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Donald Trump e o aparato de defesa

Recentemente, o governo Trump decidiu ressuscitar no Congresso um debate, iniciado ainda sob a gestão Obama, sobre uma venda de caças da fabricante Lockheed Martin ao Bahrein. Na administração anterior, a pauta fora travada sob a alegação de violações de direitos humanos, cometidas pelo governo destinatário da compra . Apesar de críticas advindas de movimentos de direitos humanos dos Estados Unidos, a proposta deve ser encaminhada ao Legislativo, no qual sofrerá um processo de análise, revisão e votação. Na atual conjuntura, em que a maioria dos assentos legislativos é ocupada por Republicanos, é mais provável que, com a intensificação de pressões do lobby armamentista e mudanças estratégicas no texto a ser debatido, o equilíbrio do jogo de forças se desloque em favor de Trump.

Embora noticiado como um acontecimento isolado, o caso das vendas ao Bahrein deve ser compreendido sob a luz de um cenário mais amplo, que envolve a análise das próprias condutas trumpistas em relação à defesa e à política externa americana. Também sob apreciação legislativa encontra-se, atualmente, a proposta orçamentária do governo Trump para o ano de 2018. Essa última prevê a destinação de um montante de $ 639 bilhões à defesa, representando um aumento de $54 bilhões em relação ao último orçamento submetido por Barack Obama. Os demais setores federais, incluindo educação, saúde e transportes sofreram cortes severos. A diplomacia e a ajuda externa, por seu turno, foram reduzidas em 29%.

Tal opção, – que deve ser encarada como política, e não econômica -, não distancia Trump da história da política norte-americana, de forma geral. A desproporção entre o orçamento das agências relacionadas à defesa e segurança nacional, e aquelas direcionadas à diplomacia tem sido uma tendência, desde a consolidação da máquina de guerra estadunidense, nos anos 1940. Da mesma forma, o presidente, que fora eleito com promessas de tornar o aparato de defesa “grande outra vez”, encontrou amplas demonstrações de apoio entre representantes das Forças Armadas e das companhias militares privadas . Alguns desses últimos exercem, inclusive, cargos de relevância no staff da administração republicana, atualmente.

Assim, o fato de o cálculo de Trump ser influenciado por interesses econômicos ou institucionais domésticos não o torna uma anomalia. Por outro lado, a mensagem que se passa é a de que os EUA adentrarão a mais um período de sua história no qual a defesa, a segurança e o gerenciamento de intervenções militares não serão debatidos seriamente. Em outras palavras, o país continuará a se valer predominantemente da face militar para se relacionar com o mundo, sem, entretanto, oferecer uma estratégia militar concreta para isso. Sobressaem-se, novamente, as motivações econômicas e paroquialistas que movimentam o jogo político estadunidense. Não surpreende, portanto, que prestes a completar cem dias de mandato, a administração republicana não tenha sequer divulgado pistas claras sobre a condução dos teatros nos quais as tropas americanas permanecem inseridas, como Iraque e Afeganistão. Nesse sentido, a elevação dos gastos não se traduz, necessariamente, em melhora do desempenho tático do país que, apesar de possuir o maior investimento militar do mundo, não consegue se ver livre de fantasmas que remontam à derrota no Vietnã.

Como no caso dos caças, a proposta orçamentária deve ainda ser aprovada pelo Congresso, mas muitas vozes têm se mostrado alarmadas pelos possíveis impactos dos cortes nos instrumentos diplomáticos. O secretário de defesa, James Mattis chegou a afirmar que se a ajuda externa fosse cortada, precisaria “comprar mais munição”, indicando uma visão relativamente crítica à propensão demonstrada pelo atual presidente de solucionar problemas não militares com mecanismos militares. Ainda assim, alguns Republicanos consideraram o orçamento proposto para a defesa como insuficiente, em relação às demandas atuais das Forças Armadas. O debate está longe de um encerramento, aparentemente. Mas a população civil permanece fora dele.

De qualquer modo, as ações de Trump, tal qual sua eleição, são reflexo de uma maioria para quem, segundo uma pesquisa recente do índice GALLUP, a instituição militar é, entre as principais instituições norte-americanas, a mais confiável. A de menor confiança, por seu turno, é o Congresso, que vem abaixo de veículos como jornal e a televisão. Trump e seu viés militarista definitivamente não são produtos do acaso, portanto.

Clarissa Nascimento Forner

Mestranda em Relações Internacionais pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC-SP) e pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) e do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais (NEAI).

*O artigo acima reflete as opiniões do autor, e não do Diário Regional. A responsabilidade sob os conceitos e ou opiniões emitidos é exclusivamente do autor.

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