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Ex-aluno de oficinas de Diadema lança documentário

Ex-aluno de oficinas de Diadema lança documentário
Filme foi produzido de forma independente durante viagem ao Canadá e aborda temática negra, periférica e LGBT. Foto: Divulgação

O cineasta Valter Rege, de 34 anos, lança amanhã (28), às 19h30, no Centro de Educação Unificado (CEU) Caminho do Mar, em São Paulo, o documentário “O cinema me trouxe aqui”. Valtinho, como é conhecido nas redes sociais, é morador do bairro Vila Clara, divisa entre São Paulo e Diadema, e ex-aluno das oficinas de cinema de Diadema.

O documentário foi gravado em Toronto, no Canadá, durante oito dias, em fevereiro deste ano. Valtinho estava apresentando seu curta metragem “Preto no branco”, selecionado pelo Festival de Cinema Negro de Toronto.

“Quando fui selecionado, fiz uma vaquinha online, por meio do meu canal no YouTube, para levantar os recursos e prometi registrar a minha passagem por lá para mostrar a quem me ajudou. Quando voltei, vi que tinha material para um documentário”, explicou o cineasta.

O curta apresentado no Canadá foi contemplado, em 2014, em um edital do Ministério da Cultura para cineastas negros. “Tive bastante dificuldade em exibir aqui no Brasil, mas ele também foi selecionado em festivais na Índia, em Montreaux, no Canadá, e em Berlim, na Alemanha”, relembrou. O curta foi lançado em 2017.

Rege entrou como bolsista, em 2008, para fazer faculdade de Rádio e TV no Centro Universitário Belas Artes. “Os cursos de direção e roteiro que fiz em Diadema me ajudaram muito. Na época, ia e voltava a pé, porque não estava trabalhando, mas o conteúdo era muito bom e valia o esforço”, relembrou.
Questão racial

Foi na faculdade que o cineasta se deu conta da questão racial. “Tive aula de história afro-ameríndia e só então me descobri preto, porque até então me reconhecia como pardo”, afirmou. “Quando me formei, percebi que o mercado audiovisual e de comunicação em geral não contempla pretos”, pontuou.

Essa consciência fez com que Rege decidisse lançar seu canal no YouTube, “Energia Positiva”, em que os vídeos abordam a temática negra, LGBT e o cotidiano da periferia. “Minha pretensão nunca foi estar em frente as câmeras. Porém, fazia pequenos vídeos para o Facebook e por incentivo de amigos fiz o canal”, destacou. “Aos poucos fui descobrindo que a internet me dava a voz que a mídia tradicional não me dava. Então, comecei a abordar homossexualidade, negritude e periferia a fim de motivar as pessoas a não desistirem de lutar por limitações impostas pela sociedade”, relatou.

“O meu documentário também fala sobre isso. Quero que essas pessoas se vejam representadas na tela grande”, completou.

Rege destacou que quer ser um elemento de representatividade para esses segmentos da sociedade. “Assim como tive as pessoas que foram as minhas referências, quero ser referência e exemplo para outros”, afirmou.

O cineasta comentou, ainda, que já enfrentou o racismo e foi alvo de ofensas criminosas em um antigo trabalho, mas que procurou fazer disso um evento de transformação. “Essas coisas acontecem e as pessoas não podem ter medo de buscar seus direitos”, aconselhou.

Sobre a ironia de ter dificuldades em entrar no mercado de trabalho do audiovisual por conta do preconceito e agora estar lançando um documentário filmado enquanto apresentava um curta-metragem de sua autoria no exterior, Rege classificou a situação como tendo um lado bom e um ruim.

“Esse documentário é muito representativo por causa disso, porque ele foi muito bem feito, muito bem acabado e foi feito por apenas uma pessoa”, declarou. “É ruim, porque se sou tão bom, por que o mercado de trabalho não me dá uma oportunidade?”, questionou.

“Isso me mostra que tenho de confiar. Temos de confiar, porque vão existir muitas pessoas para nos dizer que não somos bons. Estudo cinema desde os 13 anos. Muitos profissionais, nas produtoras onde trabalhei diziam que eu não estava pronto, mas fui pro Canadá e fiz um documentário”, relatou. “Poderia fazer esse lançamento na Galeria Olido, mas escolhi fazer na periferia porque é a periferia quem me diz que sou cineasta e não o mercado”, destacou.

O documentário “O cinema me trouxe aqui” vai estar disponível no YouTube em abril. O curta “Preto no branco” vai para a internet em novembro.

Serviço – O lançamento do documentário “O cinema me trouxe aqui” acontece nesta quarta-feira (28), às 19h30, no CEU Caminho do Mar, Avenida Engenheiro Armando Arruda Pereira, 5241, Vila do Encontro. A entrada é gratuita e os ingressos devem ser retirados meia hora antes da apresentação. Também será exibido o curta-metragem “Preto no branco”.

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