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Ecos de uma Casa Grande surtada

Uma garota de 17 anos chamada Bruna Sena, pobre, negra, conquistou o primeiro lugar no vestibular de medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto e, com isso, sua história virou matéria de diversos jornais. Assim, o jornalismo foi o primeiro a ser questionado no tribunal da internet. Por que, afinal, destacar a cor da pele e a condição social de Bruna? A segunda indagação surgiu da frase: “a casa grande surta quando a senzala vira médica”, publicada pela garota em uma rede social. Como o critério utilizados pelos jornalistas foi condenado a degola, é importante deixar claro que muitos textos jornalísticos sustentam-se na busca do inusitado, do fora do comum. O caso de Bruna mereceu destaque por uma constatação entristecedora de que negros fazem parte do 1% dos ingressantes no curso de medicina da USP.

A expressão que reconstrói uma casa-grande apavorada pelos avanços da senzala denuncia o incomodo da distância social diminuída entre dois mundos desiguais na luta pela concorrência. Não trata-se de uma elite que arranca os cabelos ou esmurra o sofá por conta do sucesso de uma negra. O desconforto é muito mais sutil e esconde-se atrás do discurso que “somos todos iguais”, “não devemos segregar”. Essas afirmativas negam o passado de séculos de escravidão que depois jogou o negro a margem da sociedade com a expulsão das fazendas diante da abolição da escravatura: sem alfabetização, sem moradia, sem nenhuma política de inclusão para rivalizar os postos de trabalho com os imigrantes que chegavam.

A abolição da escravatura teve seu objetivo humanitário, mas também era uma exigência da Inglaterra – potência mundial dominante – que tinha como finalidade o fortalecimento de uma classe proletária que consumisse e ajudasse a girar o capital. Os primeiros governos da República no Brasil deram ajuda financeira para que grandes fazendeiros mantivessem sua margem de lucro diante dos novos tempos onde tinham que pagar salário para os trabalhadores. Todo esse histórico que destinou o negro a sua própria sorte é rejeitado ou fruto de desconhecimento. Para muitos, o mundo começou a partir do seu próprio nascimento. Desse jeito, não importa o que ocorreu antes na roda da história e festeja-se a igualdade num país desigual e racista. “Nos acostumamos à situação existente no Brasil e confundimos tolerância racial com democracia racial. Democracia significa, fundamentalmente, igualdade social, econômica e política (…) sob a égide da ideia de democracia racial justificou-se, pois, a mais extrema indiferença e falta de solidariedade para com um setor da coletividade que não possuía condições próprias para enfrentar as mudanças acarretadas pela universalização do trabalho livre e da competição”, explica o saudoso sociólogo Florestan Fernandes no livro “O Negro no mundo dos brancos”.

A tentativa de desconstruir a história de Bruna pode até omitir racismo, mas tem, em seu núcleo a marca da indiferença que mantém as estruturas intocadas. Com isso, nega-se o que o outro tem a dizer, e a ironia vira arma para rotular o que se chama de forma pejorativa de “vitimização social”. “Se não existe um esforço sistemático e consciente para ignorar ou deturpar a verdadeira situação racial imperante, há pelo menos uma disposição para ‘esquecer o passado’ e para ‘deixar que as coisas se resolvam por si mesmas’. Isso equivale, do ponto de vista e em termos da condição social do negro e do mulato, a uma condenação a desigualdade racial com tudo que ela representa num um mundo histórico construído pelo branco e para o branco”, lembra Florestan. Mesmo diante da indiferença e da negação, a luta de muitas Brunas discriminadas continua diariamente. Parabéns, Bruna!

 

Fabrício Amorim

Jornalista, especializado em Ciência Política, Mestrando em Ciências Sociais pela PUC-SP

um comentário

  1. Pergunto:A frase dita pela Bruna é discriminatória? E se fosse o contrário teria?

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