Arte & Lazer, Literatura

Alpharrabio: movido pela ansiedade

Alpharrabio: movido pela ansiedade
Dalila: “Quem já não valorizava a cultura e o conhecimento agora se sente avalizado pelo governo”. Foto: Anderson Amaral/Especial para o DR

“Não somos movidos a metas, como uma li­vra­ria convencional. Somos movidos a ansiedades.” É assim que a escritora e editora Dalila Teles Veras, 74 anos, descreve o Centro Cultural e Livraria Alpharrabio (Rua Eduardo Montei­ro, 151 – Jardim Bela Vista, Santo André), que co­memora 28 anos de existência amanhã (21).

Fundado por Dalila em 1992, o Alpharrabio nasceu como sebo, com acervo de 2 mil títulos, mas não se limitou à venda de livros e se tornou um espaço de fomento à arte, especialmente a literatura. É um ponto de encontro para escritores, mú­sicos, professores e, principalmente, leitores ávi­dos pela troca de ideias. Ali foram rea­­lizadas milhares de manifestações artísticas e culturais, entre debates, lançamentos de li­vros, exposições e espetáculos teatrais.

Em entrevista ao Diário Regional, Dalila destaca que o Alpharrabio é um espaço de pertencimento em tempos bicudos para a cultura no Brasil. “O debate da cultura e do pa­norama político nacional já é, por si só, um fato político e de resistência – assim será até que alguém entre aqui e suma com a gente”, afirma a escritora, para quem o go­verno de Jair Bolsonaro (sem partido) trouxe de volta a censura ao país.

O acervo da livraria conta atualmente com 7 mil títulos e as vendas ocorrem, em sua mai­oria, no site Estante Virtual. Porém, o que mais orgulha Da­lila é seu braço editorial, o Alpharrabio Edi­ções, que já publicou mais de 160 títulos de cerca de 50 autores, a maioria do ABC.

Entre os nomes já publicados figuram Fabiano Calixto, Alexandre Takara, Antonio Pos­sidonio, Tarso de Melo e a própria Dalila.

Para comemorar a data, o centro cultural realizará no sábado (22), a partir das 11h, encontro festivo com a participação de autores de seu catálogo, artistas e leitores. Também será aberta exposição inspirada na música O Que Será (À Flor da Pele), interpretada por Chico Buarque e Milton Nascimento. Chamada À Flor da Pele, a instalação leva a assinatura de Luiza Maninha com a colaboração do poeta andreense Zhô Bertholini. A entrada é gratuita.

A programação de aniversário começou no início de fevereiro com a realização do Sábados PerVersos, que exibiu documentário sobre João Cabral de Melo Neto; e o lançamento dos livros Um quarto escuro e outras embarcações, de Conceição Bastos, e Rastros, de Tarso de Melo.

GRUPO LIVRESPAÇO

O Alpharrabio nasceu como suporte ao Grupo Li­vrespaço, fundado nos anos 1980 por Dalila e que tinha como objetivo formar leitores de poe­sia. O grupo se notabilizou pela intensa atividade cul­tural no ABC entre 1982 e 1993, publicando livros e promo­vendo recitais, semanas cul­turais e oficinas, inclusive, nas escolas de Santo André.

Dalila também foi uma das editoras da revista literária Livrespaço, que circulou nacional e internacionalmente de 1992 a 1994 e ganhou o prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 1993. Leia, a seguir, trechos de entrevista:

 

Como é produzir e disseminar cultura em meio à guerra cultural em curso no país?

Atualmente, a cultura é um ponto desprezado pelas políticas públicas. Temos achismos, pessoas que acreditam que a terra é plana, essas coisas. Então, quem já não valorizava o conhecimento e a cultura agora se sente avalizado por um governo empenhado em desmontar todos os programas ligados à cultura e à educação. Pertenço a uma geração que viveu a ditadura militar, mas entendo que a situação é bem pior hoje. Naquela época só existia TV. Hoje, há amplo e fácil acesso à informação, mas também somos bombardeados diariamente por fake news.

Nesse cenário, espaços de discussão como o Alpharrabio são fundamentais. Aqui, por exem­plo, mantivemos durante dez anos o Fórum Permanente de Debates Culturais, que discutiu todas as políticas públicas do ABC. Às vezes me pergunto: ‘Isso resolve?’ Claro que não, mas só o debate da cultura e do panorama político nacional já é, por si só, um fato político e de resistência – até que alguém entre aqui e suma com a gente, porque não vivemos mais no Estado democrático de Direito. Infelizmente, a censura veio e ficou.

Há certa apatia na classe artística?

Sim, mas os artistas têm se mobilizado, principalmente os de fora do país, que estão perplexos com o que está acontecendo. Cabe a nós, que lidamos com a palavra, usá-la e estabe­lecer massa crítica nas pessoas. Temos mantido programação que preserva, viva, a crítica em forma de resistência. Eu, particularmente, uso as redes sociais para me expressar e não me calei em nenhum momento dessa trajetória.

