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Admir Ferro: ‘Rio Grande da Serra é uma cidade quase ingovernável’

Admir Ferro: ‘Rio Grande da Serra é uma cidade quase ingovernável’
Ferro: “Administrar o município sem a Câmara é muito difícil”. Foto: Angelica Richter/Especial para o DR

O ex-vereador de São Bernardo Admir Ferro (PSDB) tocava seus dois negócios e parecia afastado da política, mas recebeu em julho convite intermediado pelo prefeito Orlando Morando (PSDB) para assumir a Secretaria de Educação de Rio Grande da Serra. Três semanas depois, Ferro deixou a pasta para se transformar no “bombeiro” do prefeito Claudinho da Geladeira (PSDB), alvo na Câmara de dois processos de impeachment e de um pedido de afastamento, aprovado pelos vereadores e derrubado no dia seguinte na Justiça. Sua nova missão é restabelecer a governabilidade de Claudinho no Legislativo. Em entrevista ao Diário Regional, Ferro reconheceu que Rio Grande é hoje uma cidade “quase ingovernável” e avaliou que é muito cedo para a classe política do município pensar em interesses eleitorais. “Não há ganho político para ninguém”, afirmou. Leia os principais trechos da entrevista:

O Sr. assumiu a Secretaria de Educação em agosto, mas foi deslocado para a articulação do governo em meio à grave crise com a Câmara, que quase custou o mandato do prefeito Claudinho da Geladeira (PSDB) no mês passado. O Sr. já passou por alguma si­tuação parecida antes?
Não. Em 2003, o então prefeito de São Bernardo Maurício Soares (1939-2021) renunciou no meio de seu terceiro mandato, mas não houve trauma. William Dib (então no PSDB, atual­mente sem partido) assu­miu, fez algumas mudanças, mas eu (então secretário de Educação) per­maneci na administração. Foi inesperado, mas não foi rom­­pimento, porque o Maurí­cio sempre esteve por perto. Agora, crise igual a essa nunca vivi.

Que avaliação o Sr. faz da crise? Acha que já se dissipou?
É difícil avaliar, porque não estava aqui. Quando cheguei, o rompimento (do prefeito com Carlos Augusto César, o Cafu, o que desencadeou a crise) já havia ocorrido, tanto que vim para substituir a Penha (Fumagalli, PTB, vice-prefeita e ex-mulher de Cafu) na Educação. Eu estava afastado (da política), tocando minha imobiliária, quando o Clau­dinho falou com o Orlando (Morando, PSDB, prefeito de São Bernardo), porque estava preocupado com a Educação. Não sei como aconteceu, mas meu nome surgiu e Morando refe­rendou minha vinda para cá.

Porém, com 20 dias percebi que não havia problemas só na Educação, mas em todas as secretarias, que estavam paralisadas porque as licitações não andavam, não saiam da (pasta de) Administração. Aí, descobri que meu esforço na Educação de nada serviria se aquela situação não mudasse. Paralelamente, a crise política piorou e o Claudinho perdeu a maioria na Câmara. Foi então que o prefeito me pediu para assu­mir a Se­cretaria de Governo, e a Jumara (Bulha), que eu trouxe de São Bernardo para ser adjunta, assumiu a Educação.

Administrar o município sem a Câmara é muito difícil. Recentemente, a oposição adiou por três sessões a votação de três projetos de interesse da cidade. Por quê? O município já está quebrado, aí você sabota as ações e fica mais difícil. Não te­nho nada contra os vereadores, até porque não conheço a mai­oria deles. Porém, tenho dito que quem perde com essa bri­ga é a população e não há ga­nho político para ninguém.

O Sr. vê possibilidade de pacificação, de o prefeito retomar a governabilidade?

Sim, porque não dá para brigar em uma cidade pequena como Rio Grande da Serra, quase totalmente situada em área de manancial, com orçamento pequeno e sequestro de receita por conta de precató­rios. A cidade está quase ingo­vernável. Porém, sinto no contato com os vereadores que não houve nada incontornável. Não ve­jo nos nove que votaram pelo afastamento do prefeito o desejo de (dar um) golpe na cidade. Talvez um grupo pequeno, de dois ou três, comungue a ideia de mudar o governo, até orientado por gente de fora, mas os demais aderiram aos poucos, por conta de desentendimentos, até chegar aos nove. Ocorre que o que fizeram é ilegal, o afastamento é ilegal – tanto é que, com um mandado de segurança simples, o Claudinho voltou em menos de 24 horas.

