeto era tão diabólico que conseguiu unir deputados do PSOL e do PSL contra ele. Porém, foi um rolo compressor muito grande e a proposta acabou aprovada, graças à atuação da Janaína e com votos de deputados com base eleitoral no ABC, exceto o meu e o do (Teonílio) Barba (PT).

Um projeto de ajuste fiscal não era esperado, tendo em vista a deterioração das finanças estaduais devido à pandemia, a defesa pelo PSDB do enxu­gamento da máquina pública e ao histórico de subserviência da Alesp ao Executivo?

Sim, mas o ajuste do Doria foi muito mais profundo e ousado, porque extinguiu políticas públicas. É o caso, por exemplo, da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), que tinha problemas, é verdade, mas ajudava a reduzir o déficit habitacional do Estado. Também propôs a extinção do Itesp (Instituto de Terras de São Paulo, que acabou retirado do texto), responsável pela política agrária. Enfim, foi uma guerra política.

Como a pandemia de co­vid­-19 direcionou sua atuação?

Nós, deputados do PT e da esquerda, nos reunimos e apresentamos ao governador um pacote de projetos com o objetivo de minimizar o impacto da crise. Eu, por exemplo, apresentei cerca de 30 propostas, como a que proibia as concessionárias de energia e saneamento de cortar o fornecimento em caso de atraso no pagamento. Outro, que virou realidade, propôs a redução em 50% dos salários e das verbas de gabinete dos deputados. A mesa diretora apresentou um substitutivo – com redução de 30% dos salários e 40% das verbas de gabinete – que foi aprovado, e o di­nheiro economizado (R$ 350 mi­lhões) foi usado exclusivamente no enfrentamento da pandemia. Além disso, focamos na fiscalização, porque começaram a surgir denúncias de superfaturamento em compras sem licitação.

Como o Sr. avalia a atuação do governo do Estado na pandemia?

Foi uma atuação errática. Fe­chou o comércio no momento em que era questionável fechá-lo e reabriu quando deveria manter fechado. Além disso, não prestou assistência à população. Eu, por exemplo, sugeri a suspensão da cobrança de pedágio (em rodovias sob concessão estadual), que poderia ser compensada com extensão no contrato. Também demorou para tomar determinadas decisões, como a obrigatoriedade do uso de máscara, ou se omitiu em outras, ao permitir a realização do Carnaval em 2020 no momento em que a pandemia já era realidade no mundo. Tam­bém aproveitou a pandemia, quando não é possível a mobiliza­ção, para aprovar o PL 529.

O governador engavetou a Linha 18 do metrô, que chegou a ser licitada, mas carecia de recursos para desapropriações e não começou a ser construída. O projeto foi substituída pelo BRT, mas nada saiu do papel. O Sr. ainda tem esperança de que um modal de alta capacidade chegue ao ABC?

O problema é que o PSDB não tem compromisso com a região. Tenho dito que, enquanto o PSDB governar São Paulo, o metrô não virá para o ABC. Recentemente, Doria assinou contrato para elaboração de estudo preliminar da Linha 20 (que ligará a Lapa, na Capital, a Rudge Ramos, em São Bernardo), mas o prazo de conclusão é de três anos. Ou seja, em 2022, vão usar o metrô como promessa eleitoral mais uma vez, como fizeram em 2018, 2014. A Baixada Santista, por exemplo, já tem uma linha de monotrilho ligando Santos a São Vicente. Por que o ABC não tem?

Com tantas críticas ao PSDB e a Doria, não lhe parece incoerência o PT apoiar um candidato tucano, Carlos Pignata­ri, na eleição para presidência da Assembleia Legislativa?

São duas situações completamente diferentes. Uma coisa é o alinhamento ideológico; outra é a gestão do Legislativo. A Constituição estabelece que a composição da mesa diretora deve respeitar a proporcionalidade dos partidos na Casa, e o PT tem a segunda maior bancada da Alesp. Portanto, tem o direito de estar na mesa diretora, assim como tem o direito de ter duas cadeiras nas comissões permanentes. Não temos acordo com o PSDB, só estamos exercendo um direito. Aliás, estar na mesa diretora ajuda a impedir que a Assembleia Legislativo seja um verdadeiro puxadinho do Executivo.

Como o Sr. avalia a resposta da Assembleia Legislativa ao episódio de assédio sexual do deputado Fernando Cury (Cidadania) contra a deputada Isa Penna (PSOL)? Nesta semana, a Justiça autorizou a abertura de investigação contra o parlamentar.

