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História real de calculistas da Nasa é tema de filme indicado a três Oscar

Foto: Divulgação

“Estou morrendo de sono. Preciso de um suco, por favor”, diz o músico Pharrell Williams, esparramado num sofá do hotel onde acontece um evento de promoção de “Estrelas Além do Tempo”.

Uma assistente o atende e informa que a entrevista seguinte é para um especial sobre o Oscar. Ele se levanta como se a menção ao prêmio tivesse efeito anabolizante. Essa é a atitude geral em torno do filme que produziu e que chega agora ao Brasil.

O drama de época construiu sua campanha de forma sonolenta, não foi favorito em grandes prêmios e contava apenas com o apoio passional do músico e do elenco principal, formado por Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Kevin Costner e (a também cantora) Janelle Monáe.
Mas colheu três indicações ao Oscar: melhor atriz coadjuvante para Spencer, melhor roteiro adaptado e a surpreendente entrada na lista dos concorrentes a melhor filme.

A campanha lenta, porém eficaz, parece seguir o exemplo das personagens reais do filme de Theodore Melfi, que conta a história de três mulheres negras que enfrentaram o preconceito do sul dos EUA, no início dos anos 1960, fazendo cálculos para a Nasa durante a corrida espacial contra a União Soviética.

Monáe interpreta Mary Jackson, que luta para ser a primeira mulher engenheira da Nasa; Spencer faz Dorothy Vaughan, que viria a ser a primeira supervisora da agência; e Henson vive a mais notória delas, Katherine Johnson, matemática que se “infiltrou” no time de homens responsáveis pelas primeiras missões tripuladas ao espaço do governo americano.

“Eu não conhecia bem a história delas”, diz Pharrell à reportagem. “Mas o mais louco é que minha mãe disse que eu conheci Katharine Johnson quando visitei uma base da Nasa na infância. A história toda foi na minha cidade.”

O músico, que disputa um Oscar pela segunda vez (a primeira foi por “Happy”, em 2014), diz que se envolveu no projeto por três razões.

“Estamos falando de três afro-americanas protagonistas, algo raro no cinema. A história ressalta as dificuldades das mulheres afro-americanas nos anos 1960. Por fim, estamos falando de cientistas da Nasa”, lista o músico, fã de ficção científica.

Curiosamente, foi “Estrelas Além do Tempo” que desbancou “Rogue One – Uma História Star Wars” do topo das bilheterias americanas. Em menos de 20 dias, o longa, orçado em US$ 25 milhões, passou a marca dos US$ 100 milhões, mostrando que há espaço para dramas estrelados por atrizes negras.

“Este é um momento importante”, acredita Monáe, que está também em “Moonlight”. “A história dessas mulheres não foi contada até hoje. São heroínas que deveriam estar em livros de história. Mas não é o caso”.

Não é exagero. Katherine Johnson, 98, obteve diversos reconhecimentos pelos seus trabalhos científicos e por seu papel na Nasa até 1979, quando se aposentou.

O astronauta John Glenn só aceitou participar da primeira missão orbital de um americano quando ela confirmou seus cálculos, e o presidente Barack Obama a agraciou com a Medalha da Liberdade Presidencial, maior honraria civil dos EUA.

“Ela é incrível”, diz o diretor Theodore Melfi, que assina com Allison Schroeder a adaptação do livro de Margot Lee Shetterly.

“Quando penso que isso não foi há tanto tempo, vejo que ainda precisamos conversar sobre coisas importantes, mas só teremos mais progresso neste país se todos estiverem dispostos a ouvir.”

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