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Ação de Doria para demolir imóvel deixa feridos na cracolândia

Com a retirada do viciados em crack da região da Luz centro , outros locais como Praça Princesa Isabel é a nova” Cracolândia” com centenas de usuários de drogas na cidade e também em outros locais do centro. Foto Alan White / Fotos PúblicasTrês pessoas ficaram feridas na tarde desta terça (23) durante uma ação da gestão João Doria (PSDB) para demolir imóveis na região da cracolândia, no centro de São Paulo. As vítimas foram levadas a hospitais da região com ferimentos leves.

Uma escavadeira da prefeitura deu início à demolição de uma pensão da alameda Dino Bueno, em Santa Cecília, por volta das 14h, com moradores ainda dentro. As demolições fazem parte da ação da gestão tucana na região após operação policial do governo do Estado de domingo (21).

Doria chegou a passar pela cracolândia para promover as ações da prefeitura, mas deixou o local logo após a queda do muro.

“Vou pedir para verificar. Estamos tomando o cuidado de retirar todas as pessoas dos imóveis e abrigá-las em áreas próximas e outras nem tanto. Evidentemente há pessoas que insistem em permanecer, mas temos o cuidado de retirá-las. Ainda não tenho informações, pedi para os técnicos verificarem”, disse o prefeito.

A administração municipal confirmou em entrevista coletiva, já por volta das 16h30, que os moradores ficaram feridos por conta da ação da prefeitura. “Não sei o que aconteceu, nem sei se aconteceu alguma coisa. Só sei que os bombeiros estão aqui”, disse Felipe Sabará, secretário de assistência social logo após a queda parcial do imóvel. Ele entrou no carro e foi embora.

Os bombeiros não informaram para quais hospitais as vítimas foram encaminhadas, mas a Secretaria Municipal de Saúde confirmou que uma delas foi atendida no pronto-socorro Barra Funda. Ela não tinha ferimentos graves e foi liberada após ficar em observação.

Horas depois, três secretários municipais deram uma entrevista para justificar o acidente. Segundo Marcos Penido, da pasta de Infraestrutura e Obras, a prefeitura não sabia que havia pessoas dentro do prédio.

“Essas pessoas entraram por uma passagem clandestina. Foi uma situação inusitada. Daqui para frente, tomaremos medidas adicionais para evitar que isso ocorra novamente”, afirmou.

Segundo ele, a prefeitura havia avisado que a área estava isolada e que as demolições iriam começar. Moradores do prédio contestam. “Ninguém avisou. Eu estava no quarto e ouvi um barulho de obra. De repente, começaram a gritar, falando que tinha gente machucada”, conta Alessandra Feliciano, 23, que mora com o filho de 10 meses na pensão.

CONFUSÃO

No final da tarde, uma denúncia de que haveria pessoas armadas entre os dependentes químicos e moradores de rua que se concentravam na praça Princesa Isabel, provocou um princípio de tumulto na região.

Policiais militares cercaram o grupo em uma tentativa de revistar e identificar os supostos traficantes, mas centenas deles acabaram deixando a praça e tentando retornar para a alameda Dino Bueno, onde ficava o “fluxo” antes da ação de domingo.

Impedidos de retornar para o local, usuários de droga se revoltaram, virando caçambas de lixo. A polícia então respondeu com bombas de efeito moral.

Após a confusão, os dependentes químicos retornaram para a praça Princesa Isabel, onde permaneciam sob observação policial, no início da noite. A PM afirmou que não fará revista no local durante a noite por questão de segurança.

O clima de insegurança, porém, persistia na região, favorecido pela iluminação precária da praça. A duas quadras, no quadrilátero que até domingo abrigava o fluxo de comércio e consumo de crack, a situação era oposta, com patrulhamento ostensivo e crianças brincavam na rua.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que não houve feridos ou detidos no episódio do fim da tarde e, que a PM continua ocupando a região com a GCM, para “manter a ordem nas imediações e apoiar as equipes municipais e estaduais de saúde e assistência social destacadas para complementar as ações de acolhimento e tratamento dos dependentes químicos”.

Conforme a nota, o policiamento na cracolândia e entorno ganhou reforço de 80 policiais militares, além dos 120 PMs que já atuam regularmente na área.

INTERDIÇÕES
Também nesta terça, a gestão Doria começou a fechar estabelecimentos comerciais na cracolândia, com funcionários da prefeitura construindo muros na porta de bares das ruas Helvetia e Dino Bueno, quarteirão onde usuários de crack ficavam aglomerados.

Ao menos dois bares foram lacrados antes mesmo que os proprietários tivessem tempo de retirar seus pertences e produtos.

Foi o caso da comerciante Magnólia Porto Coutinho, 45, que tem um bar na rua Helvétia há quatro anos. “Um guarda entrou, disse que eu não tinha extintor e, por isso, seria fechado. Não deram tempo de eu tirar nada”, diz.

Dentro do imóvel, ficaram freezers, geladeiras, fogão e alimentos que seriam usados para a produção de marmitas. “O guarda só disse assim: ‘se vira’. Eles acham que todo mundo aqui é bandido, é viciado,. Não é assim, aqui também tem gente honesta e trabalhador”, relata Magnolia. Ela pagava R$ 900 de aluguel pelo imóvel.

Já na rua Dino Bueno, o comerciante Magno Lima, 36, passa por situação parecida. Guardas civis estipularam um prazo de duas horas para que ele retirasse todos os materiais de seus dois bares na via.

Depois do prazo, o estabelecimento seria lacrado com um muro. Funcionários da prefeitura disseram que o local tem instalação elétrica irregular e uso inadequado de botijão de gás.

Por volta das 12h30, o tempo de Magno estava se esgotando. Ele chorava, sem saber o que fazer. “Minha família depende de mim. Como vou tirar tudo isso em duas horas?”.

Um guarda civil metropolitano se aproximou do comerciante e da reportagem da Folha. Perguntou: “Já chegou o caminhão? Tem que tirar tudo”, disse. Magno questionou o motivo, e o agente respondeu: “Não posso fazer nada, são ordens da prefeitura”.

No quarteirão, há diversas pensões. Nesta manhã, crianças e moradores não sabiam se seria despejados ou não.

As interdições da prefeitura foram criticadas pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que enviou defensores à cracolândia. “Até o momento não foi informado para a Defensoria qual será a política habitacional direcionadas a essas pessoas. Há pensões com 20 famílias em situação de vulnerabilidade e de insegurança”, afirmou Rafael Faber, coordenador do núcleo de habitação e urbanismo da Defensoria.

“É estranho uma operação como essa. Do dia para noite começam a fechar todos os comércios da região. São pessoas que estão estabelecidas há muito tempo”, disse o defensor.

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