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Exposição em São Paulo revela paixão pelo ônibus

Exposição em São Paulo revela paixão pelo ônibus
Jardineira de 1956 da Viação ABC foi uma das estrelas da BBF. Foto: Anderson Amaral/Especial para o DR

As viagens que fez, ainda menino, entre São Paulo e Inha­pim (MG) ficarão para sempre na memória do colecionador Moises Reis da Silva. Quis o destino que o morador de Franco da Rocha trabalhasse em um centro de operações de distribuição de energia elétrica, mas sua vontade era outra. “Queria ser motorista de ônibus, mas não consegui. Sempre viajei nos carros da Itapemirim, que marca­ram minha infância”, revelou.

A oportunidade de realizar o sonho surgiu em 2017, quando Moises arrematou em um leilão um Tecnobus Tribus III 1993 que pertenceu à frota da empresa capixaba, sob o prefixo 20469. O carro estava descaracterizado. Desde então, o cole­cionador está restabelecendo as configurações originais do veículo. “Inicialmente restauramos a pintura externa e, agora, começamos a trabalhar no interior e na parte mecânica”, disse.

Moises não revela quanto custou o ônibus, nem quanto já desembolsou em sua restauração. “Tenho amigos que ajudam a pintá-lo”, esquivou-se. Paralelamente, o colecionador tirou carteira de habilitação categoria D e fez o curso de Transporte Coletivo de Passageiros, mas não pensa em ser motorista profissional no futuro. “Com o ônibus, consigo matar a vontade de dirigir na estrada e relembro minha infância. É o suficiente.”

O Tribus III 20469 era um dos 176 veículos expostos durante a 13ª BusBrasil Fest, evento realizado pelo Portal do Ônibus no último domingo (1º) na Praça Charles Miller, na Capital. Segundo a organização, cerca de 30 mil pessoas passaram pela exposição, considerada a maior do gênero na América Latina.

O evento tem como obje­tivo mostrar a evolução do transporte coletivo – desde as antigas jardineiras até os mais recentes ônibus rodoviários de dois andares – em termos tecnológicos, de design e conforto. Porém, é mais do que isso. Quem passou por lá experimentou verdadeira viagem no tempo de memórias, sensações.

“Para não entusiastas, são só ônibus. Porém, basta conversar com motoristas e proprietários para perceber que cada veículo exposto na BBF tem uma história, uma peculiaridade”, revelou Dorival Nunes, um dos fundadores do Portal do Ônibus e organizador da exposição.

Morador de Santo André, Nunes é professor da rede pública de ensino e fundou o portal, há 19 anos, pelo amor ao ônibus. “Nossa casa ficava perto do ponto final de uma linha da Viação Alpina. Eu era de família pobre e não tinha brinquedos. Por isso, gostava de desenhar ônibus em perspectiva para recortá-los e brincar com eles, arrastando-os pelo chão. Nunca dirigi um na cidade”, revelou o apaixonado por modelos urbanos.

Ninguém sabe ao certo a quantidade de “busólogos”, co­mo são chamados aqueles que se dedicam ao estudo do ônibus. As estimativas no Brasil partem de 13 mil, mas há projeções para todos os gostos. O grande número de adeptos se deve à predominância desse tipo de veículo no transporte público em um país que des­preza o modal ferroviário e onde o número de passageiros de avião só superou o de ônibus interestaduais em 2010.

A busologia surgiu no Brasil na década de 1980. Hélio Luiz de Oliveira, então projetista da encarroçadora Thamco e atual editor da revista InBus Transport, teria sido o primeiro a receber a denominação de busólogo. A atividade ganhou impulso na internet, que uniu adeptos em blogs, grupos no Facebook e canais no Youtube.

Um desses grupos é o Me­mória do Transporte Coletivo em São Paulo, que reúne quase 11 mil membros e tem como objetivo compartilhar a história do transporte público no Estado.

“Quando publicamos a ima­gem de um ônibus, os membros associam memórias, experiências e, dessa forma, resgatam uma parte da história dos bairros, das cidades”, explicou Alessandro Santos, um dos admi­nistradores da comunidade.

CELEBRIDADE

Alguns busólogos transformaram-se em verdadeiras cele­bridades. É o caso de Gustavo Monteiro, motorista da Itapemirim, que criou o canal Gustavo Interestadual para publicar vídeos de suas viagens e assuntos relacionados ao mundo do transporte rodoviário. Seu canal tem quase 100 mil inscritos. Gustavo esteve na BBF e foi bastante assediado por fãs que não perderam a oportunidade de tirar uma self com o profissional.

Apesar do sucesso de público, o Portal do Ônibus ainda enfrenta dificuldades para realizar a BBF. A edição deste ano, por exemplo, teve de ser adiada em uma semana devido à realização de Virada Esportiva, que ocupou o estádio do Pacaembu, adjacente à Praça Charles Miller. Em maio, a Comissão de Educação, Cultura e Esportes da Câmara de São Paulo aprovou projeto que visa incluir a exposição no calendário oficial da cidade, fixando-a no penúltimo domingo de novembro, mas o texto precisa ser aprovado pelo plenário da Casa.

