Comportamento, Serviços

Atendimento acolhedor é marca do ambulatório DiaTrans em Diadema

A vinculadora do Ambulatório DiaTrans Dandara Santos afirma que o atendimento humanizado faz diferença na vida de cada um. Foto: Dino Santos/PMD
A vinculadora do Ambulatório DiaTrans Dandara Santos afirma que o atendimento humanizado faz diferença na vida de cada um. Foto: Dino Santos/PMD

Um misto de ansiedade e alegria explica o sentimento do auxiliar geral Phillip Maurício Quintella da Silva no dia de sua primeira consulta no Ambulatório DiaTrans, o primeiro Ambulatório de Saúde Integral da População de Travestis e Transexuais de Diadema e do ABC, localizado no Quarteirão da Saúde (QS).

“É uma felicidade que não cabe dentro do peito. Faz três anos que me descobri homem trans e fiz a burrada de tomar o hormônio por conta própria. Não é o correto. Faz um ano que parei e o ambulatório é muito bom para ter acompanhamento. Agora vou fazer tudo certinho”, relata Phillip.

O DiaTrans disponibiliza processo transexualizador, com hormonioterapia, e abre espaço para fala, escuta e acolhimento das demandas dos travestis e transexuais que moram na cidade. Em pouco mais de um mês de atendimento, 60 pessoas já possuem prontuário no serviço.

Isadora Souza de Oliveira também chegou pela primeira vez no serviço e aprovou. “Vim por indicação de uma amiga e me senti muito acolhida. Vai me ajudar muito no processo da transição. São diversos os desafios de viver como uma mulher trans, como colocar uma roupa e sair à rua, ir ao mercado, enfim, muitos constrangimentos que nós passamos. Eu espero que isso mude com certeza, porque nós temos voz, precisamos ser ouvidas. Tem espaço pra todo mundo”, pontuou.

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 1,9% da população no Brasil se reconhece trans e a média de vida dessa pessoa é de 35 anos. A baixa média de vida pode ser explicada também pela violência que esse público sofre. “A gente tem medo do preconceito da rua, tem gente que faz questão de te deixar constrangido. Quando a gente se descobre, geralmente descobre depressão, um monte de coisa que ninguém vê, só no nosso íntimo mesmo. A gente precisa ser visto e ouvido. É o que a gente precisa”, ressalta Phillip.

A vinculadora do Ambulatório DiaTrans Dandara Santos afirma que o atendimento humanizado faz diferença na vida de cada um. “Quem vem ao DiaTrans encontra seres humanos para acolher outros seres humanos. Uma mulher trans veio em busca da hormonioterapia, mas quando ela sentou para conversar comigo, deixou bem claro que isso era secundário na vida dela. Ela precisava de alguém pra ouvi-la, que não discriminasse, não punisse e não violasse os direitos dela”, explica.

 Riscos

Para o tatuador Anthony Hully, encontrar vagas em serviços de saúde para fazer o procedimento de hormonização e transição de gênero é um desafio. “Comecei meu processo em 2015. O principal ganho para a população com o ambulatório é ter o auxílio em saúde básica e acompanhamento adequado para que possamos seguir a transição sem riscos de saúde física e mental”, avalia.

Dandara Santos também trabalha como técnica de prevenção no Centro de Referência em Infecções Sexualmente Transmissíveis (CR IST/HIV, Aids e Hepatites) de Diadema e alega uma situação comum durante o atendimento. “Nesses 14 anos do CR, nós trabalhamos com mulheres trans, já os homens trans eram invisíveis. Com a abertura do ambulatório, a demanda de homens cresceu. Isso é triste porque no acolhimento eu ouço que a automedicação faz parte da vida desses homens”, afirma a vinculadora no DiaTrans. Entre os principais prejuízos para quem faz uso de hormônios sem prescrição médica estão dificuldade de aceitação entre o sonho ideal de corpo e as limitações do processo, efeitos colaterais da superdosagem como risco de embolia pulmonar, trombose e até morte.

“As ações hormonais, tanto para o feminino quanto o masculino, podem ter resultados em até dois anos. Depois desse período é a manutenção desse novo formato corporal. Caso não tenha sido atingido o objetivo completo, aí sim vai ser preciso recorrer a modificações cirúrgicas. Nesse caso, é necessário pelo menos dois anos de acompanhamento de saúde mental, com psicologia e psiquiatria”, esclarece o infectologista, membro do corpo clínico do CR e médico do ambulatório DiaTrans, Dr. Maiky Prata.

Mesmo depois da transição, o cuidado deve ser ao longo dos anos. “Precisa de um acompanhamento prolongado, na verdade por toda a vida, porque os hormônios interferem no metabolismo ósseo, no metabolismo dos lipídios, dos triglicerídios e é preciso acompanhar periodicamente todos esses exames. Não podemos esquecer que são hormônios e podem estressar, a longo prazo, algumas células e ter risco elevado de possibilidade de câncer de mama na mulher trans, risco de câncer de próstata, enfim, todo segmento tem que ser feito. O homem trans, caso opte por retirada de útero e ovários, precisa fazer acompanhamento hormonal  periódico por toda a vida”, acrescenta o médico.

 Ambulatório DiaTrans

A equipe do serviço é formada por uma vinculadora, enfermeira, psicóloga, médico infectologista e assistente social. Quem chega ao DiaTrans passa pelo acolhimento e tem disponível consultas médicas e acompanhamento de outras categoriais profissionais, respeitando as necessidades e especificidades de cada indivíduo com o objetivo de melhorar a qualidade de vida desse usuário. A população trans poderá ser referenciada para tratamento de outras necessidades nas demais unidades que compõem a rede municipal de saúde, dentro da lógica de cuidado integral da saúde. Além disso, a prevenção contra as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) é realizada em parceria com o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), com distribuição de preservativos, uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), da PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV), entre outros.

Toda pessoa que procurar pelo serviço será acolhida, entretanto, jovens entre 16 e 18 anos não podem realizar hormonioterapia. O procedimento é autorizado por lei apenas a pessoas com mais de 18 anos. Crianças e adolescentes até 16 anos serão encaminhados para o Projeto Sexualidade (ProSex), do Hospital das Clínicas, onde tem hebiatria e realiza o acompanhamento desse público.

Durante os acolhimentos, a vinculadora Dandara escuta histórias de vida que sensibilizam. “A maioria das pessoas que eu atendo, em algum momento da vida, teve alguma tentativa de suicídio. Mas eu recebi uma mulher que me marcou muito. Quando eu fiz essa pergunta pra ela, ela me respondeu que, em nenhum momento tinha pensado em suicídio e disse que ama a vida”, destacou emocionada. A fala da usuária é reflexo de um ambiente acolhedor e Dandara garante: “Em Diadema existe um local de escuta, para que as pessoas não tenham receio, que saibam que podem nos procurar. Temos uma equipe para acolher essas pessoas. O DiaTrans está aqui pra acolher todo mundo”.

“O Sistema Único de Saúde (SUS) prega o acesso integral, universal e equânime. Se a gente não dá voz para essa minoria, não é SUS, não é universal. Precisamos garantir o cuidado dessa forma e o ambulatório veio pra isso”, finaliza Dr Maiky.

 Serviço:

Ambulatório DiaTrans

Endereço: Centro de Especialidades Quarteirão da Saúde (2º andar – sala 243). Avenida Antonio Piranga, 700 – Centro.

Grupo de Entrada: quarta-feira, das 13h às 19h.

Telefone: 4043-8093

Contato: diatrans@diadema.sp.gov.br

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