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Em São Bernardo, Lula defende maior integração da América Latina

Lula: “a política vai precisar de muita intensidade, porque um mandato é só de quatro anos”. Foto:  Ricardo StuckertO ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou na tarde de ontem (15), em São Bernardo, do lançamento do Instituto Futuro Marco Aurélio Garcia, organização que visa o desenvolvimento das nações sul-americanas e caribenhas (leia mais no box). Em sua fala, Lula defendeu maior integração da América Latina. “Deixamos de criar instituições multilaterais que poderiam estar garantindo muitas coisas que fizemos nos nossos 12 anos de governo progressistas nos países”, declarou.

Lula fez uma analogia da política com o que chamou de “futebol moderno”. “As pessoas usam a palavra intensidade, ‘o jogo precisa ter intensidade, o jogador tem de ficar em cima do outro para ele não pegar na bola’. A política vai precisar de muita intensidade, porque um mandato é só de quatro anos, se a gente não fizer as coisas rápido, o mandato termina e não fizemos nada”, afirmou.

O ex-presidente citou medidas que poderiam ter sido adotadas a fim de aumentar a integração no continente, como o Banco do Sul e o Parlamento Latino Americano. “Estivemos muito próximos de construir uma coisa muito forte, mas não tomamos as decisões certas na hora certa. Demoramos anos discutindo o parlamento latino-americano, passamos anos e anos discutindo o parlamento do Mercosul e às vezes a burocracia não deixa acontecer. Às vezes a burocracia é um ministro da Fazendo, um presidente do Banco Central, um diplomata, cria um obstáculo histórico e as coisas não andam”, disse.

Na visão de Lula, a criação do Instituto pode ajudar a pensar soluções conjuntas para a América Latina. “Pode contribuir para que, primeiro, os nossos jovens não esqueçam o que foi o passado e não esqueçam que a gente tem de construir o futuro”, pontuou. “Não sei bem qual é o papel de um patrono, mas estou disposto a aprender e o que puder fazer, o que puder contribuir para que a gente possa avançar na compreensão dos problemas que temos de enfrentar na América latina, para que um dia a gente crie a grande pátria, ou a grande América, nos temos que fazer”, afirmou.

O petista destacou também a necessidade de incluir cada vez mais os movimentos sociais nas decisões governamentais. “Lembro que mesmo no Mercosul, mesmo governos progressistas, os dirigentes sindicais só participavam da reunião no final. Nunca eram convidados para falar no começo das reuniões. É preciso mudar também nosso comportamento quando chegarmos ao governo, para que os movimentos sociais possam participar mais ativamente da construção das políticas que queremos colocar em pauta para nosso país”, pontuou.

Trump
O ex-presidente também criticou a declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou há poucos dias que não descarta intervenção militar na Venezuela, que passa por grave crise política e financeira. “A gente não pode permitir que, qualquer que seja o erro de Maduro (Nicolás Maduro, presidente da Venezuela), que um presidente americano diga que vai utilizar força para poder derrubar. Temos de dizer que a autodeterminação dos povos é uma coisa que aprendemos a defender”, afirmou.

“Queremos que o Maduro faça as coisas certas, que governe bem. Ao invés do Trump falar que vai usar armas, deveria propor a criação do grupo de amigos que propusemos ao governo Chaves em janeiro de 2003, para resolver a crise da Venezuela”, relatou. “O senhor Trump precisa aprender de uma vez por todas que a gente não resolve conflitos políticos com armas. A gente resolve com conversa, com acordo, e se não sabe fazer, nos aqui na América Latina podemos ensinar como construir a paz no nosso continente”, destacou.

Lançamento

Foi lançado ontem (15) o Instituto do Futuro Marco Aurélio Garcia, iniciativa da Universidade Metropolitana para a Educação e o Trabalho (UMET), de Buenos Aires, em parceria com o Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (ClACSO).

O Instituto terá como foco o desenvolvimento compartilhado e a integração latino-americana e caribenha. Pretende discutir as políticas públicas tanto dos governos populares como das administrações conservadoras, e promover uma profunda reflexão sobre os caminhos para o avanço da democracia, da integração e da justiça social em nosso continente. Quer fazê-lo junto com os dirigentes sindicais, com os líderes dos partidos políticos e movimentos sociais, com os acadêmicos, os estudantes, os intelectuais e artistas.

O ex-ministro Luiz Dulci será o diretor da organização e o professor e jornalista argentino Martín Granovsky s o coordenador executivo. O evento contou com a presença dos ex-chanceleres Celso Amorim ( Brasil) e Jorge Taiana (Argentina), além dos líderes das maiores centrais sindicais da Argentina e do Brasil. “Por meio do instituto precisamos criar novos e melhores políticos para dirigir a América Latina”, afirmou Lula.

“Temos desemprego em quase todos os países e o instituto pode ajudar em uma reflexão mais profunda sobre a nossa América Latina, porque está tudo mais difícil. Posso dizer que aqui no Brasil a política está judicializada e o Judiciário está politizado. Há uma inversão de valores e se os políticos não tomarem conta, não voltarem a fazer política e não assumirem a sua responsabilidade, não temos solução técnica. A solução não é do Judiciário. A solução é política”, destacou.

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