A luta pela emancipação e pelos direitos das mulheres é uma luta antiga do PT desde sua fundação. Hoje, a direção do partido é composta respeitando-se a paridade, ou seja 50% a 50%. Defendo que o Legislativo deveria ter paridade, porque a visão (de homens e mulheres) para os problemas é completamente di­ferente. A mulher tem mais sensibilidade. O Fernando abusou. Ninguém tem o direito de tocar uma mulher se ela não quiser ser tocada. A posição do PT é pela cassação do mandato. Porém, a Casa se protege, e temo o que possa ocorrer no Conselho de Ética.

Outros deputados já feriram o decoro, como o Douglas Garcia, que disse no plenário que tiraria a tapa uma transexual que entrasse no banheiro no qual estivesse sua mãe. O que é isso, senão homofobia? Mesmo assim, o conselho arquivou o processo. É preocupante porque vi­vemos em um país machista e misógino. A comissão está em recesso e será retomada em feve­reiro, mas acredito que o trâmite será rápido, para qualquer lado.

As eleições de novembro reduziram o número de prefeituras administradas pelo PT no país. Como o Sr. analisa o resultado das urnas?

O PT tem sido vítima, desde o nascimento, de fortes ataques da elite empresarial do país, que nunca aceitou um partido de trabalhadores no poder. Ocorreu o mesmo na Polônia, com o Lech Walesa (fundador do sindicato Solidariedade e eleito presidente em 1990). Obviamente, o povo em grande dificuldade vê na TV o PT sendo acusado de corrupção o dia inteiro e passa a rejeitar o partido, que foi alvo de uma campanha sórdida que pegou. Se lembrarmos que, em 2010, o partido administrava 74 prefeituras no Estado e, agora, tem quatro, a avaliação não pode ser outra senão a de que o desempenho foi pífio. O que precisamos fazer? Sentar e avaliar. Tem gente no partido que errou? Com certeza, mas não somos uma quadrilha como dizem.

O desempenho de Luiz Marinho (PT) na disputa pela Prefeitura de São Bernardo foi decepcionante, já que Orlando Morando (PSDB) foi eleito com 67% dos votos no 1º turno?

Marinho fez um governo irretocável (entre 2009 e 2016), fez o enfrentamento em todas as áreas. Na Saúde, por exemplo, reconstruiu 32 UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e construiu duas, entregou nove UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), inaugurou o Hospital de Clínicas e começou o Hospital de Urgência. Deixou muita coisa encaminhada, mas não se comunicou, inclusive em 2016, quando não elegeu o sucessor (Tarcísio Secoli terminou o primeiro turno no terceiro lugar). Depois, assumiu a direção estadual do PT e saiu candidato a governador. Por isso, afastou-se um pouco das questões da cidade. Morando, por sua vez, não enfrentou oposição e, é preciso reconhecer, fez comunicação de tirar o chapéu. Nadou sem resistência. Antes da pandemia, as pesquisas apontavam grande desgaste dos prefeitos. Porém, durante a crise, os prefeitos passaram a se comunicar (pelas redes sociais), e o resultado em São Bernardo foi o que a gente viu. Além disso, a diferença de recursos entre nossa campanha e a do Morando era gritante.

Em 2016, o Sr. teve seu nome cogitado para ser candidato a prefeito, mas o esco­lhido foi Secoli. No ano passado, era natural que o Marinho tentasse o retorno ao Paço. Em 2024 será a sua vez?

Em 2016, meu nome foi ventilado pela imprensa e por amigos, mas nunca entrou na pauta, porque nunca me coloquei à disposição. Cheguei a ser sondado para integrar o governo Mari­nho, mas não quis ir, porque tinha meus negócios, sou empresário. Nunca me coloquei para deputado e só fui candidato por insistência do Marinho. Em determinado momento, meu nome começou a ser ventilado, e essa situação se tornou interessante, porque a oposição ficou sem saber em quem bater. Eu apanhei mais, mas o candidato sempre foi o Tarcísio. Em 2020, era natural que o Marinho saísse candidato. Em 2022, serei candidato à reeleição, e 2024 não passa pela minha cabeça. Só serei candidato (a prefeito) se for convocado, mas não é meu foco. Para mim, o candidato em 2024 é Luiz Marinho.

Como o Sr. avalia a decisão da Ford de encerrar a produção no Brasil?

A Ford começou a ir embora em 2019 (quando fechou a fábrica de São Bernardo). Infelizmente, a presidência está nas mãos de alguém (Jair Bolsonaro) inconsequente, que demitiu dois ministros da Saúde porque não queriam administrar cloroquina. Não há política industrial. Que empresário que tem juízo vai investir em um país à deriva? Quando a Ford fechou aqui, o presidente não moveu uma palha para segurá-la. Para piorar, tanto Doria como o prefeito agiram como corretores de imóveis, preocupando-se não em segurar a fábrica, mas em vender o terreno.

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