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Sem fomento ao afroempreendedorismo, negros são apenas 28% dos ‘donos de negócio’ no ABC

Sem políticas de fomento ao afroempreendedorismo, negros são apenas 28% dos ‘donos de negócio’ no ABC
Estudo publicado pela USCS mostra que faltam políticas de fomento ao afroempreendedorismo. Foto: Reprodução

Empreender é muito difí­cil no Bra­sil, mas é ainda mais complicado para os negros. Além das dificuldades impostas no país por um ambiente já naturalmente hostil – burocracia, carga tributária excessiva, difi­culdade de acesso ao crédito, inexistência de educação empreendedora –, a população afrodescendente também tem de enfrentar um longo lega­do de exclusão e se­gregação para se aventurar no mundo dos negócios.

Se é verdade que, nos últimos anos, uma série de ações afirmativas tem aumentado a inserção dos negros nas di­fe­rentes áreas da sociedade bra­sileira, é verdade também que faltam – inclusive no ABC – políticas de fomento ao afroempreen­dedorismo.

“Há um histórico de desi­gualdades decorrentes da escravidão que não foi enfrentado a contento pelo poder público. Por isso, ainda faltam aos negros condições, no mínimo, de igualdade no campo do empreendedorismo”, disse a pesquisadora Vânia Viana, gradua­da em Ciências do Trabalho pe­­la Escola Dieese e coautora de estudo sobre afroempreen­dedorismo publicado na oitava Carta de Conjuntura da Universidade de São Caetano (USCS).

O texto destaca que, entre os sete municípios, somente Dia­dema instituiu programa voltado ao afroempreendedo­rismo, em maio de 2016. Em Santo André, projeto de lei de teor semelhante, de autoria do vereador Alemão Duarte (PT), foi reprovado durante sessão na Câmara do dia 13 de junho.

Há legislações similares vigentes no Estado de Goiás e no Distrito Federal, e um projeto de lei que visa instituir o Programa Estadual de Fomento ao Afroempreendedorismo em tramitação na Assembleia Le­gislativa de São Paulo. “É preciso que as demais cidades do ABC e o governo do Estado se aten­tem para es­sa necessidade”, disse Vânia.

Há poucas estatísticas so­bre o assunto. Dados compi­lados pe­los autores do estudo com base no Censo 2010 do Ins­tituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mos­tram que, naquele ano, no ABC, os negros eram ape­nas 28,2% dos “donos de negócio”, como são cha­mados os empregadores (com ao menos um funcionário) e tra­ba­lhadores por conta pró­pria, enquanto os brancos correspondiam a 61,8% do total.

Mais recentes, números re­lativos a 2014 e 2015 do estudo Inserção dos Negros no Mercado de Trabalho, elaborado com base na Pesquisa de Emprego e De­semprego e De­sempre­go (PED), também apontam disparidade de raça/cor no empreende­do­rismo da região. Segun­do a pesquisa, da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e do Departamento In­tersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Die­ese), 3,8% dos negros ocupados naqueles anos eram empregadores e proprietários de empresa familiar, contra 8,8% entre os brancos.

O problema é que, para os negros, o empreendedorismo nasce, mais do que para os brancos, na falta de oportunidades no mercado de trabalho. Informações do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) relativas a 2017 mostram, no país, 46% dos negros empreenderam por necessidade, contra 30% entre os brancos.

“A igualdade passa por criar aos negros condições de parti­cipar tanto do empreende­do­rismo de necessidade quanto do de oportunidade, que tem nas startups sua melhor carac­terização. Esses espaços de tecnologia também precisam ter aumentada a participação dos negros”, ressaltou Jefferson Jo­­sé da Conceição, coordena­dor do Observatório de Conjuntura, Políticas Públicas e Em­preen­dedorismo da USCS e c0autor do estudo.

RACISMO

Conceição entende que o ra­cismo está muito presente no empreende­dorismo. “O negro não tem o mesmo acesso ao crédito que o branco, da mesma forma que o investidor-anjo não recebe o dono de startup negro como recebe o branco.”

O estudo também cita iniciativas da sociedade civil de apoio ao afroempreen­dedorismo, co­mo a parceria entre a Central Única das Favelas (Cufa) e o Fa­cebook, visando capacitar empreen­dedores de favelas cariocas a usar os recursos da rede social para alavancar negócios.

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