Arte & Lazer, TV

Edu Moscovis tem atuação impecável em ‘Bom Dia, Verônica’, na Netflix

Edu Moscovis tem atuação impecável em 'Bom Dia, Verônica', na Netflix
Edu Moscovis e Camila Morgado em cena de “Bom Dia, Verônica”. Foto: Reprodução

Logo no primeiro episódio do suspense Bom Dia, Verônica, na Netflix, o ator Eduardo Moscovis, que vive o policial Cláudio Brandão, protagoniza uma das cenas mais desconfortáveis e impactantes da série. Ele pendura pela pele, em ganchos, sua vítima – uma garota que acabara de chegar a São Paulo – e a ergue até o alto. A moça grita de dor e medo. Sua mulher, Janete, interpretada por Camila Morgado, é obrigada a ficar no local, sentada e com uma caixa de madeira na cabeça. Insinua-se então que Brandão abusa da moça.

Esse momento assustador contrasta com um Brandão visto um pouco antes – carinhoso, confortando a mulher após sofrido mais um aborto espontâneo. Na realidade, a aparente figura de homem gentil e policial exemplar camufla camadas mais profundas e obscuras de Brandão. O espectador vai sendo apresentado à sua real persona: um serial killer que comete violência psicológica e física contra a mulher.

“Tive muita resistência, dificuldade de me aproximar do Brandão. Eu já tinha aceitado o convite, tinha ficado bem feliz, mas não estava sabendo como lidar com ele, como chegar a ele. O que me dava tranquilidade é que teria o Zé Henrique (Fonseca) dirigindo, com quem trabalhei em outra série, Lúcia McCartney”, diz Edu Moscovis, em entrevista à reportagem, por telefone.

Edu também recebeu um conselho da criminóloga Ilana Casoy, coautora – juntamente com Raphael Montes – do livro que inspirou a série. “Ela disse: ‘não o julgue, não. Vai fazendo'”.

Ator de teatro, TV e cinema, que investiu na diversidade de papéis ao longo da carreira, Moscovis criou um Brandão longe do caricato, cheio de nuances, transitando da ternura à extrema violência. Um psicopata realista, que se descola do serial killer muitas vezes retratado no cinema. Aliás, o ator revela que não buscou referências nos personagens do gênero em filmes.

“O desenho plástico da cena, o que era proposto já no papel, e o que eu sabia daquilo, de como seria, já era tão impactante que não estava preocupado com o serial killer dentro de casa, porque automaticamente contaminaria o público.. Quando o Brandão voltasse para casa, mesmo que eu não tivesse fazendo ‘o psicopata’, ele estaria ali. Então, me interessava muito mais esse cara que está aí, em quem você não aposta e, quando sabe de alguma coisa (ruim a respeito dele), fala: ‘impossível, como é que pode?’. Isso é uma opção, e o Zé (Henrique Fonseca) também pensava dessa forma. Então, foi ótimo”, comentou.

Aliada a sua atuação impecável está toda a composição do personagem: os gestos, os olhares, o tom de voz, as roupas. “Fui criando (Brandão) juntamente com todo mundo. Tinha minhas intuições, minhas apostas, conversei muito com o Zé, com a Marina Franco, que é a figurinista. O figurino do Brandão também me ajudou demais na composição: como ele se veste, como se arruma, como se comporta, tudo isso fui recebendo de vários lados”, disse o ator, que passou também por uma mudança física.

“Minha ideia era fazer com que, dentro de casa, o maior número de cenas possível não tivesse nada indicado para nenhum tipo de violência física, e que fosse mesmo uma violência psicológica, violência de olhar, de pausa, algo velado, que se aproximasse o máximo possível de relações que a gente conhece, que a gente já viu, porque não me interessava trazer a psicopatia do Brandão logo de cara. Acho que é o que pega bastante na série, e essa era minha intenção, é que fosse desassociada a psicopatia. Quer dizer, existe um risco e existem vários Brandões por aí. É Netflix, é uma série, entretenimento, mas a gente tinha na mão ali a possibilidade de causar reflexão. Acho que isso aconteceu muito por conta de a gente ter ido por essa linha.”

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A parceria em cena com Camila Morgado, como a mulher subjugada e reprimida, foi outra peça fundamental. Camila também está excepcional. Os dois personagens crescem em importância ao longo da trama – Brandão como o psicopata que começa a diminuir o tempo de ataque as vítimas, e também como o marido violento que vai cerceando e isolando cada vez mais a mulher, a ponto de acorrentar portas e janelas; e Janete, como a dona de casa que busca ajuda de Verônica (Tainá Müller), escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo, para sair dessa relação abusiva.

“A ideia de trabalhar com a Camila me dava segurança, porque, quando veio o convite, olhei e não era o Brandão sozinho: tem a construção do Brandão, como o personagem que é meu, mas tem a personagem da Camila, a Janete, e tem um terceiro personagem, muito potente, que é o casal”, disse Moscovis, que trabalhou pela primeira vez com a atriz na série. “Tirando o período em que a gente é visitado pela irmã dela (Janete), somos só nós dois o tempo todo em casa. Então, quando entramos para filmar no nosso cenário, no qual ficamos quase duas semanas, tivemos um tempo de compreensão. Quando entramos, tivemos um ritmo mais lento, de reconhecimento de cenário, de reconhecimento da própria relação. Então, isso tudo facilita muito.”

Sobre o impacto que seu personagem causou no público e o sucesso de Bom Dia, Verônica, desde sua estreia, no dia 1º de outubro, Moscovis acredita que vários fatores contribuíram para isso, como os temas. “São temas que estão muito latentes para a gente. Não tem mais como a gente fechar os olhos, que é a forma deteriorada das nossas corporações, das nossas instituições, já muito decadentes e contaminadas mesmo”, observou.

“A relação do casal é altamente violenta, machista, danosa, e existe um número muito grande de relações assim. Em nossos estudos, uma das coisas que mais me assustaram é que o Brasil, em ranking, é o 5º país mais perigoso para ser mulher no mundo. Isso é assustador, muito triste, mas altamente revelador. Estamos vivendo um momento muito cruel, muito machista, muito retrógrado”, concluiu Moscovis.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*