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Famílias apontam descaso e demora na liberação de corpos em Manaus

Sob sol forte, familiares dos 60 presos mortos aguardaram horas por informações. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress

Sob um sol forte e calor de 30 graus, em pé, sem água e comida, dezenas de familiares dos 60 presos chacinados em duas penitenciárias de Manaus aguardaram por horas ontem (3) em frente ao Instituto Médico Legal (IML) da capital do Amazonas. As famílias buscavam informações e a liberação de corpos já identificados.

O governo proibiu o acesso das famílias ao prédio do IML e decidiu soltar as informações em conta-gotas, o que exasperou os parentes dos presos. “O que está acontecendo aqui é que não temos respaldo de nada. Não tenho notícia do meu filho desde domingo. Fui ao presídio e lá disseram ‘ah, não consta da lista nem de vivo nem de fugitivo’. Aí a gente vem para cá (IML), a moça veio com uma lista de nomes. Pergunto à moça se era do pessoal que morreu. Ninguém sabe, não tem como saber se é de vivos ou de mortos”, disse Regina, que buscava informações sobre seu filho, Igor André Silva de Melo, 24.

Os parentes de Rômulo Arley da Silva, 38, tinham poucas esperanças de que ele estivesse vivo, mas até as 12h, passados dois dias da rebelião, ainda não haviam recebido uma confirmação oficial da morte. Ex-policial civil condenado por homicídio, Rômulo estava na cela do “seguro”, local reservado pela direção do presídio aos presos ameaçados de morte. Sua mãe, Maria de Jesus Lima, disse que viu na internet as imagens das celas do “seguro” incendiadas e destruídas. “Não tem como ele ter escapado”, disse Maria.

Rômulo havia se convertido a uma igreja evangélica e dizia estar se preparando para uma vida nova quando saísse do presídio após cumprir uma pena de 14 anos.“Meu filho estava estudando, passou no Enem e queria passar no vestibular de engenharia”, disse Maria. Ele tem uma criança de um mês de idade.

Ocasionalmente ao longo da manhã e do início da tarde, funcionários do IML vinham à grade do prédio para chamar pelo nome alguns parentes, que assim eram autorizados a entrar no IML. Os funcionários justificaram a demora na liberação pelo mau estado da maioria dos corpos, muitos sem cabeça, pernas e braços e alguns carbonizados, o que dificulta a identificação dos cadáveres.

Sob controle

O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, disse que o complexo está “sob controle”. ”A situação hoje no Compaj (durante visita) era normal, até porque o policiamento foi reforçado. Apesar do clima tenso na penitenciária, está sob controle.” Moraes declarou ainda que não se pode justificar as mortes apenas por uma guerra entre facções. “A questão de rebelião com essa ferocidade, barbaridade, decapitação, fogo, isso não ocorre por um único fator”, disse.

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