Arte & Lazer, Social

Especial: Miguel Garofalo, um herói andreense

Especial: Miguel Garofalo, um herói andreense
Garofalo posa ao lado do busto em homenagem ao Marechal Mascarenhas de Moraes, que adorna a entrada da Associação dos Ex-combatentes. Foto: Arquivo Pessoal

O andreense Miguel Garofalo foi um dos cerca de 4 mil idosos acima de 90 anos que, em fevereiro, se vacinaram contra a covid-19 no município. Enquanto exibia com orgulho o cartão que atesta a imunização, a filha Marisa comemorava: “É mais uma vitória do meu pai. É como vencer a Terceira Guerra Mundial.”

No caso de Garofalo, a comparação a um possível terceiro conflito militar global não se deve apenas aos efeitos devastadores do novo coronavírus. O andreense de 99 anos é um dos mais de 25 mil homens que integraram a Força Expedicionária Brasileira (FEB), divisão que lutou na Itália juntamente com as tropas aliadas – lideradas por França, Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética – durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Garofalo participou da Batalha de Monte Castello, travada na Itália contra a Linha Gótica – defesa alemã que, ao ser vencida, permitiu aos aliados avançar rumo ao Norte do país. A operação durou de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945 e custou caro à FEB, com mais de 400 baixas, das quais 103 no último ataque.

O pracinha chegou à Itália em junho de 1944, quase dois anos depois de o Brasil declarar guerra à Alemanha nazista. Em 1939, o governo brasileiro decretara neutralidade do país em relação ao conflito, mas a posição mudou em agosto de 1942. Pesaram para a decisão a pressão dos Estados Unidos após a ofensiva japonesa a Pearl Harbor no ano anterior e a série de ataques do submarino alemão U-507 a navios mercantes brasileiros, causando mais de 600 mortes.

Entre a declaração e o envio de tropas à Europa passaram-se quase dois anos, tempo necessário para o presidente Getulio Vargas costurar com os Estados Unidos um acordo para reaparelhamento das Forças Armadas brasileiras, formar a FEB e treinar seus oficiais nos EUA. O distintivo da FEB, que tinha uma cobra fumando cachimbo, surgiu como provocação aos que diziam ser mais fácil uma cobra fumar do que o país entrar na guerra.

Garofalo desembarcou na Itália duplamente pressionado. Não bastasse a inexperiência dos combatentes brasileiros, a geografia montanhosa e o inverno mais rigoroso em 50 anos, o andreense tinha origem ítalo-brasileira – é filho de imigrantes originários de Benevento, cidade situada no sul do país.

Porém, a fluência em italiano ajudou na comunicação com a população local. “Nossa farda era igualzinha à dos alemães. Quando o pessoal viu, fomos alvo de tudo quanto é xingamento. Saí da formação e fui lá (conversar). ‘Não somos tedeschi (alemães). Sou filho de italianos’”, recordou o pracinha, em entrevista concedida em 2018 por ocasião da exposição “O Brasil na 2ª Guerra Mundial: Uma batalha pela vida”, realizada pelo Instituto Professor Antônio Carlos Lopes, em parceria com o Exército Brasileiro.

“O rapaz retrucou: ‘Você está aqui para guerrear contra seu pai?’ Respondi, firme: ‘A pátria do meu pai é a Itália, mas a minha é o Brasil’”, prosseguiu Garofalo. Nos nove meses de presença da FEB na Itália, os pracinhas escreveram páginas heroicas e imprimiram um “jeito brasileiro de batalhar”, expresso no tratamento humanista dado aos prisioneiros de guerra e na divisão de provimentos com a faminta população local.

Ao todo, 460 homens da FEB morreram na Itália e quase 3 mil foram feridos em combate ou sofreram acidentes, entre os quais Garofalo, que foi atingido pela explosão de uma granada e lançado a uma distância de quatro metros. O pracinha teve de caminhar 40 km até chegar ao pronto socorro mais próximo.

Garofalo foi operado em Lucca, cidade localizado na região da Toscana. Permaneceu hospitalizado durante três meses antes de receber autorização para retornar ao Brasil. “Embarquei no navio juntamente com um soldado de Blumenau (SC). Entrei chorando. O soldado me perguntou por que eu chorava (…) Respondi que uma lágrima era de ‘contenteza’ e outra era de tristeza, por não saber se reencontraria meus amigos”, recordou.

ENCONTRO

De volta ao Brasil, Garofalo foi internado em um hospital no Rio de Janeiro. “Chegaram alguns oficiais, que nos questionaram sobre como tinha sido (a campanha) na Itália. Contei tudo. Mais tarde, eu descobri que um deles era o próprio Getulio Vargas, que me agradeceu por ter derramado sangue pela pátria.”

O pracinha retornou a Santo André, mas ainda haveria tempo para mais uma “aventura”: três dias depois, foi preso por insubordinação. “Não sabia que deveria me apresentar ao quartel de minha cidade. Fiquei na cadeia, mas fui liberado dias depois”, recordou. Como não poderia deixar de ser, o reencontro com a mãe foi emocionante, sobretudo porque havia chegado a ela a informação de que tinha perdido os braços e a visão na explosão.

Garofalo retomou a profissão de mecânico de máquinas, casou-se e constituiu família formada atualmente por quatro filhos, oito netos e oito bisnetos. Outro feito foi ter fundado em 1963, juntamente com outros 600 pracinhas, a Associação dos Ex-combatentes do ABCDMRR, criada com o objetivo de prestar assistência aos bra­si­leiros que combateram na Segunda Guerra Mundial e a suas viú­vas.

Com sede em Santo André, a entidade abri­­­ga biblioteca e museu mi­li­tar. Seu acervo é composto de cerca de 300 objetos usa­do­s em vá­­rios momentos das forças ar­ma­das bra­sileiras. Garofalo presidiu a associação por quase duas décadas, mas está afastado das ati­vidades. Quem a dirige é o filho, Kiko Garofalo. Em respeito e home­nagem ao pai, Kiko não usa a mesa da presidência. “Só me sentarei ali quando o seu Miguel morrer”, garantiu.

A vacina contra a covid-19 foi um alívio para a família. Afinal, Miguel Garofalo – que tem Alzheimer em estágio inicial – pertence ao grupo de risco para a doença e se manteve em isolamento durante a pandemia. Kiko espera que a crise sanitária acabe e que o pai possa finalmente voltar a frequentar a associação. “Preservar a memória dos combatentes é preservar um capítulo importante da história do Brasil”, concluiu.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*