Arte & Lazer, Música

João Carlos Martins faz live para celebrar 80 anos

João Carlos Martins faz live para celebrar 80 anos
Martins: “Aos 27 anos, eu pensei em me suicidar. Hoje, amo a vida”. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

O que João Carlos Martins tem feito durante o período de isolamento social provocado pela pandemia do coronavírus? Pela tela do computador, o pianista e maestro esboça sorriso e mostra as mãos envoltas em duas luvas que, desde junho do ano passado, são como sua segunda pele. “Nunca mais vou ser o pianista de antigamente, mas o prazer de poder sentar ao piano e estudar seis, sete horas por dia, o que não conseguia fazer havia 22 anos, mudou minha vida mais uma vez. Aos 27 anos, eu pensei em me suicidar. Hoje, amo a vida.”

Nesta quinta-feira (25), a história de Martins completa 80 anos, celebrados por uma live em que vai atuar com músicos da Bachiana Filarmônica Sesi-SP e artistas convidados. É uma história sobre tragédia e superação. Virtuose no início da carreira, sofreu sequência de acidentes que reduziu progressivamente o movimento das mãos. Ao todo, fez 24 operações até que abandonasse o piano e o trocasse pela regência. O abandono nunca foi completo, mesmo que pudesse usar poucos dedos, esboçando sempre o possível retorno ao instrumento. Retornos curtos, seguidos de novas despedidas, sempre capazes de atrair grande atenção midiática.

Porém, em junho do ano passado, Martins foi procurado por um rapaz chamado Ubiratan Bizarro após concerto em Sumaré. O designer industrial havia desenvolvido o protótipo de uma luva que ajudaria o pianista a tocar mais uma vez. “Senti o carinho de alguém que tinha se dado àquele trabalho, mas imaginei que não serviria para nada. Expliquei a ele que meus dedos simplesmente não voltavam ao lugar quando os movimentava, mas ele insistiu. Seguimos nos encontrando e ele, inspirado na tecnologia da Fórmula 1, desenvolveu molas que faziam os dedos voltarem.”

Martins não gosta do termo superação. Prefere falar em teimosia. “Nos primeiros cinco minutos de cada dia, sou um velhinho que pensa: se eu morrer daqui a meia hora, tudo bem, mas em seguida reaparece a criança feliz por fazer música”, revela. Foi uma percepção que surgiu com o tempo. Nos anos 1980, quando se afastou da arte de maneira definitiva, trabalhou como empresário e aproximou-se do mundo político, associado a Paulo Maluf. A associação lhe rendeu problemas na Justiça e o olhar torto do meio musical, que em parte ainda o vê com desconfiança, agora por suas escolhas artísticas.

Martins sabe disso, mas tem clareza a respeito de sua trajetória. “Consigo identificar algumas fases. A primeira é a do pianista”, começa. Um pianista, diz, atrevido, capaz de corrigir Alberto Ginastera ao tocar uma de suas peças ou de buscar, ao interpretar a obra de Bach, um olhar acima de tudo pessoal. “Quando me aproximava da sua música, eu tinha de saber quem eu era perto de alguém como ele para poder ter coragem de me sentar ao seu lado.”

Aos 64 anos, surgiu o maestro. “Fui estudar, começar outra vez. Isso exigiu coragem e humildade. Quando estou à frente de uma orquestra e cometo um erro, eu assumo. Fui gravar com a English Chamber Orchestra e, no primeiro dia, me equivoquei logo no início. Precisei ir ao camarim, olhar no espelho, e dizer: ‘você dedicou sua vida a Bach, vai lá e mostra a que você veio’. Foi o que eu fiz.”

A polêmica vem naquela que Martins define como terceira fase, na qual o objetivo é, em suas palavras, trabalhar em favor da democratização da música clássica. Com sua Bachiana, já se apresentou com a bateria da Vai-Vai, com Chitãozinho e Xororó e outros artistas da música popular. Nada de novo aqui. A discussão é se esse repertório atrai de fato novo público para a música clássica ou se apenas para um repertório popular reimaginado pela linguagem sinfônica.

“Se você olhar o Bach que fiz com a bateria da Vai-Vai, as notas musicais são as mesmas”, diz Martins. “De qualquer forma, nossos concertos têm obras de Bach, Beethoven, Mozart, Brahms. Quando acabam, não tenho problema em interagir com o público com Trem das Onze, por exemplo. A criação de um novo público: é esse o meu perfil. Manter a tradição e inovar. Certa vez, programamos um concerto em Itaquera e, por um erro de divulgação, apareceram apenas 17 pessoas. Disse para os músicos: ‘esse é o concerto mais importante da nossa vida’. Aquelas 17 pessoas voltaram para casa movidas pela experiência, e o interesse fez com que nós logo retornássemos para tocar para milhares de pessoas.”

Martins traz os números na ponta da língua. Seus concertos já foram vistos por 17 milhões de pessoas, com a Bachiana tendo visitado 200 cidades em São Paulo e 400 em todo o Brasil. O projeto Orquestrando o Brasil, em que a equipe da orquestra orienta projetos já existentes, teve 516 grupos parceiros. “O trabalho com os jovens tem quatro objetivos. O primeiro é colocar a música na vida das pessoas. O segundo é oferecer a música como hobby. O terceiro é capacitar músicos para orquestras e o quarto, descobrir diamantes a serem lapidados”, explica.

É o caso, diz, do tenor Jean William ou do pianista Davi Campolongo, que o acompanham na live, realizada nos canais do Instagram e do YouTube do maestro a partir das 20h.

“Minha fase atual é a mais difícil. A música clássica mudou muito no Brasil com o projeto da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e revelações como o Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) e Instituto Baccarelli, em Heliópolis, que trabalham a transformação por meio da música. Quero mais espaço para a música erudita, vou pisar no barro e na lama para conquistar isso. Antes do apagar das luzes, quero fazer o que Villa-Lobos um dia disse pretender: fechar o Brasil com um enorme coração. Meu pai lutou pela educação dos filhos e prometi a ele que, um dia, quando nos reencontrássemos, poderia lhe dizer: deixei um legado.”

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