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Arlindo Chignalia: ‘o Bolsonaro, que vive de continência, não bate continência para o povo’

Chignalia: “Bolsonaro não foi omisso. Ao contrário, atuou contra o isolamento social e a máscara”. Foto: Arquivo/Agência Brasil
Chignalia: “Bolsonaro não foi omisso. Ao contrário, atuou contra o isolamento social e a máscara”. Foto: Arquivo/Agência Brasil

O deputado federal Arlindo Chignalia (PT/SP) é defensor da proporcionalidade, do presidencialismo e do financiamento público de campanha. O petista afirmou, ao Diário Regional, que o Brasil tem a péssima mania de a cada processo eleitoral inventar uma reforma. O parlamentar esteve em Dia­dema para visitar o educador e pré-candidato a deputado estadual Renato Moreni (PT).

“Entendo que a proporcionalidade, o presidencialismo e financiamento público de campanha são três pilares importantes na estrutura de poder. Por que a proporcionalidade? Porque se você vota do distrito, não vai ter a proporcionalidade representada no Congresso Nacional. Os Verdes, na Alemanha, chegaram a ter quase 20% e não chegaram a ter um representante Parlamento. Tentaram implementar o Distritão, felizmente, conseguimos impedir. O preço disso, mas acho que valeu à pena, que apoiamos na Câmara para que houvesse a coligação na proporcional. Não é o que PT defende, mas entre isso e o Distritão, escolhemos reduzir danos”, afirmou.

O deputado destacou, em relação ao novo Código Eleitoral – aprovado na Câmara Federal e à espera de análise no Senado -, que votou pela quarentena de juízes, promotores e polícia. O parlamentar embasa seu voto no fato de que a história recente do Brasil demonstra que os agentes do Estado utilizam da função para angariar votos.

“O (Sergio) Moro está aí para pro­var isso. O próprio presidente (Jair) Bolsonaro (sem partido), que visitava quartéis e não poderia está aí para provar isso, ainda que já tivesse na reserva. Entendo que o aprimoramento do processo democrático é permanente. Agora, mudança nas regras a todo o momento não acho. Pequenas ou poucas, são, como dizem ‘o pirão é pouco, o meu prato primeiro’. É muito na linha de fazer mudança para se beneficiar.”

Ao fazer análise das manifestações de 7 de setembro, Chignalia afirmou que Bolsonaro conseguiu uma grande mobilização, mas menor do que anunciavam. Para o petista, o caráter golpista que o presidente imprimiu o levou a mais uma desmoralização, dado que se sentiu obrigado a fazer uma “carta desdizendo tudo o que ele tinha falado”. “A dúvida que persiste, e acho que é geral, é em que medida vai manter esse recuo e vai, de fato, respeitar a constituição. Não avalio que tenha liderança para aplicar um golpe, mesmo porque não tem apoio na sociedade para isso”, ressaltou.

Quanto à participação do ex-presidente Michel Temer (MDB) na “mea-culpa” de Bolsonaro após declarações inflamadas contra os integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) nos atos de 7 de setembro, o petista afirmou que apesar das poucas informações, acredita que essa relação não começou nesse episódio.

“Entendo que deve ter um tipo de cumplicidade suficiente para Bolsonaro procurá-lo nessa hora de crise do governo. Ficou público que foi o Temer quem deu a redação (da carta), mas isso é um elemento a mais: Bolsonaro não confia em seus ministros. Mostra que o candidato dele ao Supremo não é suficiente para tirá-lo da sinuca em que se meteu.”

Outra ação que provocou polêmica neste mês foi a tentativa de Bolsonaro mudar as regras do Marco da Internet às vésperas de 7 de setembro. “A medida provisória (MP) era totalmente anticonstitucional. É uma aberração. O Bolso­naro quer legalizar a fake news, a mentira. Que a calúnia não tenha a menor consequência”, pontuou.

CENÁRIO POLÍTICO

As pesquisas de intenção de votos mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente de Bolsonaro, que conta com 23% (segundo pesquisa Ipec divulgada na última quarta-feira). Chignalia afirmou que é difícil entender como Bolsonaro ainda tenha cerca

de 24% de apoio da população.
“Inflação, desemprego e, pior do que isso tudo, a forma como ele conduziu a pandemia. Bolsonaro não foi omisso. Ao contrário, atuou contra o isolamento social, contra a máscara e contra a vacina. Omitiu dizendo que era uma gripezinha. São atitudes que demonstram que apostou na chamada imunidade de rebanho, irresponsavelmente, como é próprio dele.

As únicas áreas que vão bem são o agronegócio e os grandes grupos empresariais. O Bolsonaro que vive de continência, não bate continência para o povo. Porém, para o grande empresariado, com certeza, bate”, destacou.

O deputado descartou preferência por Lula disputar as próximas eleições presidenciais com Bolsonaro. Para o petista, a melhor maneira de o PT construir a vitória do Lula é fazendo a defesa do que é melhor para o país e, segundo o deputado, “não há como imaginar que o Bolsonaro é o melhor para o Brasil”.

Conforme o deputado, pou­ca coisa mudaria no caso de impeachment Bolsonaro ser substituído pelo vice, Hamilton Mourão (PRTB). “Ambos representam o mesmo projeto.

Entretanto, o Mourão entraria bem mais enfraquecido e, portanto, sujeito a negociação para que seja um governo civilizado, coisa que o Bolsonaro não é”, pontuou.
Entretanto, Chignalia des­tacou que se ocorresse o impeachment, o PT entraria em 2022 mais forte. “Só se consegue o impeachment de um presidente com mobilização de rua. O processo político seria infinitamente mais rico e mais contundente, portanto, a nosso favor. Dificilmente os partidos, que vamos chamar de centro-direta, se beneficiariam do impeachment.”

CENTRÃO

Em relação da aproximação de Lula dos partidos de Centro, o deputado afirmou que não existe política sem diálogo e que é importante a conversa para se ganhar a eleição e para governar. “Lula fez um governo que enfrentou a crise de derivativos (de 2008), uma das piores da economia mundial. Colocou os bancos públicos para financiar a indústria, serviços, tudo que necessitou, porque até então banco privado não colocava dinheiro. Portanto, acho importante ele conversar não só pelo passado, mas pela realidade presente. Se somos favoráveis ao processo democrático temos de respeitar quem pensa diferente. Por tudo que passou, o Lula, especificamente, está demonstrando algo muito relevante: que não tem um perfil vingativo. Nós já sabíamos disso, mas ele está demonstran­do mais uma vez”, afirmou.

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