O Grupo Livrespaço surgiu em 1983, em meio ao processo de redemocratização do país, em um momento de grande efervescência cultural. Haveria condições para o surgimento desse movimento hoje?

Não. Os acervos do Fórum Permanente e do Livrespaço – que, aos poucos, estão indo para a UFABC (Universidade Federal do ABC) – mostram que essa atividade fez parte intrinsecamente daquele momento, e a história não se repete. Talvez como farsa, como disse Karl Marx. Vejo com muita simpatia as candidaturas coletivas, como algumas criadas na Capital. Acho que dali pode surgir algo novo em termos de conscientização e mobilização, porque esses grupos não se limitam a fazer política dentro das Câmaras. Todos têm voz.

Paralelamente, vejo muita apatia na classe média, que apostou em um projeto que não deu certo. Por isso, se surgir algo novo na área cultural, este virá da periferia. Há incontáveis saraus nos quais os participantes não se limitam a contar poemas. Participei de alguns deles, inclusive no ABC, nos quais são discutidos assuntos como racismo e feminismo. O Centro está apático, talvez porque a água ain­da não tenha chegado ao seu umbigo.

Há 12 anos, em entrevista concedida ao Diário Regional, a Sra. disse que sonhava com a retomada do Grupo Livrespaço. O que fez mudar sua opinião?

A gente até tentou, e foi naquela época que surgiu o livro (Seduzir para a poesia: trajetória do Grupo Livrespaço 1983-1994). Porém, achei mais interessante registrar aquela história para que, inspirados nela, outros grupos se formem. Não vejo condições de o Livrespaço, nem do Fórum, nem do Gipem (Grupo Independente de Memória), dos quais participei, voltarem. É a hora de surgir algo diferente, com outras características.

No ABC, que políticas públicas na área da cultura a Sra. destacaria?

Neste momento, vejo uma única Secretaria de Cultura efetivamente preocupada em formular políticas públicas para a área no ABC: a de Santo André (comandada por Simone Zárate), apesar de contar com recurso quase zero e de os artistas se apresentarem praticamente de graça. Simone é uma das fundadoras do Fórum, é preparada e tem vivência. Nas demais cidades não vejo isso, apesar de algumas prefeituras serem comandadas pelo mesmo partido do prefeito Paulo Serra (PSDB).

Nesse ambiente de falta de recursos, como a Sra. avalia a produção cultural no ABC?

Como escritora e editora, acompanho aten­tamente o que se escreve em todo o país e considero incrível a potência da literatura que se faz atualmente no Brasil, talvez como reação das artes à atual situação do país. No ABC não é diferente. Temos, por exemplo, o ativista e escritor Jairo Costa, que tem uma editora (Estranhos Atratores) bem underground e que publica revista (Mortal) com matérias incríveis sobre a cena independente do ABC, reunindo pensadores, rappers. Temos também o (poeta) Neri Silvestre, que mantém há anos o coletivo Sarau da Quebrada e, agora, deve lançar uma candidatura coletiva. Também temos músicos excelentes.

Depois que o Fórum Permanente encerrou suas reuniões, em 2017, que atividades o Alpharrabio tem realizado?

Temos feito debates temáticos, de preferência quando é lançada alguma obra. O jornalista Eduardo Reina, por exemplo, lançou dois livros importantes sobre desaparecimento de crianças na ditadura e esteve aqui duas vezes, com grande interesse do público. Recentemente, publicamos um livro da escritora Conceição Bastos, de Mauá (Um Quarto Escuro e Outras Embarcações). Dentro dos projetos fixos, temos desde 2014 encontro mensal chamado Sábados PerVersos, que visa ler e discutir a poesia brasileira. A cada encontro, um coordenador diferente tem liberdade para trazer um poema ou uma obra instigante e colocá-lo em discussão.

Como o Alpharrabio sobrevive num momento em que livrarias como Saraiva e Cultura, as maiores do país, estão em crise?

Não sobrevive. O Alpharrabio é uma casa deficitária mantida por mim, pela minha família e pelo voluntariado de minha cunhada (Luzia Maninha). Quando fundamos a livraria, a ideia era que garantisse a sustentabilidade do espaço cultural, e foi o que aconteceu. Infelizmente, dois espaços de fomento à cultura como o Alpharrabio fecharam as portas no início deste ano em Santo André: o Gambalaia, casa por onde passaram grandes nomes da música e do teatro, e a Casa da Lagartixa Preta, que se dedicava ao estudo do anarquismo. Se o proprietário precisa sobreviver do espaço e não tem uma família que possa bancar o prejuízo, acaba fechando. É como muita tristeza que a gente assiste a isso. Felizmente, aqui a gente não paga aluguel, mas paga um IPTU absurdo.

Além da condição financeira privilegiada, há outras explicações para a longevidade do Alpharrabio?

Paixão, determinismo que a gente não sabe de onde vem. É de minha natureza estar junto das pessoas. Sou ativista cultural e tenho apoio de minha família, que não me considera maluca por gastar dinheiro no trabalho ao invés de receber. Não somos movidos a metas, como uma livraria convencional. Somos movidos a ansiedades.

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