Curiosidades

Em tempos de quarentena, como anda sua motivação?

Estudar, trabalhar e buscar aprendizado constante sempre fizeram parte da rotina do advogado Maurício Maluf Barella, de 42 anos. Especializado na área de imóveis, ele também está terminando a faculdade de psicologia. E ainda se inscreve em cursos paralelos, lê livros, escreve resenhas para o blog que mantém, se exercita. Além de dar atenção à família, claro. De onde vem tanta empolgação, que faz o dia de pessoas como ele parecer ter 48 horas? Como esses supermotivados estão neste período de pandemia?

Para especialistas, a principal chave para esse ânimo redobrado é desenvolver o autoconhecimento para descobrir atividades que tragam felicidade. Força de vontade, proatividade e otimismo também ajudam.

“Meus irmãos são como eu. É incentivo, criação, questionar, buscar respostas e entender as coisas”, diz Barella, ao destacar que não consegue dormir enquanto não tem a resposta para suas dúvidas.

O advogado conta ainda que acha importante desenvolver o autoconhecimento para manter a motivação. “É achar uma atividade que seja prazerosa, estimulante. E parar um tempo do dia para fazer”, sugere. Outra meta para ele é ser útil e ajudar outras pessoas.

O depoimento de Barella revela vários tipos de motivações. Sim, no plural, como explicam especialistas. Cesar Bullara, diretor e professor do departamento de gestão de pessoas e professor de ética nos negócios no ISE Business School, cita três tipos: intrínsecas, extrínsecas e transcendentes.

“Os estímulos nos chegam e provocam impactos de formas diferentes. Falar de motivação é falar de aspectos muito profundos do ser humano”, afirma Bullara. “Algo que vem de fora é a motivação extrínseca, que estimula a fazer algo pelo qual você está sendo cobrado, exigido, que é necessário. Um exemplo disso é o trabalho, que traz um benefício econômico.”

Já a motivação intrínseca, segundo ele, tem a ver com o autoconhecimento. “Vem de dentro da pessoa. Se você gosta do que faz, o trabalho é uma razão de motivação”, exemplifica. A transcendente, por sua vez, está ligada ao impacto positivo que você pode ter nos outros. “Ocorre quando a pessoa sente que aquilo que faz tem um propósito, indo além de si mesma.”

A psicóloga Priscila Yara Haddad, que trabalha com mapeamento e desenvolvimento humano, acrescenta que o tipo de motivação intrínseca é fácil de identificar. “Há uma administração de emoções. E a pessoa não perde o objetivo”, explica. “Existe a vontade de fazer e de ser o seu melhor. A proatividade e o otimismo estão ligados à motivação, isso está relacionado à inteligência emocional.”

Vontade de ajudar

Professor de educação física, Renan Cardozo, de 33 anos, é outro desses supermotivados. E também tira parte desse ânimo da vontade que sente de ajudar.

Ele é casado com a personal trainer Mônica Luiz, de 31 anos, igualmente motivada e dedicada a várias atividades, como o projeto social que ambos querem tocar na zona norte de São Paulo “O Tênis na Rua tem por base o projeto de um amigo em Paraisópolis (na zona sul)”, diz o professor. “Nossos projetos não giram só em torno de nós mesmos, mas também de outras pessoas.”

Os dois iniciariam o projeto social em março, promovendo aulas de tênis um domingo por mês. Mas a covid-19 chegou e, com a doença, a impossibilidade de desenvolver esse trabalho presencialmente. O adiamento não desanimou o casal. “Acabando a pandemia, queremos dar andamento. Essa parada nos deu a oportunidade de sentar e centralizar nossas ideias”, diz Cardozo, que, junto com a mulher, aproveita para tocar vários outros projetos, pessoais e coletivos.

Contágio positivo. Segundo os especialistas ouvidos pelo Estadão, uma pessoa motivada pode, sim, “contaminar” o parceiro, como ocorre com o casal Mônica e Cardozo. O mesmo vale para grupos da escola ou do trabalho.

“Somos seres sociais. Viver com uma pessoa que motiva te dá uma referência”, explica Monica Heymann, especialista em desenvolvimento humano. “É possível incentivar o outro para que ele encontre sua motivação interna. Isso é contagiante, mas há também a parte de cada um, do indivíduo. Só se leva a pessoa até determinado ponto, o restante depende dela.”

A psicóloga Priscila concorda, mas acrescenta que o efeito oposto também pode ocorrer. “Todas as emoções, positivas ou negativas, são contagiantes”, diz. “Se alguém segura minha onda quando não estou bem, pode me ajudar e me contagiar positivamente, ressignificando as coisas e fazendo a diferença. Assim como ter pessoas desmotivadas à sua volta pode provocar um impacto no seu desempenho.”

Pela arte

Pai e avô, o professor de música Denne Oliveira, de 53 anos, não se cansa. Dá aulas em escolas de música, tem uma banda de maracatu, promove congressos educacionais, participa de um projeto para orientação de vestibulandos, estuda filosofia e faz pinturas no tempo livre. Fora da quarentena, ainda toca em bares.

“Eu me satisfaço em ver as pessoas pensando e aprendendo. Um sorriso para mim já é uma realização”, afirma o músico, que pretende oferecer um projeto cultural com aulas de teatro, música e dança após a pandemia. “Moro próximo de uma comunidade e vejo muitas crianças se perdendo. Quero ver o mundo diferente ”

A mulher dele volta e meia pede uma pausa para que consigam ficar um tempo juntos, mas todos na família se orgulham da sua dedicação e apoiam seu jeito de viver intensamente.

Especialistas explicam que a motivação é muito positiva, mas dizem que os superanimados também precisam redobrar a atenção para manter o equilíbrio. “Se o que eu estou fazendo com finalidade externa tiver ganchos emocionais com a minha motivação intrínseca, é o melhor dos dois mundos”, diz a psicóloga Priscila. “Tem aderência com o que eu sinto, é prazeroso, é algo que liga a mente e a emoção.”

Monica, que além de especialista em desenvolvimento humano faz coach de carreira e para executivos, lembra que é sempre preciso dosar. “Se eu tenho uma mente proativa e muita motivação, o que isso me traz? De onde isso vem? É bom desde que não atrapalhe a rotina, quando há equilíbrio”, afirma.

Ainda no começo da carreira, Felipe Moreira, de 21 anos, já tem uma rotina cheia de responsabilidades. O estudante de publicidade e propaganda trabalha com edição de vídeos e documentários e produz clipes. Também faz freelas fotográficos e de filmagens.

O jovem diz que estar sempre construindo algo novo dá uma sensação de realização. “Também tem algo de identidade. Sou uma pessoa que vem da periferia. Quando a gente vem desses lugares, precisa fazer mais para chegar a outros lugares, alcançar nossos objetivos”, afirma o universitário. “É uma das coisas que me motivam a ir além.”

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