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Associação dos Ex-combatentes do ABC pede socorro

Associação dos Ex-combatentes pede socorro
Kiko: “Preservar a história dos combatentes é preservar importante capítulo da história do Brasil”. Foto: Angelica Richter/Especial para o DR

A Associação dos Ex-combatentes do ABCDMRR corre o risco de fechar as portas ain­da neste semestre. Fundada em 1963, a entidade com sede na Vila Guiomar, em Santo André, vive grave crise financei­ra e enfrenta dificuldades para obter os recursos necessários a sua manutenção, estimados em cerca de R$ 5 mil mensais.

Criada com o objetivo de prestar assistência aos bra­si­leiros que combateram na Segunda Guerra Mundial e a suas viú­vas, a associação abri­­­ga biblioteca e museu mi­li­tar, com acervo composto de cerca de 300 objetos usa­do­s em vá­­rios momentos das forças ar­ma­das bra­sileiras.

O pa­trimô­nio in­clui unifor­­mes, muni­ções, siste­­­ma­­s de comunicação, itens de pri­­mei­­ros so­corros, entre outros. No jardim frontal há armamentos, veículos militares e um avião, além de um busto em homenagem ao Marechal Mascarenhas de Moraes (1883-1968), de autoria do artista Luiz Morrone.

Segundo o presidente Kiko Garofalo, as dificuldades financeiras são antigas, mas se aprofundaram com a pande­mia de covid-19, que tornou escas­sas as locações do salão de fes­tas localizado no segundo pavimento do edifício – o aluguel do espaço é a principal fon­te de renda da entidade.

“Se, até o meio deste ano, não encontrarmos uma fonte de recursos, teremos de fe­char as portas”, disse Kiko, que era corretor de seguros, mas abandonou a profissão para ajudar o pai, Miguel Ga­rofa­lo, em sua passagem pe­la pre­sidência da entidade.

A sede é tombada pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimô­nio His­tórico, Artístico, Ar­qui­­te­tô­ni­co-Urbanístico e Pai­sa­gís­tico de Santo André (Comde­phaapasa), mas a associação não conta com subvenção da prefeitura. A pla­nilha de custos inclui contas de água e energia elétrica, além do salário de um único funcio­nário, que ainda não re­cebeu o 13º referente ao ano passado.

“Preservar a memória dos combatentes é preservar um capítulo importante da história do Brasil. Infelizmente, quem sairá perdendo (com o fechamento) é a cidade, porque o imóvel é tombado, mas o acervo eu posso levar para outro local ou mesmo leiloá-lo”, disse Kiko.

Procurada, a Prefeitura de Santo André informou que não há recursos disponíveis para subvenção, uma vez que as existentes são regidas por legislações municipais específicas. Informou ainda que oportunidades de suporte financeiro poderão ocorrer se a associação participar de editais que a Secretaria de Cultura venha a lançar futuramente.

O museu fica aberto à visitação de segunda a sexta-feira, com entrada gratuita.

ENGAJAMENTO

Além dos problemas financeiros, a associação enfrenta outra dificuldade: a fal­ta de engajamento dos des­cenden­tes dos ex-comba­tentes. Dos cer­ca de 600 soldados que funda­ram a entidade, só qua­tro estão vivos, e são poucos os familiares que participam das atividades e se empenham em manter vivas as memórias dos pracinhas.

“Tem viúva que alega que não frequenta a associação porque, quando chega aqui, se lembra do marido e se emociona demais”, re­­velou Kiko. Atualmente, a entidade tem cer­ca de 30 associados, que pa­gam R$ 70 cada de mensalidade.

Além disso, nem todos os familiares valorizam as peças guardadas por anos pelos ex-comba­ten­tes. “Infelizmente, já encon­tra­mos em ferros-ve­lhos me­da­­­lhas e peças da Segunda Guer­­­­ra que as viúvas jogaram fo­ra depois que seus maridos mor­­reram”, lamentou o presidente.

Kiko é uma das poucas exceções. “Mesmo sem ser militar, eu me considero mais militar do que muitos militares”, brincou. Seu pai, Miguel Garofalo, participou da famosa Batalha de Monte Castello, em 1944, no Norte da Itália, onde foi feri­do nas costas e nos braços pelas tropas alemãs de Adolf Hitler.

Morador de Santo André, Miguel Garofalo presidiu a associação por quase duas décadas, mas está afastado das ati­vidades. No início deste mês, aos 99 anos, foi vacinado contra a covid-19. Em respeito e home­nagem ao pai, Kiko não usa a mesa da presidência. “Só me sentarei ali quando o seu Miguel morrer”, garantiu.

A associação iniciou suas ati­­vidades em São Caetano, mas se mudou para Santo André depois que a prefeitura cedeu, em 1976, o terreno na Vila Guiomar para a cons­trução da sede, que só foi concluída em 1988. O museu, por sua vez, foi inaugurado quatro anos depois.

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