Empresas do ABC marcam presençam na exposição

O ABC também marcou presença na 13ª BusBrasil Fest, realizada no último domingo (1º), na Capital. Entre os modelos que mais despertaram curiosidade durante o evento estava a jardineira Chevrolet Brasil 6500 da Auto Viação ABC. Pro­duzida em 1956, operou a linha intermunicipal entre Santo André e São Bernardo.

Depois de permanecer na frota durante três anos, o veículo foi vendido e parou em Monte Alegre do Sul, no Interior paulista. Era um gali­nheiro quando foi “resgatado” pelos Setti Braga, donos e fundadores da empresa. A jardineira foi restaurada e, desde então, integra a coleção de ônibus antigos do grupo.

Coube ao motorista João da Cruz Pinto do Nascimento conduzir o Chevrolet da sede da empresa à Praça Charles Miller. Nascimento tem mais de 40 anos de serviços prestados à Viação ABC, mas se emo­ciona sempre que é esca­lado para dirigi-la. “É uma sen­sação diferente, uma volta no tempo”, afirmou.

A Cati Rose, tradicional empresa de fretamento com sede em São Bernardo, compareceu à BBF com o clássico monobloco Mercedes Benz O321 1965, um dos mais antigos da exposição. Impecável, o modelo não teve um minuto de sossego durante o even­to – impossível não entrar pa­ra conhecer seu interior.

De tão conservado, o veículo virou estrela de cinema ao participar dos longas “Carrossel” (2015) e “Elis – Viver é Melhor que Sonhar” (2016). A pintura manteve o desenho original da empresa, mas a mecânica ganhou direção hidráulica e motor OM-352 turbinado, mais potente.

“Dirigi-lo é uma experiência divertida. No trânsito, as pessoas fotografam, pedem pa­ra encostar. Os mais antigos comentam que se deslocavam para o trabalho em um transporte parecido”, disse o moto­rista autônomo Luis Carlos de Barros, encarregado pela Cati Ro­se para levar o carro à BBF.

TRÓLEBUS

A SPTrans, gestora do transporte público da Capital, participou do evento com 12 ônibus. O destaque foi o trólebus ACF Brill 1947, que chegou ao país no ano seguinte importado pela hoje extinta Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC). A frota desses carros teve 75 unidades, que ro­­daram até os anos 1990.

Rodoviárias contribuem para êxodo rural, mas sucumbem aos aviões

A área dedicada aos ônibus rodoviários foi a que mais atraiu visitantes durante a 13ª BusBrasil Fest. A Itapemirim levou cinco veículos à exposição, dos quais três da frota da empresa e dois de parceiros. Os carros foram dispostos em ordem cronológica, desde o Marcopolo Paradiso G6 até o Tecnobus Tribus II. Fãs da Cometa também foram contemplados com vários exemplares das séries Dinossauro e Flecha Azul.

“Para os mais novos, a BBF é a oportunidade de conhecer a história do transporte. Para os mais velhos, é a chance de reviver viagens nesses modelos”, comentou o diretor de Operações e Marketing da Itapemirim, Marcos Almeida, diante de imensa fila de busólogos que aguardavam para receber o papercraft de um ônibus da marca.

Criada em 1953 pelo empresário Camilo Cola, a Itapemirim foi uma das primeiras empresas a operar, nos anos 1970, linhas que interligavam as regiões Sudeste e Nordeste. Por isso, teve importante papel no movimento migratório que deslocou brasileiros de áreas rurais para centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro.

A banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado aborda o tema na canção “Chover”. Nela, o vocalista Lirinha faz um apelo aos sertanejos para que não deixem sua terra, pois a chuva vai chegar: “Meu povo não vá simbora/ Pela Itapemirim/ Pois mesmo perto do fim/ Nosso sertão tem melhora”.

O êxodo rural iniciado na década de 1950 arrefeceu a partir dos anos 2000. Paralelamente, o transporte rodoviário interestadual de passageiros entrou em crise devido à migração da demanda para o modal aeroviário, que ficou mais barato e chegou à classe C. Entre 2003 e 2018, a participação do ônibus no total de passageiros caiu de 72,1% para 30%, enquanto a do avião saltou de 27,9% para 70% na mesma comparação.

Como resultado, o setor teve de se reestruturar. Maior empresa da América do Sul, a Itapemirim entrou em recuperação judicial em 2016. Marcas tradicionais como São Geraldo e Salutaris foram vendidas, incorporadas e, depois, extintas. As viações passaram a priorizar linhas de curta e média distâncias, mais rentáveis.

Proprietário de um Tecnobus Tribus III que pertenceu à frota da Itapemirim, o colecionador Moises Reis da Silva torce pela recuperação da empresa capixaba. “Trata-se de uma marca muito forte, que está na memória das pessoas que passaram por seus ônibus. Tenho certeza de que voltará aos velhos tempos”, previu.

 

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