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Dólar sobe 1,92% e Ibovespa cai 2,75% com ameaça à regra do teto de gastos

Dólar sobe 1,92% e Ibovespa cai 2,75% com ameaça à regra do teto de gastos
No fim da sessão, o dólar era negociado em alta de 1,92%, a R$ 5,6676, maior valor desde 14 de abril. Foto: Marcello Casal Jr./ABr

O mercado doméstico de câmbio foi atingido nesta quinta-feira (21) pelo o que analistas costumam chamar de tempestade perfeita. Aos sinais inequívocos de que o governo Jair Bolsonaro (sem partido) está disposto a driblar o teto de gastos, na tentativa de se cacifar para a corrida eleitoral, somou-se nesta quinta uma onda de fortalecimento global da moeda norte-americana que castigou divisas emergentes.

Em meio ao azedume com o aumento do risco fiscal, o dólar à vista iniciou o dia em forte alta, rompendo o teto de R$ 5,65 logo nos primeiros minutos do pregão. Era evidente o mau humor com declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, dada na quarta à noite, de que o governo pode pedir uma “licença para gastar” além do que o teto permite para bancar o Auxílio Brasil. Considerado outrora como fiador da austeridade fiscal, Guedes disse que a “política é quem decide”, admitindo a perda da queda de braço no Palácio do Planalto.

“Guedes perdeu a credibilidade do mercado com uma série de decisões, como a taxação de dividendos, o aumento do IOF, a questão dos precatórios, que representa um calote, e agora o rompimento do teto. Não tem mais condições de ancorar as expectativas do mercado”, disse o head de câmbio da Acqua-Vero Investimentos, Alexandre Netto.

O ministro da Economia também deixou escapar na quarta que o governo trabalhava com a mudança no cálculo do teto de gastos – uma manobra com cheiro de “contabilidade criativa”. Reportagem exclusiva do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) revelou nesta quinta à tarde que as alas política e econômica haviam chegado a um acordo para alterar a fórmula do teto – o que, aliada à limitação do pagamento de precatórios, abriria folga de R$ 83,6 bilhões no Orçamento.

Foi o que bastou para que o dólar, que havia arrefecido um pouco o ímpeto altista, voltasse a acelerar. O caldo entornou de vez com declarações do presidente Jair Bolsonaro, durante evento em Pernambuco, de que atenderia a demanda de caminhoneiros autônomos de auxílio para compensar a alta do diesel. Fontes ouvidas pelo Broadcast informaram que a ajuda aos caminheiros poderia alcançar R$ 400 por mês (de dezembro deste ano a dezembro de 2022), ao custo total estimado de cerca de R$ 4 bilhões.

Em resposta a mais um sinal de que o governo está disposto a abrir os cofres, o dólar chegou a superar a casa de R$ 5,69, ao tocar na máxima de R$ 5,6905 (+2,33%). A moeda americana desacelerou o ritmo de alta em meio à divulgação de detalhes do novo texto da PEC do precatório pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), amenizando um pouco o nível de incerteza sobre os planos do governo.

A intenção, como adiantado pelo Broadcast, é mudar, de fato, as regras do teto. Criado em 2016 e implementado em 2017, o teto prevê correção do limite de gastos pela inflação acumulada em 12 meses até junho. A proposta é alterar a correção para inflação de janeiro a dezembro – recalculando os limites desde 2016. Essa mudança proporcionará folga orçamentária e R$ 40 bilhões – que, aliada à limitação do pagamento de precatórios, joga o espaço fiscal em 2022 para R$ 83,6 bilhões.

No fim da sessão, o dólar era negociado em alta de 1,92%, a R$ 5,6676, maior valor desde 14 de abril (R$ 5,6705). A moeda acumula valorização de 3,90% nesta semana e de 4,07% em outubro. Na B3, o giro com o contrato futuro de dólar para novembro – termômetro do apetite para negócios, era robusto, de mais de US$ 19 bilhões.

O Ibovespa encerrou a quinta-feira um pouco mais “acomodado”, em queda de 2,75%, a 107.735,01 pontos, mínima de fechamento desde 23 de novembro (107.378,92), sem notar a máxima histórica intradia do S&P 500, renovada à tarde e confirmada no encerramento.

O head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, observou que aumento de gastos cogitado até agora não altera de forma relevante a relação dívida/PIB, principal indicador da saúde fiscal do país. O que assusta o mercado, disse Weigt, é a incerteza em relação à magnitude das despesas e à manutenção da âncora fiscal.

A solução menos ruim seria colocar despesas pontuais extrateto. Não tem que mudar a regra do teto”, afirmou Weigt. “O problema é que não se sabe quanto vai ser o gasto. Falam de auxílio de R$ 400, mas pode ser R$ 500, R$ 600, e ainda podem inventar outras despesas”, acrescentou o tesoureiro, dando como exemplo a notícia de que o governo pretende subsidiar o diesel para os caminhoneiros.

Não bastassem as pressões internas, o dia lá fora foi marcado por uma rodada de fortalecimento da moeda americana, com investidores adotando postura defensiva em meio a problemas de solvência da incorporadora chinesa Evergrande. Também dava fôlego ao dólar a alta das apostas de que o Federal Reserve comece a subir os juros no início do segundo semestre de 2022. A onda de inflação global não mostra sinais de arrefecimento e pode ensejar mudança na política monetária nos países desenvolvidos mais cedo do que se imaginava.

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