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Em 14 anos, ABC perde um terço de participação no setor automotivo paulista

Em 14 anos, região reduz em 1/3 participação no setor automotivo paulista
Estudo revela que interiorização das montadoras diminuiu a relevância do ABC para o setor

O ABC ainda é re­levante reduto de montadoras e autopeças de São Paulo, mas o processo de interiorização do setor automotivo fez reduzir a participação da região no va­lor de transformação industrial (VTI) do segmento no Estado. É o que revela estudo divulga­do nesta quinta-feira (13) pe­la Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).

Segundo o estudo, a fatia da re­gião no VTI automotivo do Estado caiu de 33,3% em 2003 para 22,9% em 2017. VTI é um indicador se­me­lhante ao valor adicionado, es­­pécie de Produto Interno Bru­­to (PIB) fabril. Na prá­tica, signi­fi­ca que, de cada R$ 100 em bens produ­zi­dos por montadoras e auto­peças em 2003, R$ 33,30 ti­nham como ori­gem os sete muni­cípios. Contudo, 14 anos de­pois, a con­tri­­bui­ção caiu para R$ 22,90.

O estudo, que usa dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), re­vela ainda que São Bernardo mante­ve a hegemonia no se­tor automotivo paulista, mas viu sua participação cair de 25,9% para 17,1% entre 2003 e 2017. No mesmo intervalo, São Cae­tano teve sua fa­tia reduzida de 5,8% para 4,5%.

No sentido contrário, o gru­po de cidades formado por Piracicaba (sede da Hyundai des­de 2012), Sumaré (Honda, des­de 1997) e Indaiatuba (Toyota, des­de 1998) ampliou sua partici­pa­ção de 5,5% para 21,1% na mesma comparação.

Paralelamente à perda de VTI, o setor automotivo do ABC também perdeu empregos. Somente nas montadoras, o estudo mostra que, entre 2006 e 2017, foram fechados 12,3 mil postos de trabalho na região. No segmento de autopeças, o total de perdas chegou a 6,5 mil vagas no mesmo período.

HISTÓRIA

Autoras do estudo, as ana­listas da Fundação Seade Mônica Landi e Margret Althuon des­tacam que setor automotivo – que começou a se estabelecer no Brasil no início do século 20 – centralizou no ABC a ins­talação de suas fábricas até meados da década de 1970, em uma estratégia explicada pela proximidade com o Porto de Santos e o mercado consumidor, pela existência de mão de obra qualificada e pelo desenvolvimento de parque produtivo de autopeças na região.

Poucas vezes o predomínio do ABC foi rompido até então, como no movimento de expan­são em direção ao Vale do Paraíba feito por General Motors (1959), Ford (1967) e Volkswagen (1973), e na instalação da Fiat em Betim (1976). Não por acaso, o Estado de São Paulo res­pondia por três a cada quatro carros feitos no Brasil em 1990.

Em um cenário de abertura comercial, incentivos oferecidos por alguns Estados – a chamada “guerra fiscal” – e de busca das montadoras por novos mercados, o setor recebeu novo ciclo de investimentos a partir de meados dos anos 1990, desta vez descentralizado. Entre 1997 e 2007 foram instaladas 11 novas unidades fabris no país, das quais sete no Paraná. Regiões como Nordeste e Centro-Oeste ganharam relevância no setor, enquanto a participação de São Paulo caiu para 42,5% em 2011.

O estudo lembra ainda que, ao longo das décadas de 2000 e de 2010, ocorreu um no­vo ciclo de investimentos, com des­taque para a vinda de marcas asiáticas para o Interior paulista. Tanto no segundo como no terceiro ciclos, outro fa­tor contribuiu para a des­concentra­ção do setor: a escolha, pelas empresas, de locais com mão de obra mais barata e baixa or­gani­zação sin­dical, com o objetivo de reduzir custos.

“No primeiro momento, o ABC era uma opção vantajosa, devido à proximidade com o Porto de Santos e com o merca­do consumidor. Porém, com o passar do tempo, a região ficou cara, não só em termos de mão de obra, mas também de custos de imóveis e terrenos. Até mesmo sob o ponto de vista logístico, se estabelecer no In­terior do Estado tornou-se uma estratégia vantajosa para as empresas”, disse Mônica.

A ana­lista lembra que os da­dos ainda não consi­deram o im­pacto do fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo, em 2019, e do encerramento da pro­dução da montadora no país, no início deste ano. Assim, a fatia do ABC no VTI automotivo paulista de­ve ser ainda menor agora.

DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Mônica destacou que, neste mo­mento, mais importante do que a continuidade ou não do processo de descentralização é a sobrevivência do se­­tor fabril. “Temos visto empresas deixando o país em vários se­tores, não só no automotivo. Como fal­ta uma política industrial cla­ra, fica difícil qualquer de­cisão de investimento. Assim, não se trata mais de descentralização, mas de desindustrialização.”

um comentário

  1. A verdade é q o grande ABC está se tornando cidade dormitório. Qual a empresa em sã consciência que vai permanecer numa região onde tudo é mais caro? Nenhuma. E mais a tendência é cada vez mais as empresas irem embora do ABC.

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