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Desemprego afeta 1/3 das famílias com renda até um salário mínimo

Desemprego afeta 1/3 das famílias com renda até um salário mínimo
No pós-pandemia, emprego com carteira assinada dará lugar a vagas informais e de baixos salários. Foto: Abr

Desde que começou a quarentena para combater o coronavírus, a diarista Izabel Cruz de Oliveira perdeu todas as faxinas que fazia durante a semana. Ela conseguia tirar R$ 800 por mês, dinheiro que bancava os três fi­lhos, sendo o mais novo de um ano. “Com a pandemia, fui dispensada de todas as casas.”

Sem trabalhar, Izabel vive de doações. O pai, aposentado, compra as fraldas do bebê e uma vizinha dá o leite. A igreja também ajuda com outros produtos.

Izabel mora em uma invasão na zona leste da Capital e, por isso, não paga água nem luz. “Nunca vi nada tão assustador como o que estamos vivendo.”

Como na casa de Izabel, o desemprego já bateu na porta de quase um terço das famílias que ganham até um salário mínimo. Segundo pesquisa feita pela consultoria alemã Roland Berger, 30% dos entrevistados nessa faixa de renda dizem já ter, pelo menos, uma pessoa sem emprego em casa por causa do coronavírus, mostra reportagem da edição de ontem (27), do jornal O Estado de S. Paulo.

“Quanto menor é a renda, maior é o impacto da crise sobre essa população mais vulnerá­vel”, afirmou Marcus Ayres, só­cio da consultoria e um dos res­ponsáveis pela pesquisa.

Segundo o consultor, o resultado reflete o efeito da crise nos pequenos negócios, que concen­tram os empregos de menor renda. É um efeito em cascata: a lojinha do bairro fecha as portas, deixa de faturar e demite o balconista, que para de consumir, explica.

O levantamento, segundo o executivo, ouviu 700 pessoas em todo o país nas primeiras semanas de quarentena. “A cada dia que passa a deterioração nos indicadores é maior.”

Para o economista da Ten­dências Consultoria Integrada Thiago Xavier, a deterioração do mercado de trabalho é perversa e rápida. No início da quarentena, o economista previa de­­­semprego de 12,9% ao final deste ano, no cenário básico, e de 14,1%, no pessimista. Nos últimos dias, o cenário pessimista virou o básico e nada garante que as projeções não possam piorar.

Segundo Xavier, o quadro traçado prevê aumento das demissões, dos desalentados e dos vulneráveis. A previsão leva em conta exatamente a participação dos pequenos negócios no mercado de trabalho. “Cerca de 50% dos ocupados (ou 40 milhões de pessoas) estão em empresas com até cinco funcionários”, dis­se o economista. Desse total, 72% estão na informalidade.

Xavier revela que, em pesquisa recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 18,1% dos pe­quenos empreendimentos in­for­maram ter sido obrigados a demitir, em média, três funcio­nários nas últimas semanas.

RESERVA

Outro dado preocupante é a falta de reserva dessa parcela da população. Segundo a pesquisa da Roland Berger, 57% não têm reserva de emergência para se manter sem emprego e outros 14% têm dinheiro para apenas um mês. Apenas 5% têm fôlego para mais de seis meses.

“Para essa fatia da população, o resultado não é surpreendente, mas quando olhamos para famílias com rendas maiores e vemos que também não têm reserva, ficamos preocupados”, diz Ayres, da Roland Berger.

Para ter ideia, quase um ter­ço das pessoas com renda de R$ 5 mil a R$ 10 mil só tem di­nhei­ro para aguentar um mês sem emprego. Ou seja, até a clas­se média não tem como se bancar.

Segundo Ayres, a questão é como recolocar essas pessoas no pós-pandemia. “Podem entrar em um estado de vulnerabilida­de que dificulte até a busca por oportunidades. Isso pode retardar a volta do crescimento.”

Na opinião de Xavier, a retomada – que pode ocorrer entre o terceiro e quarto trimestres – se dará mais em termos de ocupação do que de emprego e renda, já que a crise está acabando com o capital do pequeno empregador. “A retomada será com mais informalidade e renda menor.”

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