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Desfile no sambódromo tenta manter visibilidade após explosão de blocos

Foto: ArquivoHá 40 anos, o desfile paulistano das escolas de samba se mudou da av. São João para a av. Tiradentes, no centro, porque precisava de mais espaço. Agora, confinado no Sambódromo do Anhembi, na zona norte, e em meio à explosão dos blocos nas ruas, a preocupação é outra: salvar a visibilidade da competição.

A Liga das Escolas de Samba fez algumas apostas. Após polêmicas envolvendo notas e resultados, investiu R$ 1 milhão na contratação de 54 novos jurados, todos estreantes.

O sorteio das 36 pessoas que vão efetivamente julgar os desfiles ocorre horas antes de a festa começar. Os contratados, todos com formação superior na área, recebem um cachê de R$ 3.600.
Para segurar o público, que gira entre 25 mil a 30 mil pessoas por noite de desfile, a Liga congelou o preço dos ingressos. As arquibancadas variam de R$ 90 a R$ 190, valor congelado há três anos.

Estimativas apontam que mais de 80% dos bilhetes foram vendidos de forma antecipada. Historicamente, a lotação completa da passarela do samba somente ocorre nos desfiles da segunda noite.

Durante pelo menos os últimos três anos, o público variou entre 110 mil e 120 mil pessoas, segundo a SP Turismo (empresa ligada à prefeitura), nas cincos noites de desfiles –duas para o Grupo Especial, que começa nesta sexta (24), com a Tom Maior, além das três noites do Grupo de Acesso, do Grupo 1 e do Desfile das Campeãs.

“A visibilidade do Carnaval de São Paulo aumentou muito por causa do crescimento gigantesco dos blocos. Em breve, será o maior do país. Os desfiles das escolas de samba se mantiveram iguais nos últimos três anos”, diz o historiador Bruno Baronetti.

FAVORITISMO

Depois que a Tom Maior apresentar o seu enredo sobre a cantora Elba Ramalho, entrará na avenida uma das grandes favoritas ao título.

A Mocidade Alegre vai comemorar 50 anos cantando: “A vitória vem da luta”.

Se vencer, a escola do bairro do Limão somará seu 11º título, igualando-se à tradicionalíssima Nenê de Vila Matilde, penúltima escola a desfilar na madrugada de domingo (26). O último título da comunidade da Penha é de 2001.

Entre a noite desta sexta-feira e a madrugada de sábado (25) desfilarão ainda Unidos de Vila Maria, Acadêmicos do Tatuapé, Gaviões da Fiel, Acadêmicos do Tucuruvi e Águia de Ouro.

Outra sempre favorita é a Vai Vai, que também só desfila na segunda noite, antes da Nenê. A grande campeã do Carnaval paulistano, com 15 troféus, tem enredo sobre a Mãe Menininha do Gantois.

Mocidade e Vai Vai são os dois grandes exemplos de escolas que souberam combinar a tradição da comunidade com a visão de negócios nas últimas décadas.

Só com o dinheiro público – a prefeitura distribui cerca de R$ 30 milhões para as agremiações– não seria possível colocar o samba na rua, afirmam os dirigentes.

“Ao longo do percurso que as escolas de samba atravessaram, o papel exercido pelo sambista pobre e negro sofreu muitas transformações”, afirma Baronetti.

Mas, de maneira alguma, diz o historiador, os sambistas podem ser vistos como “entreguistas”, que deram o Carnaval para o Estado ou para a classe média e, posteriormente, também para as emissoras de televisão.
Para Baronetti, os sambistas procuraram o caminho da negociação. “Eles viam nas agremiações dirigidas ou fundadas por eles uma oportunidade de sair do anonimato, de alcançar prestígio social, como obter retorno material.”

Nesse contexto, os carros alegóricos e as baterias das escolas ficaram maiores. O samba acelerou. As fantasias ficaram exuberantes.

“A grande mudança da São João para a Tiradentes foi possibilitar um maior número de desfilantes, mais alas. A atração da classe média, que podia pagar mais, melhorou o padrão das fantasias, que passaram a ter materiais melhores e serem mais bem feitas. As alegorias passaram a crescer de tamanho.”

Antes da chegada do atual sambódromo, em 1991, outra figura fez mudar a festa de patamar. “A presença do carnavalesco Joãozinho Trinta na [Unidos do] Peruche mudou de nível a parte visual do Carnaval”, afirma Baronetti.

Em 1968, houve a oficialização dos desfiles, na ditadura, antes da ida para a Tiradentes. A censura e os regulamentos da época impediram que as letras apresentadas na avenida fossem de crítica social, como eram antes.

Os temas passaram a ser históricos ou mais abstratos, como são quase todos hoje.

Quanto à parte musical, segundo Baronetti, a música passou a ficar mais acelerada no início dos anos 1990 –e as letras, maiores.

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