No retorno ao comando do Paço, Claudinho reco­nheceu em entrevista coletiva que faltou diálogo com os vereadores. O Sr. detectou esse problema?

Não sei dizer (se faltou diá­logo). Às vezes há desentendimentos históricos que geram ressentimento, mágoas que se agravam com o momento. Po­lítica tem muito disso. Po­rém, a população não gosta de briga, porque sabe que será a principal prejudicada. Também perdem os detentores de mandatos – os dois lados, tanto o governo como a oposição, tanto o Exe­cutivo como o Legislativo. Só quem pode se beneficiar dessa crise é uma eventual terceira força. É muito cedo para pensar em interesses eleitorais. Por isso, tenho trabalhado muito na pacificação, em abaixar a fervura (da classe política da cidade).

O Sr. tem boa interlocução com o governo do Estado. Que demandas já levou ao Pa­lácio dos Bandeirantes e no que foi possível avançar?
Tenho comentado com os vereadores, inclusive os da opo­­­sição, que a cidade tem ho­je uma oportunidade única, por­­que o Estado abriu as portas para Rio Grande da Serra como nunca ocorreu. A cidade conseguiu do Estado a nova estação (da CPTM), o terminal rodoviário, as intervenções na SP-122 (rodovia que liga o município a Ribeirão Pires). Também estive com o secretário estadual de Educação (Rossieli Soares), com quem estamos trabalhando no projeto de municipalização do Ensino Fundamental. Provavelmente é um apoio que a cidade nunca teve. Porém, se começar essa brincadeira de “tira prefeito, põe prefeito”, os projetos não irão para frente.

Como o Sr. encontrou a Se­cretaria de Educação?

A situação era muito ruim. O primeiro documento que encontrei na mesa do secretário de Educação foi a resposta a um questionamento do Ministério Público sobre por que a cidade ainda não havia retomado as aulas presenciais, mesmo que par­cialmente. Aí percebi que não havia contrato para merenda escolar, não havia insumos necessários para o cumprimento dos protocolos sanitários e as escolas tinham reformas em andamento. Por isso tivemos de adiar a retomada das aulas. Outro problema que encontramos é que o Tribunal de Contas do Estado (TCE) identificou que a gestão anterior não investiu 25% do orçamento na Educação, como determina a Constituição, porque não municipa­lizou o Ensino Fundamental.

Além da crise política, qual é a principal dificuldade enfrentada pela atual admi­nistração?

Os precatórios (dívidas judiciais, com estoque estimado em cerca de R$ 45 milhões). Precisamos buscar um caminho, seja por meio de renegociação, seja obtendo financiamento de longo prazo. Do contrário, vamos trabalhar apenas para pagar preca­tórios e a margem para investimentos no orçamento, que é naturalmente muito pequena, vai virar zero.

Este é o maior desafio de sua carreira política?
Minha carreira política é cheia de desafios. Na Secretaria de Educação de São Bernardo, por exemplo, herdei a rede municipal com 23 mil alunos e saí de lá (depois de três gestões) com 90 mil. Construímos o Cenforpe (Centro de Formação dos Profissionais da Educação), erguemos 57 escolas e municipalizamos outras 38. Outro desafio foi a Prodesp (Companhia Estadual de Processamento de Dados, que gerencia o Poupatempo). Quando assumi, o Geraldo Alckmin (PSDB, então governador) tinha a meta de construir 29 Poupatempos – que normalmente são erguidos em parceria com as prefeituras, que cedem as áreas. Porém, com o mesmo valor previsto, inaugurei 40. Além disso, implementei algo mais importante, que é o agendamento pela internet, que diluiu ao longo do dia o atendimento antes concentrado em alguns horários. Agora, encaro um desafio di­ferente, em um município pe­queno, com poucos recursos, em uma situação política adversa, mas estou feliz aqui.

O Sr. concorreu a uma cadeira na Câmara de São Bernardo no ano passado, mas não obteve sucesso. Está no seu radar disputar eleições novamente?

Não. No ano passado eu já não queria, mas o Orlando insistiu muito para que eu fosse candidato, disse que era importante para o grupo. Eu con­tava com minha base eleitoral, que está na área da educação, para me eleger. Porém, não contava com a pandemia. Quando os indicadores da covid-19 caíram, todas as atividades reabriram, exceto as escolas. Aí consegui mo­bilizar os formadores de opi­ni­ão, mas não minha base. De qualquer forma, acho que já dei minha contribuição à Câmara.

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