Saúde e Beleza

Especialista garante: ‘Canabidiol não dá barato’

Canabidiol não dá ‘barato’
Correia: “O canabidiol não dá ‘barato’, independentemente da quantidade, ou mesmo se foi ingerido, inalado ou fumado”. Foto: Arquivo pessoal

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou esta semana novas regras para registro de produtos à base de Cannabis para fins medicinais no país. A partir de agora, empresas poderão obter aval para venda desses produtos em farmácias. Hoje, pacien­tes que fazem tratamento com produtos à base canabidiol, substância encontrada na Cannabis e conhecida pelos seus efeitos terapêuticos, precisam de aval da Anvisa para importar os produtos a um alto custo. A aprovação da medida foi envolta em polêmica. Para desmistificar a questão, o Diário Regional entrevistou o nefrologista infantil e professor da USCS, Ronaldo José de Oliveira Correia.

Segundo o especialista, as discussões sobre o tema, em sua maioria, envolveram políticos ou religiosos, sem o mínimo de conhecimento real sobre o assunto. “Existe, sim, muitas pessoas com conhecimento genuíno sobre derivados da maconha em geral, em todos seus aspectos (médico, econômico, criminalidade), mas são vozes que acabam abafadas pelo ruído político e religioso”, destaca.

Com o desconhecimento sobre o tema, muitos acreditam que o canabidiol produz os mesmos efeitos da maconha – o popular ‘dar barato’. Porém, Correia é enfático: “O canabidiol não dá ‘barato’, independentemente da quantidade, ou mesmo se foi ingerido, inalado ou fumado. Qualquer resposta diferente desta significa desconhecimento ou intenção de enganar as pessoas.”

O docente afirma que nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e muitos outros países os produtos à base de Cannabis nem precisam de receita; são vendidos em mercados comuns como suplemento alimentar. “No Brasil a regulamentação permitiu o canabidiol somente em fórmulas de uso oral (geralmente como um óleo). Porém, no exterior você encontra xampu, chocolate, sabonete, creme e até bebidas com canabidiol”, explica.

O popular “barato” – na medicina chamado de “efeito psicoativo” – é causado pelo Tetrahidrocanabinol (THC), outra substância química também encontrada na Cannabis, a qual, inclusive, também têm diversas atividades terapêuticas documentadas. “Importante ressaltar que, para fins de tratamento médico, a dose utilizada é muito menor do que a presente em um baseado e não deve causar sintomas quando o tratamento é bem manejado”, afirma.

Correia destaca que já existem medicações de grandes laboratórios multinacionais com o THC no seu princípio ativo, como o Cesamet, comercializado no exterior contra vômitos na quimioterapia, e para ganho de peso no câncer; e o Mevatyl, utilizado no tratamento da esclerose múltipla, disponível no Brasil.

Existem diversas pesquisas que mostram benefícios dos medicamentos à base de Cannabis no tratamento de doenças como epilepsias resistentes aos remédios habituais, Parkinson, Alzheimer, Autismo, entre outras. “O que não temos é uma grande pesquisa “padrão ouro”, coisa que não temos para muitos outros tratamentos que usamos na medicina, inclusive. Isso acontece pela falta de interesse das grandes indústrias farmacêuticas, uma vez que não podem patentear uma substância que é vinda diretamente de uma planta”, complementa.

Para tornar mais fácil a compreensão sobre o assunto, Correia esclarece algumas dúvidas.

Explicando de uma forma para que os mais leigos entendam, o que é canabidiol?

Canabidiol, ou CBD, é uma substância química produzida pela planta da espécie Cannabis Sativa, que no popular a gente chama de maconha ou cânhamo. Na verdade, poucas outras plantas dessa família, como o Lúpulo, usado para fazer cerveja, também produzem quantidades mínimas de canabidiol.

O CBD é conhecido desde o fim da década de 60. No início acreditava-se que não tinha ação no corpo humano, mas logo os pesquisadores perceberam sua atividade como remédio. O Brasil, inclusive, tem um papel muito importante nessa história. Foi na São Paulo, nos anos 70, que o professor Elisaldo Carlini, da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo) fez o primeiro estudo mostrando que o CBD controlava crises convulsivas.

Existem prejuízos para a saúde quanto ao uso desse tipo medicamento?

O canabidiol é uma droga. Porém, todo medicamento é uma droga, inclusive você os compra em drogarias, de forma extremamente segura. Ele não causa dependência e tem um baixo potencial de efeitos colaterais, sendo os mais comuns náuseas, irritabilidade e sonolência. Aliás, cabe dizer que não existe medicamento no mundo sem efeitos colaterais possíveis. Pode existir interação com outros medicamentos. Por isso, é necessário que o tratamento seja indicado e acompanhado por um médico qualificado.

O senhor tem alguma experiência prática com paciente que faça uso do medicamento?

Sim, com pacientes que convulsionavam muitas vezes ao dia, mesmo com uso dos anticonvulsivantes de uso comum em doses altas. O uso de óleo à base de CDB fez as crises cessarem ou reduzirem drasticamente. Também tenho casos de pacientes com autismo e dor crônica que foram muito beneficiados com tratamento à base de derivados da Cannabis.

O canabidiol estaria no que se classifica como uma medicação alternativa?

Na verdade, a Anvisa classificou como uma classe de medicação nova: Os produtos à base de Cannabis.
Os tratamentos à base de Cannabis, em geral, ainda não são o que chamamos de “primeira escolha”. Ou seja, ain­da são reservados para casos em que as medicações de uso habitual não funcionaram.

Porém, levando em consideração que existem pesquisas maiores em curso, e que a pesquisa sobre essa classe de medicação aumentou de forma absurda nos últimos anos, é altamente provável que nos próximos anos derivados da Cannabis passem a ser utilizados como primeira opção de medicação em algumas doenças

A Anvisa aprovou o registro de medicamentos à base de Canabis. Acredita que teremos novas polêmicas, já que a maioria dos diretores foi contra a proposta de aval ao plantio para pesquisa e produção de medicamentos?

Essa regulamentação vai facilitar o acesso à medicação pelo paciente, a prescrição por parte dos médicos e um maior arsenal medicamentoso à disposição para tratamento. Isso trará uma normalização da medicação, que deixará de carregar esse tabu sem sentido.

Polêmica com essa aprovação, só se for por parte de políticos que disseminam mentiras sobre essas medicações para ganhar votos às custas do sofrimento de pessoas com doenças crônicas e suas famílias.

um comentário

  1. Dr.Ronaldo Jose de Oliveira Correia…sou mãe de dois filhos altista ….e louvo a Deus pelo insetívo e determinação que o Senhor está trabalhando nesta causa…. sonho por esse dia em que poderei ver o efeito do cánabidiol em meus filhos

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