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Fusão é alternativa encontrada por sindicatos para sobreviver à crise

Fusão é alternativa encontrada por sindicatos para sobreviver à crise
Ganz Lucio: estrangulamento do financiamento sindical ocorrido com a reforma trabalhista obriga os sindicatos a se repensar. Foto: Agência Sindical

O estrangulamento do mo­vi­mento sindical após a reforma trabalhista, que acabou com o imposto sindical compulsório, obrigou entidades de trabalhadores e até de empregadores a buscar alternativas de sobrevi­vência que vão além do corte de funcionários e da venda de imóveis. Uma estratégia que começa a ganhar adeptos – e, na visão de analistas, tende a se ampliar – é a fusão, mostra reportagem publicada ontem (25) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

No Brasil há 16,6 mil sindicatos (11,2 mil de trabalhadores e os demais de empregadores), além de centrais, confederações e federações. Essas entidades ficavam com 90% da arrecadação do imposto sindical – que, em 2017, foi de R$ 3,6 bilhões e, no ano passado, 80% menos.

Entre os sindicatos de tra­balhadores, a fusão é uma forma de fortalecer as negociações salariais, que estão mais difíceis diante do fechamento de fábricas – como a da Ford, anunciado na semana passada –, do alto nível de desemprego.

Juntar sedes, pessoal e pres­tação de serviços foi a alternativa que o Sindicato dos Empregados na Indústria Alimentícia de São Paulo, representante de 30 mil trabalhadores, encontrou para reduzir custos e manter atividades. A entidade vai se unir aos sindicatos de trabalhadores da área de alimentação de Santos, de laticínios e de fumo no Estado. Juntos terão base de quase 50 mil funcionários.

Os trâmites estão na última fase, que é realizar assembleia com trabalhadores das quatro áreas para dar aval à medida, afirma Carlos Vicente de Oliveira, presidente do Sindicato da Alimentação. O dirigente disse que ainda não há cálculo da economia que será gerada com a união dos quatro sindicatos, “mas será bastante”.

Do lado empresarial, está em andamento a fusão entre sete sindicatos da indústria gráfica do Rio de Janeiro. Os dois maiores – o do município e o do Estado, representantes de 1,2 mil empresas – se uniram em dezembro. Agora pretendem agregar as entidades de Petrópolis, Friburgo, Itaperuna, Campos e Sul Fluminense, onde estão outras 200 gráficas. Cerca de 90% são micro ou pequenas, disse Carlos Di Giorgio, presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas do Município do Rio de Janeiro.

“Não adianta ter grande número de sindicatos e não conseguir prestar serviços aos associados”, disse Giorgi. Para o dirigente, no futuro deverá haver apenas uma representação nacional da indústria, ideia também defendida para a representação dos trabalhadores do setor. O Sindicato das Gráficas perdeu 40% de sua receita no ano passado.

A Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas de São Paulo está assessorando a união de sindicatos de pequenas cidades. “Os recursos podem ser maximizados”, afirmou Sérgio Luiz Leite, presidente da entidade.

CONTRADIÇÃO

Clemente Ganz Lucio, diretor do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), con­corda que o fim da contribuição sindical obrigatória vai acelerar o movimento de fusões no Brasil. “O estrangulamento do financiamento sindical ocorrido com a reforma trabalhista obriga os sindicatos a se repensar.”

Segundo Lucio, a nova lei trabalhista reforçou as negociações, que devem prevalecer sobre a legislação, mas ao mesmo tempo retirou a fonte de financiamento dos sindicatos que conduzem as negociações. “Essa é a contradição.” Com as fusões que começam a ocorrer, ele acredita que os sindicatos ficarão mais fortes e devem voltar a ter protagonismo, especialmente em um cenário de precarização das relações de trabalho.

Na legislação anterior, centrais, confederações e federações tinham uma fatia garantida do imposto sindical. Hoje, a receita dos sindicatos vem das mensalidades dos associados e das taxas de negociação e são eles que decidem como os recursos serão distribuídos. “A base da estrutura sindical vai ficar mais poderosa”, disse Hélio Zylberstjan, da  Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).

 

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